------------------------------------- MISSIONÁRIOS DA LUZ LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 8 NO PLANO DOS SONHOS Depois de alguns minutos de conversa agradável, Francisco aproximou-se de Alexandre e perguntou sobre o que seria a reunião da noite. - Ah, sim, - explicou o instrutor – faremos um trabalho de esclarecimento geral aos nossos amigos, com relação a problemas de mediunidade e psiquismo, sem detalhes particulares. - Se me permite, – disse Francisco – gostaria de trazer alguns companheiros que sempre colaboram conosco. Ficaríamos muito felizes em vê-los aproveitando as horas de sono físico. - Claro. O trabalho de hoje destina-se à preparação de colaboradores encarnados. Estaremos à disposição e será uma alegria receber o seu grupo. Francisco agradeceu satisfeito e perguntou: - Podemos providenciar, então? - Imediatamente – explicou Alexandre. – Leve os companheiros ao local que você já conhece. O grupo de socorristas se afastou, deixando-me muitas idéias novas. Segundo soube mais cedo, naquela noite Alexandre dirigiria um pequeno grupo de estudiosos e, assim que ficamos sozinhos, explicou: - Nosso grupo de estudantes encarnados já conta com um bom número de participantes. No entanto, faltam a eles algumas qualidades essenciais para funcionar em perfeita harmonia. Em vista disso, é necessário propiciar-lhes conhecimentos mais construtivos. E, como achou que seria útil dar-me maiores detalhes para o meu próprio aprendizado, acrescentou, gentil: - Pensando nisso, criei um curso de esclarecimento metódico para melhorar a situação. Nem todos sabem aproveitar as horas de sono para esse tipo de atividade, mas, se alguns agricultores mais corajosos não tomarem a iniciativa de plantar algumas sementes, a fim de se ter uma verdadeira plantação, nunca teremos a lavoura farta. E, sorrindo, afirmou: - Em nosso grupo, contamos com mais de 300 associados. No entanto, apenas 32 conseguem vencer as influências inferiores do físico para assimilar nossas lições. E há noites em que, mesmo estes, não cumprem o compromisso assumido, deixando-se envolver pelas seduções comuns. Em compensação, de vez em quando temos a presença inesperada de outros companheiros, como nesta noite, em virtude da lembrança de Francisco, que voltará com alguns amigos. - E os encarnados que comparecem – perguntei, curioso – conseguem se lembrar de tudo o que ouvem e vêem? Alexandre pensou um pouco e falou: - Com o tempo, você verá que a capacidade sensorial é bem limitada. O espírito guarda a lembrança completa e levará com ele todos os ensinamentos, reforçando-os e aproveitando-os de acordo com o estágio evolutivo em que esteja. O homem encarnado, no entanto, submetido a limitações necessárias, não consegue ir tão longe. Pelas circunstâncias em que se vê colocado, o cérebro físico é um aparelho de potencial reduzido, dependendo muito da elevação do espírito que o comanda, no que diz respeito à fixação de determinados benefícios espirituais. Desse modo, André, o arquivo de lembranças como essas, no registro cerebral temporário, é muito diferente entre os estudantes, variando de espírito para espírito. Entretanto, é preciso dizer que os companheiros de boa vontade terão guardados na memória esses benefícios, mesmo que, enquanto acordados, não consigam dizer exatamente o que são e de onde vieram. Aulas como a de hoje são de muita utilidade prática. Quando acordam depois delas no físico, os estudantes sentem-se alíviados, descansados e cheios de esperança, em função dos novos cohecimentos adquiridos. É claro que não conseguem relembrar tudo nos mínimos detalhes, mas guardam a essência, sentindo-se inexplicavelmente renovados, não só para retomar a luta diária no corpo físico, mas também para trabalhar pelo próximo e combater, com êxito, as próprias imperfeições. Seus pensamentos tornam-se mais claros, os sentimentos se elevam e as preces são mais sinceras e profundas, enriquecendo suas atividades de cada dia. - É uma pena – disse eu, aproveitando a pausa – que nem todos os membros do grupo possam frequentar aulas desse tipo. A reunião de mais de 300 pessoas com os mesmos objetivos elevados, recebendo, em conjunto, bênçãos sublimes de luz, seria extremamente produtiva. - Sem dúvida – comentou Alexandre, sempre otimista. – No entanto, não podemos violentar ninguém. Toda elevação é sinônimo de subida e toda subida exige esforço. Se os nossos amigos não aproveitam a força que têm e menosprezam seus próprios direitos, por se esquecerem e, às vezes, até detestarem os deveres espirituais que Deus lhes confiou, o que fazer por eles, se a realização divina e eterna de cada um de nós é lei básica da vida? A observação de Alexandre era profunda e indiscutível. A essa altura, chegamos a um grande edfício, de linhas modestas, mas cheio de luz. - Agora vamos ao trabalho! – disse Alexandre, decidido. - Mas – argumentei – as aulas não são dadas na sede do grupo onde se realizam os trabalhos que você dirige? - Se o trabalho – respondeu ele – se destinasse apenas aos desencarnados, poderíamos fazê-lo lá mesmo, sem problemas, mas, neste caso, estamos atendendo encarnados, que vêm até aqui em condições muito especiais, e precisamos aproveitar os recursos energéticos desses amigos que ainda se encontram na Terra. Quando chegamos à porta de entrada, onde havia muitos companheiros desencarnados, Alexandre explicou: - Esta é uma grande instituição espírita, a serviço dos necessitados, dos tristes e dos sofredores. O espírito de família vive nesta casa de amor cristão erguida pelo Espiritismo, com a ajuda de uma grande missionária. Aqui nossos trabalhos serão realizados com mais eficiência, considerando os seus objetivos. - É interessante – comentei – que precisemos de ambientes familiares para as instruções aos amigos encarnados. - Sim, – respondeu Alexandre - você não pode esquecer que grandes ensinamentos de Jesus foram transmitidos em ambiente familiar. A primeira instituição visível do Cristianismo foi o lar humilde de Pedro, em Cafarnaum. Uma das primeiras manifestações de Jesus em público foi numa festa de núpcias, em pleno aconchego do lar. Ele muitas vezes visitou a casa de pecadores, acendendo novas luzes nos corações. A última reunião com os discípulos também aconteceu num ambiente familiar. O primeiro grupo de serviço cristão em Jerusalém foi também a casa de Pedro, transformada em fortaleza da nova fé. Não há dúvida de que todo templo de pedra, quando compreendido corretamente, funciona como farol em meio às sombras, indicando o bom caminho aos viajantes do mundo, mas não podemos esquecer que o movimento vital das idéias e realizações acontece no altar do espírito, no coração dos filhos de Deus. Sem o sentimento de compromisso, na fé vivenciada no íntimo de cada um, qualquer manifestação religiosa limita-se a culto externo. Por isso mesmo, André, no futuro, a humanidade transformará os templos materiais em escolas, orfanatos e hospitais, onde não só o sacerdote interpretará a fé, mas onde a criança encontrará o esclarecimento, o jovem poderá ser orientado para as realizações da vida, o doente receberá o medicamento necessário, o ignorante será iluminado e o velho será amparado com esperança. O Espiritismo evangélico é também o restaurador das antigas igrejas apostólicas, amorosas e trabalhadoras. Seus intérpretes fiéis serão importantes colaboradores na transformação dos ambientes teológicos, cheios de política, em academias da espiritualidade; das catedrais de pedra em lares acolhedores de Jesus. Daria tudo para continuar ouvindo as maravilhosas explicações de Alexandre, mas, nesse instante, passamos pela porta. Notei que faltavam apenas cinco minutos para as duas horas da manhã. Pelo grande número de entidades que vieram, rapidamente, ao nosso encontro, percebi que havia grande interesse pela palestra instrutiva da noite. Não estavam presentes apenas os alunos de Alexandre, mas também outros amigos trazidos até ali por protetores do plano espiritual. Pequeno grupo de companheiros se aproximou de nós com mais intimidade. Um deles conversou com Alexandre de maneira mais direta. - Ainda não chegaram todos? – perguntou o instrutor, interessado, depois de trocarem algumas informações iniciais. Percebi claramente que falava dos encarnados do grupo que dirigia, que deveriam comparecer. - Faltam apenas dois companheiros – explicou o outro. – Até o momento, Vieira e Marcondes não chegaram. - Precisamos iniciar os trabalhos – disse Alexandre, sem se alterar. – Temos que terminar a reunião às 4 horas, no máximo. E, demonstrando preocupação verdadeira, acrescentou: - Pode ser que tenham sofrido algum acidente. Vamos verificar Com a atitude decidida e calma que lhe é característica, recomendou ao assistente que lhe dava informações: - Sertório, enquanto vou cuidar dos últimos preparativos para as instruções da noite, descubra o que aconteceu. Com respeito, o assistente perguntou: - Caso eles estejam envolvidos com entidades inferiores, o que devo fazer? - Deixe-os onde estiverem – respondeu Alexandre, com firmeza. – Este não é o momento para conversar com quem se prende, deliberadamente, ao plano inferior. Quando terminarmos o trabalho, você mesmo tomará as providências necessárias. Sertório se preparava para sair, quando Alexandre, percebendo meu interesse em acompanhá-lo, acrescentou: - Se quiser, André, pode ir com ele para ajudar. Sertório ficará feliz com a sua companhia. Agradeci com muita satisfação e abracei o assistente de Alexandre, que me retribuiu com um sorriso gentil. Saímos. Era indispensável agir com rapidez. No entanto, percebendo minha curiosidade, Sertório explicou: - Quando encarnados na Terra, não temos consciência suficiente dos trabalhos que se realizam durante o sono físico. No entanto, essas atividades são imensas e muitos importantes. Se todos os homens levassem a sério a preparação espiritual, tendo em vista este tipo de tarefa, com certeza alcançariam conquistas psíquicas mais brilhantes, mesmo ainda ligados a um corpo físico. Infelizmente, porém, a maioria aproveita o repouso noturno para ir, inconscientemente, em busca de emoções fúteis ou menos dignas. Relaxam as próprias defesas e certos impulsos, abafados durante a vigília, transbordam em todas as direções, por falta de educação espiritual, sentida e vivida de verdade. Buscando maiores esclarecimentos, perguntei: - Mas isso acontece também com estudantes mais avançados do Espiritualismo? Alunos de intrutores do nível de Alenxndre poderiam ser vítimas de enganos como este? - Por que não? – respondeu Sertório. – Não tenha a menor dúvida. Quantos não pregam a verdade sem aderir intimamente a ela? Quantos não repetem fórmulas de esperança e paz, levando desespero e perseguição no fundo do coração? Há sempre muitos “chamados” em todos os setores de construção e elevação do mundo! Os “escolhidos”, no entanto, são sempre poucos. Completando o pensamento, como se não quisesse passar a falsa idéia de particularismos divinos, acrescentou: - E é preciso revermos nossos conceitos sobre os “escolhidos”, que não são criaturas especialmente favorecidas pela graça divina, a qual é sempre a mesma fonte de bênçãos para todos. Sabemos que a “escolha”, em qualquer trabalho construtivo, não elimina a “qualidade”. Se o homem não tem qualidade superior para a tarefa divina, em hipótese nenhuma pode esperar ser escolhido. Assim, conclui-se que Deus chama todos os seus filhos à cooperação em sua obra sagrada, mas somente os que se dedicam, persistem e trabalham com fidelidade demonstram as qualidades eternas que os tornam dignos de grandes tarefas. E, considerando que as qualidades são frutos das nossas próprias construções, nunca poderemos esquecer que a escolha divina começará pelo esforço de cada um. A tese de Sertório era muito interessante e educativa, mas já havíamos chegado a um pequeno edifício, em frente ao qual ele parou e falou: - Esta é a casa de Vieira. Vamos ver o que acontece. Segui-o em silêncio. Em poucos minutos, estávamos em um quarto confortável, onde dormia um homem idoso, fazendo um ruído estranho. Notava-se, perfeitamente, seu perispírito, unido ao corpo físico, embora ambos estivessem parcialmente desligados entre si. Ao seu lado, estava uma entidade estranha, usando roupas totalmente negras. Percebi que o companheiro adormecido sofria com impressões de profundo pavor. Gritos agudos escapavam de sua garganta. Sufocava-se, angustiado, enquanto a entidade escura fazia gestos que eu não conseguia compreender. Sertório aproximou-se de mim e comentou: - Acho que ele mesmo atraiu esta entidade até aqui. Com muita delicadeza, o assistente começou a conversar com a entidade sombria: - Você é amigo deste companheiro? - Não, não. Somos apenas antigos conhecidos. E, muito impaciente, exclamou: - Hoje à noite, Vieira me chamou com as suas lembranças repetidas e acusou-me por erros que não cometi, falando de mim para a família. Claro que não gostei nada disso. Será que já não basta o que tenho sofrido depois da morte? Ainda preciso ouvir calúnias de amigos maledicentes? Não esperava isso dele, em virtude do carinho que unia as duas família há alguns anos. Vieira sempre foi de minha confiança. Em função do imprevisto, decidi esperar que dormisse, para dar-lhe as explicações necessárias. O visitante estranho, entretanto, fez uma pausa, sorriu com ironia, e continuou: - Só que, desde o momento em que comecei a explicar-lhe a situação do passado, contando-lhe os verdadeiros motivos de minhas atitudes e decisões na vida física, para que não continue me caluniando, mesmo sem querer, Vieira fez esta cara de pavor que estão vendo e parece não querer ouvir o que tenho a dizer. Interessado nas novas lições, aproximei-me do companheiro encarnado adormecido e notei o suor frio que ensopava os lençóis. Não parecia entender o auxílio que lhe era trazido, olhando-nos assustado e desconfiado, piorando ainda mais os gemidos e gritos que soltava. Percebendo que Sertório desaprovava, em silêncio, o seu comportamento, a entidade falou-lhe de modo especial: - O senhor acredita que devamos aceitar resignados as acusações levianas? Não se deve censurar e punir o amigo ingrato que se aproveita da morte para caluniar e diminuir? Se Vieira se sentiu no direito de me acusar, sem conhecer certos detalhes dos meus problemas particulares, não é justo que ouça minhas explicações até o fim? Será que ele não sabe que os mortos continuam vivos? Não sabe, por acaso, que a memória de um amigo deve ser sagrada? Ora esta! Eu mesmo, depois de morto, já o ouvi falar sobre o respeito que devemos uns aos outros!... O senhor não acha, então, que tenho motivos justos para querer me explicar? Sertório fez um gesto de compreensão e falou: - Talvez você tenha razão, mas acho que deveria desculpar seu amigo! Como querer dos outros uma atitude rigorosamente correta, se ainda somos todos imperfeitos? Tenha calma, vamos usar de caridade uns para com os outros!... E, enquanto a entidade se pôs a pensar no que ouviu, Sertório me falou, discretamente: - Vieira não poderá participar da reunião esta noite. Não pude disfarçar a má impressão que a cena me causava e, como olhei para ele, pedindo pelo companheiro quase desencarnando de medo, ele prosseguiu: - Retirar, violentamente, a visita que ele mesmo atraiu, não é tarefa que eu possa realizar. Mas podemos ajudá-lo, acordando-o. E, sem vacilar, sacudiu com força o companheiro, chamando seu nome. Vieira acordou confuso, assustado e muito cansado, e ouvi-o dizer, muito pálido: - Graças a Deus, acordei! Que pesadelo horrível!... Será que eu estava brigando com o fantasma do velho Barbosa? Não!... Não posso acreditar!... Não nos viu, nem percebeu a presença da entidade escura, que continuou ali não sei por quanto tempo. Quando saímos, ainda percebi seus questionamentos íntimos, perguntado a si mesmo o que havia comido no jantar, tentando justificar o susto terrível com motivos físicos. Longe de consultar a própria consciência, com relação à maledicência e à leviandade, procurava colocar no próprio estômago a lição, tentando fugir à realidade. Só que Sertório não me deu oportunidade para maiores observações. Em seguida, já entrávamos em outro apartamento. No entanto, neste o quadro era muito mais triste e constrangedor. Marcondes estava, de fato, ali mesmo, parcialmente desligado do corpo físico, que dormia tranquilamente sob as colchas rendadas. Não estava apavorado como Vieira, mas apresentava profundo relaxamento, típico dos viciados em ópio (1). Ao seu lado, três entidades femininas de expressão vulgar mantinham-se em atitude bastante perturbada. Vendo-nos, de repente, o dono da casa se surpreendeu claramente, em especial quando reconheceu Sertório, que era seu conhecido há mais tempo. Levantou-se, envergonhado, e ensaiou algumas desculpas, com dificuldade: - Meu amigo, - começou a dizer – já sei que veio me procurar... Não sei como explicar o que está acontecendo... E não pôde continuar, mergulhando a cabeça nas mãos, como se quisesse esconder-se de si mesmo. A essa altura da cena constrangedora, notei claramente que as entidades eram das mais desequilibradas que já havia conhecido ou encontrado nas regiões inferiores. Irritadas com a indecisão do companheiro, que parecia triste e humilhado, explodiram em grande tumulto, aproximando-se de nós, sem o menor respeito. - Vocês não podem nos roubar o Marcondes – disse uma delas, enfaticamente. – Afinal, vim de muito longe para perder meu tempo assim, sem mais nem menos! - Ele mesmo nos chamou para a noitada – disse a outra, com atrevimento – e não vai fugir de jeito nenhum. Sertório ouvia, sereno, demonstrando compaixão. A terceira entidade, que parecia ter instintos inferiores mais enraizados, aproximou-se de nós com profundo sarcasmo e falou, dando a entender que não era a primeira vez que Sertório vinha até ali com os mesmos objetivos e nas mesmas circunstâncias: - Vocês não passam de intrometidos. Marcondes é fraco e se deixa impressionar pela presença dos dois, mas nós podemos reagir. Vocês não vão conseguir levar o nosso predileto. E, gargalhando, irônica, dizia: - Também temos técnicas de prazer. Marcondes não vai se afastar. Ao contrário de mim, Sertório não dava a menor atenção. As palavras daquelas criaturas me irritavam profundamente. Ao meu lado, o assistente de Alexandre mantinha-se sereno e bondoso. O próprio encarnado continuava triste e humilde. Qual a razão para aqueles insultos? Ìa dizer alguma coisa, no sentido de esclarecer a situação de uma vez por todas, quando Sertório me deteve: - Calma, André! Um minuto de vacilação com as provocações dos planos inferiores pode nos custar um século! Em seguida, com tranquilidade invejável, dirigiu-se ao companheiro, perguntando, sem demonstrar censura: - Marcondes, o que vou dizer de você hoje, meu amigo? O outro respondeu, chorando humilhado: - Ah, Sertório, como é difícil manter o coração limpo! Desculpe-me... Não sei como isto aconteceu... Não tenho explicação... Mas Sertório não parecia disposto a ouvir lamentações e, deixando claro que queria aproveitar o tempo, interrompeu-o, dizendo: - Sim, Marcondes. Cada um escolhe as companhias que prefere. No futuro, você vai entender que somos seus amigos de verdade e que só queremos o seu bem. As mulheres vomitaram nova série de palavras ofensivas. Marcondes voltou a se lamentar, mas Sertório, sem hesitar, pegou-me pela mão e voltamos à rua. - Vamos voltar imediatamente – disse ele, decidido. - E como fica? – perguntei – Não vai acordá-lo? - Não. Aqui não podemos agir da mesma maneira. Marcondes deve ficar como está, para que amanhã a lembrança desagradável seja mais duradoura, provocando-lhe desconforto e constrangimento pelo mal. - E o que vamos fazer, então? – perguntei, espantado. - Vamos contar a Alexandre o que se passa – respondeu ele, calmo – É que o devemos fazer. E, resumindo as longas explicações que poderia dar sobre o caso, enfatizou: - Por ora, André, temos algo mais importante a cuidar, em nosso trabalho espiritual. Entretanto, quando a reunião terminar, voltarei para ver o que se pode fazer em favor dos nossos amigos. No momento, não devemos perder tempo. Alexandre não dá palestras apenas para os encarnados. Elas são também importantes para nós, que ainda precisamos conquistar maiores recursos para socorrer, com sucesso, os companheiros que continuam na Terra. - Sim, concordo – respondi. – No entanto, a situação deles me deixa bastante preocupado. Sertório me interrompeu, concluindo com segurança: - Conserve este sentimento, que é sagrado, mas não se arrisque a qualquer sentimentalismo doentio. Tenha certeza de que serão ajudados no momento certo, mas não se esqueça de que, se eles mesmos se colocaram em situações como estas, é natural que adquiram alguma experiência positiva, às custas da própria decepção. Notas: (1) ópio - muitas substâncias com grande atividade farmacológica podem ser extraídas de uma planta chamada Papaver somniferum, conhecida popularmente como papoula do oriente. Ao se fazer cortes na cápsula da flor, quando ainda verde, obtém-se um suco leitoso, o ópio (que, em grego, significa suco). Quando seco, este suco passa a se chamar pó de ópio, com várias substâncias de grande atividade. A mais conhecida é a morfina, palavra que vem do deus dos sonhos da mitologia grega, Morfeu. Pelo próprio segundo nome da planta, somniferum, de sono, e do nome morfina, de sonho, já se pode ter uma idéia da ação destas substâncias no homem: são depressores do sistema nervoso central, isto é, fazem com que o cérebro funcione mais devagar. Mas o ópio contém ainda outras substâncias conhecidas, como a codeína. É possível também obter-se outra substância, a heróina, semi- sintética (ou semi-natural), ao se fazer uma pequena modificação química na fórmula da morfina. Estas substâncias todas são chamadas de drogas opiáceas ou, simplesmente, opiáceos, ou seja, oriundas do ópio, e podem ser naturais, quando não sofrem modificação (morfina, codeína), ou semi-sintéticos, quando são resultantes de modificações parciais das substâncias naturais (como é o caso da heroína). Hoje já existem também os opióides, substâncias totalmente sintéticas, ou seja, preparadas artificialmente pelo homem, com ação semelhante à dos opiáceos, como a meperidina ou petidina, o propofixeno e a metadona, largamente usadas como medicamentos contra a tosse, a diarréia, a dor, etc.