------------------------------------- MISSIONÁRIOS DA LUZ LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 11 INTERCESSÃO Um noite, depois de sua palestra para os encarnados, Alexandre foi procurado por duas senhoras, que foram levadas, em condições muito especiais, àquele curso adiantado de esclarecimento, uma vez que eram espíritos ainda muito presos ao corpo físico e procuravam o instrutor, temporariamente libertas pelo sono. A mais velha, espírito claramente mais elevado, considerando as luzes que a rodeavam, parecia ser conhecida de Alexandre, que a recebeu com grandes demonstrações de carinho. A outra, no entanto, elvolvida num círculo escuro, tinha o rosto triste e angustiado. - Ah, meu amigo,– disse a entidade mais simpática ao instrutor, depois dos cumprimentos – esta é minha prima Ester, que perdeu o marido em condições muito tristes. E, enquanto a mulher apresentada enxugava os olhos, em silêncio, muito constrangida, a outra continuava: - Alexandre, sei da importância e da urgência dos seus serviços, mas tomo a liberdade de pedir sua ajuda para os nossos problemas terrenos. Se o que pedimos for absurdo, desculpe-nos com sua bondade. Somos mulheres humanas. Por isso, perdoe-nos se vimos aqui para resolver problemas tão tristes!... - Etelvina, - disse Alexandre, com carinho – a dor sincera é digna de amparo em qualquer lugar. Os sofrimentos existem tanto no mundo físico quanto aqui, onde vivemos sem o corpo mais denso, e, seja onde for, devemos estar prontos a colaborar de coração. Por isso, diga o que querem e fiquem à vontade! As duas senhoras pareceram aliviadas e passaram a conversar calmamente. Etelvina, satisfeita, indicou, então, a prima, que passou a contar sua história triste. Há 12 anos havia se casado com o segundo noivo que conheceu, já que o primeiro, a quem amou muito, havia se suicidado em circunstâncias misteriosas. No começo, preocupava-se muito com a atitude de Noé, o primeiro noivo. No entanto, a atenção de Raul, aquele com quem havia se casado, conseguiu afastá-la das mágoas do passado, proporcionando-lhe alegria e entendimento na vida conjugal. Tiveram três filhos e viviam em grande harmonia. Raul, apesar de triste, era dedicado e fiel. Muitas vezes quis aliviá-lo de suas dores íntimas, mas o marido nunca se abriu completamente. Mesmo assim, viviam felizes e tranquilos, com muita compreensão. No entanto, mesmo vivendo apenas para a família, sofreram a perseguição de inimigos desconhecidos, que lhes roubaram a paz e a felicidade. Raul havia sido inexplicavelmente assassinado. Amigos anônimos recolheram seu cadáver da rua, levando a triste notícia à esposa. Tinha um tiro no coração e o revólver, que não lhe pertencia, havia sido encontrado junto ao corpo. Que mistério envolvia aquele crime? Muitas pessoas e policiais acreditavam em suicídio, tanto que todas as investigações criminais haviam sido encerradas. No entanto, como sua esposa, acreditava em assassinato. Que motivos levariam um homem honesto e trabalhador a cometer suicídio? Por que Raul se mataria, quando tinham um futuro tão promissor à frente? É verdade que não eram ricos, mas viviam bem e sabiam equilibrar as despesas. Não, não, para ela o marido havia sido vítima de um crime. Mas, em sua bondade, não desejava acusar ninguém, nem obter vingança. Queria apenas acalmar o próprio coração. Seria possível, com a ajuda de Alexandre, sonhar com o marido, para saber notícias suas e sentir que continuava preocupado com a família? Com os filhos pequenos e dois tios idosos para cuidar, estava enfrentando dificuldades com a viuvez inesperada. No entanto, estava disposta a trabalhar pelos filhos, recomeçando a vida, mas, antes, desejava um consolo, descobrindo a verdade e sabendo da situação do marido, para conformar-se. E, no fim do longo e triste relato, concluía, chorando, dizendo ao instrutor: - Por favor, Alexandre, diga-me alguma coisa? O que será que aconteceu a Raul? Quem o teria assassinado? E por quê? A viúva parecia alucinada de dor e fazia os mais absurdos questionamentos. Alexandre, no entanto, longe de se incomodar com as perguntas, assumiu atitude serena e, com carinho, tomou as mãos de Ester, respondendo-lhe: - Tenha calma e coragem, minha amiga! Neste momento, não tenho como ajudá-la. É preciso investigar, com cuidado, para solucionar o problema adequadamente. Assim, volte para casa e descanse. Existem angústias que não podem ser resolvidas com raciocínios do mundo. É necessário confiá-las a Deus, no refúgio da oração. Fortaleça sua fé, confie em Deus e veremos o que é possível fazer para obter informação e ajuda. Vamos cuidar do assunto com atenção! As duas mulheres fizeram ainda alguns comentários tristes a respeito do fato, e despediram-se, em seguida, com palavras de gratidão e conforto. Sozinho comigo e talvez percebendo minha necessidade de preparo e conhecimento, Alexandre explicou: - Muitas vezes, os nossos amigos encarnados acreditam que somos meros adivinhos e, pelo simples fato de vivermos no mundo espiritual, acham que temos poderes especiais, esquecendo-se de que o esforço e o trabalho próprios são leis em todos os planos da vida. E, sorrindo, acrescentou: - Entretanto, precisamos reconhecer que, quando encarnados, não agiríamos de outra forma, se nos víssemos na mesma situação. No dia seguinte, como eu ainda tinha algum tempo, Alexandre me convidou para acompanhá-lo à casa de Ester. Seu lar seria o ponto de partida para as investigações que pretendia fazer. - Como assim? – questionei – Não seria mais prático invocar logo o próprio marido pelos nossos poderes mentais? Assim, Raul poderia ser ouvido sem dificuldade e nós veríamos o que poderíamos fazer por Ester. Alexandre, no entanto, sem desprezar minha idéia, argumentou: - Este é, sem dúvida, o método mais fácil e, em muitos casos, o mais indicado. No entanto, André, o serviço de intervenção, para ser completo, exige algo mais de nós mesmos. Dedicando um pouco de nosso tempo e de nossas energias a Ester, teremos mais créditos para as nossas investigações, com relação à situação geral, enriquecendo, ao mesmo tempo, nossa colaboração. Quem faz o bem é o primeiro a se beneficiar e quem acende uma luz é o primeiro a se iluminar. Como quem não queria prolongar a conversa, Alexandre calou-se e saímos os dois, entendendo eu, mais uma vez, que, assim como na Terra, o serviço de socorro fraterno no plano espiritual exige esforço, tolerância e dedicação. A casa da pobre viúva ficava numa rua modesta e, embora tivesse algum conforto, parecia habitada por muitas entidades desequilibradas, o que pude notar facilmente antes de chegarmos,, só pelo movimento de entra e sai. Entramos, sem que os espíritos perturbados nos percebessem, em função do baixo padrão vibratório de suas capacidades de percepção. O cenário era muito triste. A família, constituída da mulher, três filhos e um casal de idosos, estava almoçando. No entanto, algo inédito para mim chamou minha atenção. Seis entidades envolvidas em círculos escuros acompanhavam a refeição, como se ingerissem os alimentos por absorção. - Meu Deus! – exclamei, assustado, para o instrutor – Será possível? Desencarnados comendo? Alexandre respondeu, tranquilo: - André, os quadros de viciação mental, ignorância e sofrimento, nos lares sem equilíbrio espiritual, são muito grandes. Onde não existe organização espiritual, não há defesas. Isto é instintivo para aqueles que cultivam pensamentos elevados. Depois de pausa rápida, em que observava o quadro com compaixão, prosseguiu: - Aqueles que desencarnam em condições de apego excessivo aos parentes encarnados, encontrando neles a mesma atitude, quase sempre se mantêm ligados à casa, às situações domésticas e às energias da família. Comem com os parentes e dormem no mesmo quarto em que vieram a desencarnar. - Mas chegam a se alimentar de verdade, utilizando os pratos de antes? – perguntei espantado, ao ver a satisfação daquelas entidades, absorvendo, com prazer, as emanações das travessas. Alexandre sorriu e acrescentou: - Tanto espanto só por ver espíritos absorvendo alimentos pelo nariz? E nós? Você, por acaso, não sabe que o próprio homem encarnado recebe mais de 70% de sua alimentação da atmosfera, captados pela respiração? Você sabe também que as substâncias cozidas ao fogo sofrem profunda desintegração. Ora, estes espíritos, viciados nas sensações físicas, encontram, nestes elementos desintegrados, o mesmo sabor que sentiam quando encarnados. - Mas, - argumentei – me parece muito desagradável fazer as refeições em companhia de desconhecidos, ainda mais desconhecidos como estes que vemos aqui. - Mas você não pode esquecer – respondeu Alexandre – que não se trata de gente desconhecida. São todos parentes que os próprios encarnados seguram com as suas vibrações pesadas de apego doentio. Alexandre refletiu um pouco e continuou: - Mas, vamos admitir que você tenha razão. Ainda que a refeição em família estivesse rodeada de entidades intrometidas, sem laços de parentesco com os encarnados, sabemos que os espíritos se reúnem em obediência às tendências que apresentam e ao fato de que cada um tem as companhias que escolhe. E querendo reforçar meu aprendizado, argumentou: - A refeição em família é sempre um captador de influências invisíveis. Em sendo assim, o homem que mantenha pensamentos elevados, terá sempre a companhia dos trabalhadores espirituais que estiverem por perto. A família que cultive energias mais sutis, terá sempre a orientação dos espíritos de luz, aproveitando os momentos de conversa elevada para semear sementes de idéias novas que, então, germinam espontaneamente. Entretando, pela mesma lei de afinidade, a maledicência atrairá caluniadores invisíveis e a ironia irá, sem dúvida, em busca de entidades sarcásticas e debochadas, que inspirarão piadas de mau gosto, dando margem à leviandade e à perturbação. Apontando o grupo que almoçava, destacou: - Aqui, os tristes encarnados atraem os desencarnados de condição similar. E o vampirismo é recíproco. Ouça o que dizem. - Nunca pensei que sofreria tanto neste mundo! – dizia a tia idosa de Ester, queixando-se cheia de amargura – Eu e Agostinho trabalhamos tanto quando jovens! Agora que já estamos velhos, sem recursos para nos sustentar, somos obrigados a sobrecarregar uma pobre sobrinha viúva! Que destino triste!... E, enquanto chorava, o marido concordava: - É verdade! Uma compensação tão amarga, para uma vida de trabalho e dificuldade!... Nunca esperei passar por uma velhice tão difícil!... As entidades, como se estivessem vestidas de sombra, ao ouvirem estes comentários, pareciam mais comovidas, abraçando-se fortemente ao velhos. A viúva, no entanto, apesar de triste, comentou, resignada: - De fato, temos passado por muitas dificuldades, mas precisamos confiar na bondade de Deus. Alexandre concentrou nela toda a atenção e notei que, em sua alma, nova disposição nascia. Com os olhos brilhantes, como se captasse, de muito longe, a nossa influência espiritual, lembrou vagamente o sonho da noite anterior e disse: - Hoje, graças a Deus, acordei muito mais animada. Sonhei que Etelvina me levou ao encontro de um mensageiro celeste que me abençoou, aliviando-me as dores dos últimos dias! Ah, como seria bom se pudesse reviver este sonho!... - Ah, mãe, conte pra gente! – disse a filha de, mais ou menos, sete anos, que, até ali, havia ficado calada. A mãe, feliz, comentou: - Filha, não é possível descrever as grandes sensações. Não me lembro bem de tudo, mas sei que o mensageiro de Jesus me ouviu com paciência e, em seguida, me disse algumas palavras de incentivo e amor. Em vez de me repreender, recebeu-me, com bondade, e demonstrando grande tolerância, escutou minhas queixas até o fim, como se fosse um médico dedicado. É claro que, hoje, acordei com outro ânimo. Vamos nos conformar, pois Deus vai nos ajudar. Logo que esteja bem, vou trabalhar. Vamos manter fé e esperança. Em vista das afirmações otimistas da mãe, os meninos sorriram, enquanto os velhos calavam a amargura que guardavam. Quis ficar visível para os desencarnados sem luz que se movimentavam ali, para poder conversar com eles e saber de suas experiências, mas Alexandre me convenceu do contrário: - Seria perda de tempo – disse – e, se você quer mesmo ajudá-los, terá que vir aqui outras vezes, porque as cristalizações mentais de muitos anos não se desfazem com apenas algumas palavras. No momento, nosso objetivo é outro. Precisamos obter informações a respeito de Raul. Além disso, se fôssemos ouvir estes desencarnados, veríamos que eles não têm outra coisa para nos oferecer, a não ser tristes reclamações, que não se aproveitam para nada. E sem maior interesse pela conversa do encarnados, em vista do objetivo do momento, considerou: - Vamos procurar alguns dos companheiros de visitas. Precisamos de algumas informações iniciais para começar o nosso trabalho de intervenção. E como Alexandre se dirigiu a outros cômodos, fui com ele, embora quisesse continuar observando. Mas o instrutor não tinha muito tempo a perder. Depois de alguns minutos, encontramos uma entidade humilde, mas muita digna, com quem Alexandre falou com muito carinho: - Você trabalha nas visitas? - Sim, às suas ordens. – respondeu o outro, gentil. Alexandre disse-lhe, rápida e abertamente, o que pretendíamos. Então, o encarregado das visitas explicou-se. Conheceu Raul de perto e o havia ajudado muitas vezes, dando-lhe assistência espiritual contínua. No entanto, nem ele, nem outros amigos puderam evitar o suicídio friamente planejado. - Suicídio? – perguntou Alexandre, querendo saber mais detalhes. – A viúva acredita que ele foi assassinado. - Acontece que – disse o outro – ele soube disfaçar com cuidado. Pensou muito antes do ato infeliz e, no último dia, comprou um revólver para consumá-lo. Disparando contra o próprio peito, atirou a arma a pequena distância, não sem antes tomar todo o cuidado para evitar as impressões digitais. Desse modo, conseguiu burlar a família, fazendo-os acreditar em crime. - E você chegou a vê-lo nos últimos minutos de vida? – perguntou Alexandre, sereno. - Sim. – explicou o outro – Eu e alguns amigos tentamos socorrê-lo, mas, em virtude das condições da morte voluntária, friamente planejada, não pudemos retirá-lo da poça de sangue em que ficou mergulhado, retido por vibrações muito densas e pesadas. Estávamos em serviço, tentando ajudá-lo, quando um bando de dezenas de entidades se aproximou, abusou do infeliz e facilmente o arrastou, em função da sintonia de forças nocivas. Como vê, não pudemos tirá-lo das mãos dos assaltantes das sombras, que o levaram por aí... Alexandre parecia satisfeito com as explicações e, quando vi que pretendia terminar a conversa, perguntei: - Mas... e a causa do suicídio? Não seria interessante perguntar a ele? - Não. – disse ele – Vamos perguntar ao próprio interessado. Despedimo-nos, mas aquela pergunta me atormentava o pensamento. Não me contive por muito tempo, questionando o instrutor: - Um “bando”? Mas o que significa isso? – perguntei. Alexandre, que me parecia mais preocupado agora, explicou: - O “bando” a que se referiu o companheiro é a multidão de entidades desequilibradas, dedicadas à prática do mal. Embora tenham influência limitada, em função das várias defesas que envolvem os encarnados e das nossas próprias defesas de ação, causam muitas perturbações, agindo coletivamente. Como o meu espanto era muito grande, o instrutor acrescentou: - Não se surpreenda, André. A morte física não é banho milagroso, que converte maus em bons e ignorantes em sábios, de uma hora para outra. Há desencarnados que se apegam aos próprios lares como hera grudadas às paredes. Outros, no entanto, e são muitos, revoltam-se em sua própria ignorância e formam as chamadas legiões das trevas, que enfrentaram o próprio Jesus, por intermédio de vários obsidiados. Organizam-se, formam cooperativas criminosas e ai de quem se junta a eles! Aqueles que se desviam, pelo descaso com as oportunidades divinas, são escravos destes terríveis poderes transitórios das sombras, em cativeiro que pode durar muito tempo. - Mas o encarregado regional das visitas, como vigia nesses locais, – perguntei, espantado – não poderia ter defendido o pobre suicida? - Se ele fosse vítima de assassinato, sim, - respondeu Alexandre – porque, na condição de vítima verdadeira, o ser humano segrega correntes magnéticas especiais, capazes de colocá-lo em contato com espíritos de auxílio, mas, no suicídio premeditado, sem a influência de inimigos ocultos, como neste caso, o desequilíbrio do espírito é muito profundo e acarreta completa incapacidade de sintonia mental com elementos superiores. - Mas – perguntei chocado – os vigilantes espirituais não poderiam socorrer de qualquer maneira? Alexandre fez um gesto de tolerância e falou: - Sendo a liberdade íntima atributo de todas as criaturas, não seria possível improvisar serviços de socorro para todos os que se perdem, deliberadamente, em sofrimentos, plenamente conscientes de seus atos. Nesses casos, a dor funciona como recurso de auxílio na retificação necessária. Mas... e os maus que parecem felizes mesmo na maldade? – perguntaria você, naturalmente. Esses são os sofredores perversos e endurecidos de sempre, que, apesar de reconhecerem a própria decadência espiritual, criam grossa crosta de insensibilidade envolvendo o coração. Desesperados e desiludidos, cheios de revolta, atiram-se ao crime, até que nova luz brote em sua consciência. O assunto dava margem a muitos esclarecimentos interessantes, mas Alexandre demonstrou não ter mais tempo para conversas e, depois de rápido intervalo, acrescentou: - André, mantenha-se em oração e me ajude por alguns minutos. Agora que tenho informações seguras do encarregado das visitas, preciso usar minha capacidade de visão para descobrir o paradeiro deste companheiro. Mesmo em prece, notei que o instrutor entrou em profundo silêncio. Depois de alguns minutos, tomou a palavra e disse, como alguém que estivesse voltando de longa viagem: - Podemos seguir. O infeliz, semiconsciente, se encontra imantado a um perigoso grupo de vampiros, em local próximo. Alexandre pôs-se a caminho e eu o segui de perto, em silêncio, apesar de minha intensa curiosidade. Em pouco tempo, saímos da cidade e fomos para as vizinhanças de grande matadouro. Estava perplexo com Alexandre que adotava atitude de vigilância, entrando, seguro, pela porta principal. Pelas vibrações do ambiente, reconheci que o lugar era dos mais desagradáveis em que já havia estado até então, em minha nova fase de aprendizado espiritual. Seguindo, bem de perto, o instrutor, vi vários grupos de entidades completamente desequilibradas que se alojavam aqui e ali. No local em que se abatia o gado bovino, percebi quadro aterrador. Um grande número de desencarnados, em condições lastimáveis, atirava-se aos jatos de sangue vivo, como se quisessem beber o líquido com sede avassaladora... Alexandre percebeu meu espanto e explicou, com serenidade: - Está vendo, André? Estes infelizes que não podem nos ver, pelo profundo embrutecimento em que se encontram, estão sugando as forças do plasma sangüíneo dos animais. São esfomeados de causar dó. Poucas vezes na vida senti tanto nojo. Nem as cenas mais tristes que já havia presenciado nas zonas inferiores me causaram tanta dor. Desencarnados à procura daquele tipo de alimento? Um matadouro cheio de entidades em desequilíbrio? O que significava aquilo tudo? Lembrei meus limitados estudos de História, recordando a época em que os homens primitivos ofereciam o sangue de touros e cabritos a supostos deuses. Seria aquilo uma representação dos antigos sacrifícios em altares de pedra? Deixei que as primeiras impressões me incendiassem o cérebro, a ponto de sentir minhas idéias completamente desencontradas, como em outros tempos. Mas Alexandre, atencioso como sempre, aproximou-se de mim com carinho e explicou: - Por que tanto pavor, André? Saia de si mesmo, quebre a concha da interpretação pessoal e procure a justa explicação. Nós também não visitávamos os açougues, quando encarnados? Lembro que, em minha casa, na Terra, havia sempre muita festa quando se matavam os porcos. A carcaça de carne e gordura era sinônimo de abundância e conforto. Da mesma forma, os desencarnados, tão inferiores quanto nós mesmos já o fomos, aproximam-se dos animais mortos, cujo sangue fumegante lhes oferece intensos elementos vitais. Sem dúvida, o quadro é muito triste, mas não nos compete julgar. Cada coisa, cada ser, cada alma vive o processo evolutivo que lhe é próprio. E se já passamos pelos níveis inferiores, compreendendo como é difícil melhorar, devemos estar sempre prontos a ajudar, mobilizando nossas melhores possibilidades a serviço do próximo. A advertência foi providencial. As palavras de Alexandre penetraram minha alma e corrigiram-me a atitude mental. Encarei o quadro com mais serenidade e, notando que eu havia recuperado o equilíbrio, o instrutor mostrou-me uma entidade em condições lamentáveis, parecendo um zumbi, vagando em volta dos outros. Depois de observar bem seus olhos sem expressão, reparei que sua roupa estava ensangüentada. - Eis o suicida que procuramos – disse Alexandre, com clareza. - Quê? – perguntei espantado – Por que os vampiros precisariam dele? - Espíritos nestas condições – explicou o instrutor – abusam de recém-desencarnados sem qualquer defesa, como Raul, nos primeiros dias após a morte física, roubando-lhes forças vitais, depois de explorarem seu corpo físico... Estava chocado, lembrando as antigas informações religiosas sobre as tentações diabólicas, mas o instrutor, firme na missão de auxílio, advertiu: - André, não se deixe impressionar de forma negativa. Todo homem, encarnado ou desencarnado, que se desvie do caminho do bem, pode vir a ser perigosa entidade do mal. Não temos tempo a perder. Vamos agir, socorrendo o infeliz. Seguindo Alexandre, também me aproximei de Raul. O instrutor pôs a mão em sua testa e envolveu-o em forte fluxo magnético. Em poucos instantes, Raul estava cercado de luz, imediatamente vista pelos outros, que logo se afastaram, cheios de horror. Vendo a claridade que o rodeava, ficaram pálidos e espantados. Um dos mais corajosos respondeu em voz alta: -Vamos deixar este homem entregue à própria sorte. Os “espíritos poderosos” estão interessados nele. Vamos abandoná-lo! Enquanto os outros se retiravam às pressas, como se temessem algo que eu ainda não podia entender, vendo aquela luz que vinha do Alto, fazia-me inúmeros questionamentos íntimos. O quadro era típico daquelas antigas lendas de demônios abandonando almas que aprisionavam em seus propósitos infernais. As palavras “espíritos poderosos” haviam sido ditas com explícita ironia. Pela claridade que envolvia o suicida, eles sabiam que estávamos presentes e, embora tivessem fugido com medo, tentavam nos ofender, xingando-nos. Aos poucos, o grande matadouro estava vazio. Alexandre, terminando a operação magnética, pegou a mão daquele companheiro, que parecia anestesiado pela influenciação negativa, e, levando-o para fora, a caminho do campo, disse-me, com bondade: - Não guarde no coração as palavras irônicas que ouvimos. Esses infelizes merecem nossa maior compaixão. Vamos ao que, de fato, nos interessa. Ele me pediu para ajudar o novo amigo, que parecia não notar nossa ajuda, e, depois de alguns minutos de caminhada, paramos embaixo de grande árvore, deitando o companheiro enfraquecido sobre a grama fresca. Impressionado com seu olhar sem vida, pedi explicações a Alexandre, que logo falou: - O pobre infeliz está temporariamente sem memória. O estado dele, depois de tão prolongada vampirização, é de inconsciência lastimável. Notando que eu estranhava a situação, Alexandre acrescentou: - O que você queria? Esperava que prevalecesse a lei do menor esforço? O magnetismo do mal também tem muito poder, ainda mais para aqueles que se entregam voluntariamente à sua ação. Em seguida, debruçou-se sobre o suicida e perguntou: - E, então, Raul, como se sente? - Eu... eu... – resmungou o infeliz, como se estivesse mergulhado em sono profundo – não sei... não sei de nada... - Lembra-se da esposa? - Não... – respondeu ele, de modo vago. Alexandre levantou-se e me disse: - A inconsciência dele é total. Precisamos despertá-lo. Em seguida, mandou-me ficar ali, vigiando, enquanto saía em busca dos recursos necessários. - Nós mesmos não poderíamos acordá-lo? – perguntei, admirado. Alexandre sorriu e respondeu: - Logo se vê que você não é veterano nos serviços “intercessórios”. Esqueceu que não vamos despertá-lo só para a consciência de si mesmo, mas também para a dor? Vamos romper a crosta de magnetismo mais denso que o envolve e Raul recuperará o conhecimento da própria situação. No entanto, sentirá também a dor do peito perfurado pela bala, ficará desesperado ao notar a própria sobrevivência dolorosa, criada por ele mesmo. Ora, em casos assim, as primeiras impressões são muito ruins e são necessárias algumas horas até que haja algum alívio. E como temos outros assuntos a tratar, é interessante que o entreguemos aos cuidados de outros amigos. As explicações me impressionaram muito. Depois de 20 minutos, mais ou menos, Alexandre voltou com dois outros companheiros que se dispuseram a levar Raul e, logo depois, estávamos numa casa espiritual de pronto socorro, localizada na própria Crosta. Via-se que a organização fazia trabalhos de emergência, já que o material de assistência era bastante rudimentar. Lendo meus pensamentos, Alexandre explicou: - Nas regiões de vibrações antagônicas do encarnados, não se pode colocar uma instituição de auxílio completa. Assim, o trabalho de socorro é bastante deficiente. Mas esta casa é um hospital móvel que conta com a dedicação de muitos trabalhadores. Colocando Raul num leito, Alexandre começou a aplicar-lhe passes magnéticos na região cerebral. Não demorou muito para que o infeliz desse um grito horrível, deixando-me chocado. - Estou morrendo! Estou morrendo! – gritaba Raul, em profunda aflição, tentando, agora, subir pelas paredes – Ajudem-me, pelo amor de Deus! E apertando o peito com as mãos, dizia, desesperado: - Meu coração está arrebentado! Ajudem-me!... Não quero morrer!... Enfermeiros tentavam acalmá-lo, mas o paciente parecia profundamente horrorizado. Olhos arregalados, rosto cheio de sofrimento, continuava gritando, como se houvesse acordado de um terrível pesadelo. - Ester!... Ester!... – chamou ele, lembrando-se da esposa – Venha me ajudar, pelo amor de Deus! Ajude-me! Meus filhos!... meus filhos!... Alexandre aproximou-se dele e considerou: - Raul, tenha paciência e fé em Deus! Procure enfrentar com coragem a situação difícil que você mesmo criou e não chame sua esposa ou os filhos que deixou na última passagem pelo mundo, porque a porta material de sua casa se fechou com os seus olhos. Se você tivesse cultivado amor cristão, valorizando as oportunidades que Deus lhe confiou, seria fácil, agora, voltar ao lar cheio de carinho, para rever as pessoas que amava, ainda que eles não pudessem perceber sua presença. Mas, agora, meu amigo, é muito tarde... é preciso esperar outra oportunidade de trabalho e purificação, porque a sua chance como Raul já terminou... Expressando profundo pavor no rosto, o infeliz respondeu: - Estou morto, por acaso? Meu coração não está doendo? Não tenho as roupas sujas de sangue? Morrer é isto? Absurdo!... Muito calmo, Alexandre voltou a falar: - Você não atirou no próprio peito? Não mirou o coração pensando em acabar com a própria vida? Ah, meu amigo, os homens podem enganar uns aos outros, mas nenhum de nós pode iludir a Justiça Divina. Demonstrando profunda vergonha, ao perceber-se flagrado, o suicida explodiu em soluços, murmurando: - Como sou infeliz! Mil vezes infeliz!... Alexandre, no entanto, não disse mais nada. Depois de pedir aos encarregados da assistência que cuidassem dele com carinho, olhou para mim e explicou: - Vamos, André! Nosso novo amigo está em crise que ainda vai levar 70 horas, mais ou menos, para melhorar. Voltaremos mais tarde para vê-lo. Voltando aos trabalhos, esperei, ansioso, pelas explicações. Estava muito impressionado com a complexidade do serviço “intercessório”. As simples orações de uma esposa dedicada e cheia de saudade haviam provocado as mais diversas atividades para Alexandre e os mais variados esclarecimentos para mim. Como iria agir Alexandre na fase final? O que teria Raul para nos revelar? Será que a esposa iria conseguir algum consolo como viúva? Cheio de dúvidas, esperei pelo momento adequado. Depois de quatro dias, Alexandre me convidou para voltar ao assunto, o que me deixou muito feliz pela possibilidade de continuar aprendendo para minha própria evolução. Encontramos Raul cheio de dores. No entanto, já estava mais calmo para poder conversar. Queixava-se da ferida aberta, do coração desequilibrado, dos profundos sofrimentos, do grande abatimento, mas sabia que não estava mais encarnado, embora fosse muito difícil para ele aceitar isso. - Fique tranquilo. – disse-lhe Alexandre, cheio de bondade – Sua situação é difícil, mas poderia ser muito pior. Há suicidas que permanecem agarrados aos próprios restos físicos por tempo indefinido, assistindo à própria decomposição orgânica e sentindo o ataque dos vermes. - Deus me livre! – suspirou ele – Pois, além de suicida, sou também criminoso. E demonstrando profunda confiança em nós, contou-nos sua história triste, tentando justificar a atitude extrema. Quando jovem, veio do interior para a cidade grande, a convite de Noé, seu amigo de infância. Companheiro sincero e fiel, esse amigo o havia apresentado, um dia, à noiva querida, com quem esperava casar-se no futuro. Desde o dia que viu Ester pela primeira vez, nunca mais a esqueceu. Para ele, ela representava o mais alto ideal de um casamento feliz. Com ela, sentia-se o mais feliz dos homens. Seu olhar alimentava-lhe o coração, suas idéias eram a continuidade de seus próprios pensamentos. Mas como fazê-la perceber sua paixão? Noé, o bom amigo do passado, havia se tornado o empecilho que precisava remover. Ester seria incapaz de trair o compromisso assumido. Noé era muito bom para provocar um rompimento. Foi então que teve a idéia tenebrosa de um crime. Eliminaria o rival. Não podia pensar em ceder sua própria felicidade a ninguém. O amigo precisava morrer. Mas como fazer isso sem ter complicações com a justiça? Cego de paixão, passou a estudar, detalhadamente, uma maneira de realizar seus propósitos. E encontrou um modo sutil para eliminar o amigo. Ele, Raul, passou a usar um veneno terrível, em pequenas doses, aumentando-as devagar, até habituar o próprio organismo a quantidades que, para outras pessoas, seriam fatais. Quando alcançou o nível desejado de resistência, convidou o amigo para um jantar e ofereceu-lhe o veneno em vinho saboroso que ele também bebeu, sem qualquer perigo. Noé, no entanto, morreu em algumas horas, passando por suicida. Ele guardou para sempre o terrível segredo e, depois de se aproximar da noiva em sofrimento, ganhou sua simpatia, chegando ao casamento. Realizava, assim, o que mais desejava: Ester era sua mulher. Vieram os filhos para alegrar-lhe a vida, mas a consciência não encontrava paz. Nos momentos mais íntimos em casa, via Noé, em sua tela mental, acusando-o. Os beijos da esposa e os carinhos dos filhos não conseguiam afastar a visão terrível. Seus remorsos, em vez de diminuírem, aumentavam sempre. No trabalho, na leitura, na mesa de refeições, no quarto, a vítima estava sempre a olhá-lo em silêncio. A certa altura da vida, quis entregar-se à justiça, confessando o crime, mas não se sentia no direito de perturbar o coração da esposa, nem de manchar o futuro dos filhos. A sociedade o respeitava e considerava bem a família. Colegas de trabalho gostavam de sua companhia. Como dizer a verdade nesta situação? Apesar de amar muito a esposa e os filhos, estava esgotado, depois de tanto tempo resistindo. Tinha medo da perturbação, do hospício, da destruição, enfim, fugindo da confissão do crime que, a cada dia, se tornava mais real. A essa altura, a idéia do suicídio ganhou força em sua mente atormentada. Não pôde agüentar por mais tempo. Iria esconder o seu último ato, como já havia escondido a tragédia inicial. Comprou um revólver e esperou. Certo dia, depois do trabalho, desviou-se do caminho de volta para casa e atirou no próprio coração, agindo com cuidado para evitar as impressões digitais. Com o tiro disparado, num esforço final, desfez-se da arma e não pôde pensar em mais nada a não ser na dor que sentia no peito... Com dificuldade, como se tivesse os olhos nublados, percebeu que algumas pessoas tentavam socorrê-lo e, em seguida, uma multidão de criaturas, que ele não pôde ver, tirou-o do local... Desde então, uma fraqueza geral o havia invadido. Sentia-se como se estivesse preso em sono pesado e triste, cheio de pesadelos cruéis. E, no fim, recuperou a consciência de si mesmo ali, naquele quarto, depois que Alexandre restaurou-lhe as energias... Quando terminou a confissão, Raul tinha o peito apertado e grossas lágrimas caíam de seus olhos. Muito comovido, de minha parte, não sabia o que dizer. Aquele drama secreto impressionaria até corações de pedra. Mas Alexandre, demonstrando sua experiência, mantinha-se em atitude de respeito e serenidade, e disse: - Nos maiores abismos, Raul, há sempre lugar para a esperança. Não se deixe dominar pela idéia do impossível. Pense em renovar suas oportunidades, medite na grandeza de Deus. Transforme o remorso em projeto de regeneração. E, depois de pausa rápida, enquanto o infeliz chorava muito, o instrutor ainda disse: - Na verdade, seus problemas de agora não vão desaparecer por milagre. Todos colhemos o que semeamos, mas também nós, que já aprendemos alguma coisa, já passamos, muitas vezes, pela lição do recomeço. Tenha calma e coragem. Em seguida, Alexandre contou-lhe a nossa missão, explicando que o trabalho de auxílio começou com as orações da esposa. Deu-lhe notícias dela, dos filhos e dos tios. Falou-lhe das saudades que Ester sentia e de sua ansiedade para revê-lo, ainda que fosse por apenas um minuto, durante o sono do corpo físico. Ouvindo isso, o suicida pareceu sentir novo ânimo e falou: - Ah não, não mereço! Meu estado só vai piorar o seu sofrimento! Mas Alexandre, afagando sua cabeça, prometeu-lhe ver o que poderia fazer a respeito. Saímos, novamente, e, percebendo meu espanto, Alexandre explicou: - Neste pequeno drama, André, você pode calcular como são complexos nossos serviços “intercessórios”. Os encarnados, às vezes, nos pedem alguns trabalhos, longe de saber das verdadeiras histórias. Para a sociedade humana, Raul é vítima de ladrões, quando foi vítima apenas de si mesmo. Para a esposa é o marido ideal, quando, na verdade, foi criminoso e suicida. Percebi as dificuldades morais em que nos encontrávamos para atender o pedido que nos fizeram. As palavras de Alexandre deixavam claro. Pensando assim, perguntei: - Você acha que Ester está preparada para a verdade? Alexandre fez que não com a cabeça e respondeu: - Só são dignos da verdade aqueles que estão completamente libertos das paixões. Ester é muito boa, mas ainda não alcançou o domínio de si mesma. É possuída pelas próprias emoções, em vez de possuí-las. Sendo assim, não podemos contar-lhe toda a verdade. Está preparada para ser consolada, não para saber a verdade. O que Alexandre dizia, de algum modo, chocava-me. Como omitir os detalhes da história? Não seria faltar com a verdade? Como confortá-la, ocultando dela a verdade sobre os acontecimentos? Mas Alexandre compreendeu meus questionamentos e explicou: - Que direito temos de perturbar o coração da viúva encarnada, a pretexto de sermos honestos? Como acabar com a esperança de três crianças lindas, envenenando seu destino, apenas para nos exibirmos como campeões da realidade? Haveria mais alegria em mostrar a sombra do crime, que em oferecer a fonte do consolo? André, meu irmão, a vida pede muito discernimento! Cada palavra tem a sua hora, como cada revelação tem o seu tempo! Não é possível entender um serviço de socorro esmagando aquele que pediu o serviço. A oração de Ester não pode lhe trazer desilusão. É por este motivo que nem todos recebem, quando querem, a ajuda do Alto para os serviços de assistência. Anotei a observação. Nesse dia, Alexandre foi comigo ao departamento do Auxílio, pedindo a ajuda de uma das companheiras que trabalhavam nas Turmas de Socorro, para auxílio mais efetivo a Ester. Romualda foi designada. Criatura bondosa e dedicada, foi conosco para a Crosta, recebendo as recomendações atenciosas de Alexandre que não se prolongou em suas instruções. Romualda deveria preparar espiritualmente a viúva para visitar, na noite seguinte, o marido desencarnado e, em seguida, ficar duas semanas com ela, ajudando no restabelecimento de suas energias psíquicas e cooperando para que sua vida financeira se equilibrasse, com emprego honesto. Era de ver-se o carinho que o delicado instrutor dedicou a todas a providências em curso. Era notável o carinho que Alexandre devotava a todas as providências para o caso. Quase na hora marcada para o reencontro do casal, fomos ao hospital móvel de socorro espiritual, onde o instrutor cuidou pessoalmente de todos os detalhes. Recomendou a Raul que se mantivesse bem disposto, insistindo para que não fizesse qualquer queixa e para que não demonstrasse qualquer impaciência ou aflição. Em seguida, mandou esconder a ferida aberta, ainda muito visível no peito perispiritual, para que a esposa não tivesse qualquer impressão de sofrimento. O próprio Raul, admirado pela lição de gentileza, atendia, com satisfação e ânimo, a todas as instruções. Logo em seguida, Romualda entrou com Ester, cujo olhar demonstrava angústia e expectativa. Alexandre pegou-a pela mão e mostrou-lhe o marido no leito. - Raul! Raul! – gritou a viúva desolada, temporariamente liberta do corpo físico, partindo-me o coração pelo tom de voz. Ela estava muito emocionada. Quis continuar, mas não pôde. Caiu de joelhos e, junto ao leito do marido, soluçava. Reparei que seus olhos estavam marejados por pranto que não chegava a cair. Alexandre o olhava, firme, dando-lhe a entender a necessidade de manter coragem para o momento de angústia. Como criança querendo obedecer o pai, ele acompanhava os menores gestos do instrutor. E como Alexandre fez ligeiro sinal, Raul pegou a mão da esposa em lágrimas e falou: - Não chore mais, Ester! Tenha confiança em Deus! Cuide dos nossos filhos e ajude-me a ter fé. Estou indo muito bem... Não há razão para nos lamentarmos!. Querida, a morte não é o fim. Aceite a vontade de Deus, como eu mesmo estou procurando fazer... Nossa separação é temporária... Nunca a esquecerei! Você ficará em meu coração, onde eu estiver! Também tenho saudades de sua companhia, de sua dedicação, mas o Pai nos ensinará a transformar as saudades em esperanças! As palavras de Raul, bem como o seu tom de voz, surpreendiam-me. Ele demonstrava um potencial de delicadeza e trato psicológico, que eu ainda não havia percebido. Foi então que, aguçando minha percepção visual, notei que fios muito finos de luz ligavam a testa de Alexandre ao cérebro de Raul, e entendi que o instrutor o inspirava, vigorosamente, ajudando-o na difícil situação. Ouvindo suas expressões de consolo, a viúva pareceu reanimar-se, dizendo: - Ah, Raul, eu sei que agora estamos separados pela morte!... Sei que devo esperar a decisão de Deus para unir-me a você para sempre!... Mas, ouça! Ajude-me na Terra, na viuvez inesperada e difícil! Levante-se e venha comigo para casa, para dar-me esperança. Defenda-nos contra a maldade alheia!... Não me deixe sozinha com os nossos filhos, que precisam tanto de você... Peça a Deus que nos conceda esta graça e venha nos ajudar até o fim!... Embora continuasse deitado, Raul afagou-lhe os cabelos e respondeu: - Tenha coragem e fé! Lembre-se, Ester, de que existem sofrimentos piores que os nossos e conforme-se... Vou me fortalecer e trabalhar por nós... Assim como você espera assistência, esperarei que tenha também confiança. Deus não nos envia problemas que não mereçamos. Volte para casa e alegre-se. Não tenha medo da necessidade; nunca nos faltará o que comer! Procure a alegria do trabalho honesto e semeie o bem em todas as oportunidades que o mundo lhe oferecer. A prática do bem dá saúde ao corpo e alegria ao espírito! E Deus, que é bom e justo, abençoará nossos filhos para que sejam felizes ao seu lado... Não se demore mais! Volte confiante! Tenha a certeza de que eu estou vivo e de que a morte do corpo é somente uma transformação necessária!... Percebendo que a oportunidade do reencontro estava chegando ao fim, a esposa demonstrou grande aflição e curiosidade, olhando o marido entre lágrimas, e perguntou: - Raul, antes de ir, diga-me com sinceridade... o que aconteceu? Quem o matou? Diante da pergunta inesperada, terrível angústia surgiu em seu olhar. Talvez quisesse confessar a verdade, contar tudo o que se passou, mas a ajuda magnética de Alexandre o acudiu. Um jato de luz intensa saiu da mão do instrutor, que, a esta altura, esta sobre a testa de Raul. Seu rosto transformou-se, recuperando a serenidade e a coragem. Novamente calmo, ele disse à esposa: - Ester, os processos de justiça divina não estão à nossa disposição... Tenha a certeza de que estamos sendo orientados todos os dias e em todos os acontecimentos... Aprenda a procurar, antes de tudo, a vontade de Deus... A pobre viúva quis continuar a conversa. Percebia-se, em seus olhos aflitos, a intenção de continuar a receber as palavras de consolo, mas Alexandre pegou-a pelo braço e recomendou-lhe que se despedisse. Ester, chorando, não resistiu. Colocando todo o seu carinho nas palavras, despediu-se do marido e beijou suas mãos com grande ternura. Já longe do hospital, pediu a Romualda que a acompanhasse e voltou comigo. Não conseguia disfarçar minha enorme admiração diante daquele serviço de assistência. Alexandre, percebendo minha agitação, explicou: - Como você vê, o trabalho de socorro exige esforço e dedicação. Não podemos esquecer que Raul e Ester são dois doentes do espírito e, nessa condição, precisam da nossa compreensão. Felizmente, a viúva está voltando com novo ânimo e o nosso amigo, percebendo o cuidado que está recebendo, e notando, por si mesmo, o quanto pode ajudar a esposa encarnada, logo terá nova atitude de estímulo e energia no coração. Ainda impressionado com o ferimento havido em seu perispírito, perguntei: - E a ferida? Até quando Raul sofrerá com ela? - Talvez por muitos anos. – respondeu o instrutor, sério - Mas isso não o impedirá de trabalhar muito na própria consciência, esforçando-se por nova oportunidade de regeneração. Outras dúvidas vinham-me à mente. No entanto, Alexandre precisava sair, para cuidar de outras tarefas urgentes, nas quais eu não poderia acompanhá-lo. Pedi-lhe permissão para seguir de perto o trabalho de assistência feito por Romualda, para o que recebi sua aprovação. Queria saber até que ponto a viúva havia se consolado e ver o quanto aprovetaria daquele reencontro, que representava grande concessão. No dia seguinte, voltei à casa deles, justamente à hora do almoço. Romualda estava aflita. O ambiente havia se modificado. As entidades viciadas não haviam desaparecido completamente, mas o número era bem menor. Acompanhando a protegida, Romualda recebeu-me com gentileza, informando-me que a viúva estava muito melhor e que ela própria estava trabalhando intensamente para que Ester mantivesse a lembrança plena do reencontro. Como era natural, ela não poderia lembrar-se de todos os detalhes, mas havia fixado as passagens mais importantes, capazes de despertarem nela a esperança e o ânimo. Romualda pediu que eu mesmo verificasse o efeito maravilhoso das providências. De fato, o rosto da viúva tinha nova expressão. De olhos brilhantes, contava aos tios e aos filhos o lindo sonho da noite. Todos a escutavam com muito interesse, principalmente as crianças, que pareciam sentir sua alegria. Quando terminou, Ester estava emocionada. Notei, então, que a velha tia parecia incrédula e perguntou: - E você acredita que visitou Raul no outro mundo? - Claro! – disse ela, sem hesitar – Ainda posso sentir suas mãos nas minhas e sei que Deus me deu este presente para que eu recobre minhas forças para o trabalho. Hoje acordei bem mais animada e feliz! Vou enfrentar o caminho com novas esperanças. Vou me esforçar e sei que vou vencer. - Ah, mãe! Como é bom ouvir isso! – disse uma das crianças – Como eu queria estar com você para ver o papai nesse sonho maravilhoso! Neste instante, o tio que comia em silêncio, comentou, no melhor estilo pessimista: - É interessante que Raul a tenha consolado tanto e não tenha dito nada sobre o crime que lhe tirou a vida. Sentindo a ironia do comentário, Ester, influenciada por Romualda, respondeu: - Muitas vezes, tio, não sabemos agradecer a Deus. Lembro-me desta verdade quando ouço suas palavras. Chego a sentir vergonha quando me lembro de ter questionado Raul sobre isso, pálido e abatido no leito. Já me basta a felicidade de tê-lo visto e ouvido, num mundo que eu não posso compreender agora. Tenho certeza de que o visitei em algum lugar. De que adianta descobrir os criminosos, se não podemos trazê-lo de volta à vida? Na preocupação de punir os culpados, esquecemo-nos de nossas próprias culpas e pretendemos ser mais justos que Deus? O tio se calou, pensativo, e notei que as crianças sentiam-se muito alegres pela resposta da mãe. O coração de Ester ganhava lucidez e fé viva, absorvendo paz, alegria e esperança, a caminho de uma nova vida. Ao me despedir, cumprimentei Romualda pelo belo trabalho. A companheira informou-me de seus projetos. Ficaria ali com a viúva, para dar-lhe ânimo e coragem, e, na semana seguinte, pretendia ajudá-la a encontrar um bom emprego. Fiquei admirado do programa, principalmente no que dizia respeito ao auxílio material. No entanto, Romualda acrescentou: - Quando os encarnados fazem por merecer, podemos atuar em seu benefício, com todos os recursos ao nosso alcance, desde que a nossa ajuda não interfira em sua liberdade de consciência. Pedi-lhe, então, para acompanhá-la nos serviços finais. Romualda concordou e, dali a uma semana, avisou-me das últimas providências dos trabalhos de assistência. Voltei à casa de Ester com ela, que me recomendou: - Por favor, fique com ela, enquanto vou buscar a pessoa indicada para ajudá-la. Já tomei todas as providências para o caso e não temos tempo a perder. Fiquei ali, cheio de curiosidade, e, depois de três horas, mais ou menos, alguém bateu à porta, chamando minha atenção. Acompanhada de Romualda, uma senhora muito distinta vinha procurar Ester, oferecendo-lhe trabalho em sua oficina de costura. A viúva chorou de emoção e alegria, e, enquanto acertavam os detalhes, num cenário de muita felicidade, Romualda falou-me, contente: - Agora, André, podemos voltar tranqüilos. O serviço que nos foi designado está concluído, graças a Deus.