------------------------------------- MISSIONÁRIOS DA LUZ LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 13 REENCARNAÇÃO Fiquei feliz e emocionado quando Alexandre me convidou para ir com ele visitar a casa de Adelino e Raquel, onde aconteceria a reencarnação de Segismundo. Sentia profunda alegria, já que era a primeira vez que iria tomar contato direto com o fenômeno reencarnacionista. Desde os primeiros estudos em Medicina, era fascinado pelas questões biogenéticas (1). No entanto, nunca havia tido a oportunidade de aprofundar meus estudos e me especializar. Na colônia espiritual para onde haviam me levado, recebi muitas lições a respeito, mas, até o momento, não havia visto, mais de perto, o processo de imersão do espírito na matéria mais densa. Por isso, acompanhei o instrutor com grande satisfação e expectativa. Ele me explicou que, em outros tempos, havia recebido muitos favores daquelas pessoas e se sentia feliz pela oportunidade de ser útil. Comentou as dificuldades do serviço de libertação espiritual e destacou a lei do bem, que convida a todos os filhos de Deus a colaborar e interceder pelos seus semelhantes. Depois de agradável conversa, chegamos à casa de Adelino, localizada num subúrbio, rodeada de vegetação. Eram 18h, aproximadamente. Com surpresa, verifiquei que Herculano nos esperava na entrada. Alexandre, no entanto, disse-se me que havia avisado o amigo sobre nossa visita, recomendando-lhe que trouxesse Segismundo para o trabalho de aproximação. Herculano nos cumprimentou, com carinho, e disse ao instrutor, esclarecendo: - Segismundo veio comigo e está nos esperando, lá dentro. - Isto é ótimo, - falou Alexandre, bem-humorado – reservei esta noite para eles. Vamos ver o que é possível fazer. Entramos. O casal Adelino e Raquel estava jantando com um garoto, que deduzi ser o filho mais velho. Não muito longe, numa cadeira de descanso, estava uma entidade que se levantou assim que nos viu, dirigindo-se a Alexandre. Herculano, perto de mim, explicou, discretamente: - É Segismundo. Notei que o desencarnado abraçava o instrutor, chorando muito. Alexandre o amparava como pai e, depois de ouvi-lo por alguns minutos, falou com carinho: - Acalme-se, amigo! Quem não tem suas dificuldades, seus problemas, suas dores? E se todos somos devedores uns dos outros, não deveríamos nos alegrar por receber estas oportunidades de resgate e recuperação? Não chore! Adelino e Raquel estão jantando. Não devemos perturbá-los com vibrações de tristeza. E recolocando-o na cadeira, como se Segismundo estivesse muito fraco e doente, continuou: - Coragem! Esta oportunidade é divina para o seu futuro espiritual. Vamos acertar tudo, não se preocupe. - O problema é que – disse o outro, em lágrimas – estou tendo muitas dificuldades. E falava em tom humilde: - Reconheço que fui grande criminoso e pretendo corrigir os velhos erros. Mas Adelino, apesar das promessas que fez antes de reencarnar, esqueceu, nesta vida, o perdão às minhas antigas faltas... Alexandre, que ouvia atentamente, sorriu e respondeu: - Ora, Segismundo, por que envenenar o coração? Por que você não perdoa primeiro? Não complique a própria situação com esse desânimo sem motivo. Erga as energias, meu amigo! Coloque-se na situação do ex-adversário, vítima de seu ato impensado no passado! Será que você não teria as mesmas dificuldades? Tenha calma e prudência, não perca a bendita oportunidade de tolerar algumas contrariedades, a fim de reparar o passado e atender às necessidades de hoje. Vamos, equilibre-se! O momento é de gratidão a Deus e harmonia com os semelhantes! Segismundo enxugou os olhos, fez um esforço para sorrir e resmungou: - Tem razão. Herculano, que o olhava, solidário, entrou na conversa, dizendo: - Ele tem estado muito abatido, desanimado... - É natural, - respondeu Alexandre, decidido – porque, em tais circunstâncias, sofre certos desequilíbrios, em virtude das necessidades de voltar ao plano físico, mas Segismundo tem levado isso longe demais, agravando o próprio sofrimento com expectativas e inquietações sem razão. Olhando, mais atentamente, o casal, que continuava à mesa, falou, com carinho: - Vamos observar Adelino e Raquel. Vejamos que tipo de ajuda podem receber. Acompanhamos o instrutor, em silêncio. Adelino continuava quieto, conversando com a esposa por monossílabos. Notava-se que Raquel se esforçava, mas ele continuava sombrio. - O negócio que você esperava não foi fechado? – perguntou ela, tentando conversar. - Não – respondeu ele, secamente. - Mas você ainda está interessado? - Sim. - E vai viajar na semana que vem, caso não tenha uma decisão até domingo? - Talvez. A esposa, meio decepcionada, fez uma pausa longa, dizendo, em seguida: - E qual a desculpa da empresa para essa demora? O marido a olhou com frieza e respondeu, seco: - Nenhuma. A essa altura, Alexandre fez um gesto com a cabeça e nos disse, preocupado: - Na verdade, as condições de Adelino são das piores, porque o amor do lar fica muito distante, quando o casal perde o gosto pelo diálogo. Neste estado psíquico, não vai poder ser útil aos nossos planos. Então levantou-se, deu alguns passos em volta da pequena família e disse: - Vou tentar despertar seus sentimentos, a fim de prepará-lo, de forma adequada, para nos ouvir hoje à noite. Com isso, aproximou-se da criança, um belo menino de seus três anos, e colocou a mão sobre o seu coração. Vi que o garoto sorriu, com novo brilho nos olhos azuis, e disse, com imenso carinho: - Mãe, por que o papai está triste? Adelino levantou a cabeça, admirado, enquanto Raquel respondia, comovida: - Não sei, Joãzinho. Ele deve estar preocupado com os negócios, filho. - E que negócios são esses, mãe? – disse a criança, ingênua. - As preocupações da vida. O menino olhou a mãe, com atenção, e perguntou: - O papai fica alegre nos negócios? - Fica, sim – disse ela, sorrindo. - E por que fica triste em casa? Enquanto o pai acompanhava o diálogo, muito impressionado, Raquel, com carinho, explicou ao garoto, com paciência: - Nas preocupações do dia-a-dia, Joãozinho, seu pai tem que estar contente com todos, sem ofender a ninguém. E o que parece tristeza é cansaço pelo trabalho. Quando ele volta para casa, tem muitas preocupações. Se, lá fora, ele precisa ser gentil e educado com todos, para não magoar ninguém, aqui não é a mesma coisa, onde ele se sente à vontade para pensar nos problemas que o preocupam mais. Aqui é a casa dele, filho, onde ele tem o direito de não esconder as preocupações mais íntimas... A criança escutou, atenta, olhando o pai e a mãe, alternadamente, e disse: - Que pena, né, mãe? O pai, muito emocionado com a ternura do filho e a humildade da esposa, sentiu que a nuvem de sombra de seus pensamentos dava lugar a um grande alívio. Repentinamente transformado, sorriu e disse ao garoto, em outro tom de voz: - Que idéia é essa, Joãozinho? Não estou triste. Aliás, estou muito contente, como no dia em que fomos passear! Sua mãe explicou muito bem o que acontece. Quando eu estiver muito quieto, não quer dizer que estou triste. Às vezes, a gente precisa ficar quieto para pensar melhor. Raquel sorriu, satisfeita, notando a mudança brusca do marido. O garoto, sempre envolvido nas vibrações de Alexandre, não disfarçava a alegria e, assim que o pai acabou de explicar-se, perguntou: - Pai, por que você não vem rezar comigo hoje à noite? Adelino olhou a esposa e disse ao filho: - Tenho sempre muito trabalho à noite, mas hoje vou voltar mais cedo para rezar com você. E, sorrindo, acrescentou: - Você já sabe rezar sozinho? O garoto respondeu, satisfeito: - A mamãe me ensina todas as noites a rezar por você. Quer ver? E, largando o talher, instintivamente olhou para cima, de mãos postas, e disse: - “Meu Deus, proteja o papai nos caminhos da vida, com saúde, tranqüilidade e coragem nas lutas do dia-a-dia! Assim seja!” O pai, que estava tão fechado e rude no início, ficou com os olhos úmidos, profundamente emocionado, e, olhando o filho com carinho, murmurou: - Que beleza! Hoje vou rezar também, Joãozinho. De coração mais leve, Adelino olhou a esposa, orgulhoso de poder contar com a sua dedicação, e disse: - A conversa com João me fez muito bem. Eu estava com o coração triste, apertado. Não sei explicar o que estava sentindo... Há vários dias, minhas noites têm sido agitadas, cheias de aflição e pesadelos! Tenho sonhado sempre que alguém se aproxima como meu inimigo. Às vezes, dou graças a Deus quando acordo de manhã, porque me sinto mais à vontade enfrentando as máscaras humanas, do que lutando a noite inteira com os estes sonhos horríveis... A esposa, admirada, disse, com carinho: - Acho que você deveria descansar um pouco... Comovido, frente à delicadeza de Raquel, Adelino continuou: - Tenho medo de mim mesmo! Assim que me acomodo na cama, sinto, instintivamente, uma sombra se aproximando. Durmo sob profunda ansiedade e o pesadelo começa, sem que eu consiga explicar de forma lógica. - E os sonhos são sempre os mesmos? – perguntou ela, atenciosa. - Sempre vejo – respondeu ele, emocionado – que um homemn se aproxima, estendendo as mão, como um mendigo qualquer pedindo ajuda, mas, ao ver seu rosto, sinto um terror inexplicável me invadir... Tenho a impressão de que ele quer me matar pelas costas... Algumas vezes, tento estender-lhe as mãos, passando por cima da má impressão, mas sempre acabo fugindo, num misto de ódio e repugnância! Ah, que pesadelos horríveis! E, mudando o tom de voz, arescentou: - Acho que estou com sérios desequilíbrios nervosos, sem saber por quê... - Por que não procura ajuda médica adequada? – perguntou Raquel, com carinho. O marido pensou um pouco, como se seu espírito vasculhasse antigas lembranças. Em seguida, olhando a esposa, disse: - Talvez eu não precise de médicos. Quem sabe o Joãozinho não esteja com a razão... As preocupações do dia-a-dia me levaram a esquecer a fé em Deus. Há quanto tempo será que não rezo? De olhos úmidos, prosseguiu: - Quando eu era menino, minha mãe me ensinava a rezar. Aprendi a aceitar a vontade de Deus, sentia a sua bondade em todas as coisas e ajoelhava-me ao lado dela, pedindo as bênçãos do alto... Depois, vieram as preocupações mundanas, as disputas diárias, as dificuldades para conseguir o próprio sustento... Desde então, perdi a pureza da fé, que sinto necessidade de recuperar... Raquel enxugou os olhos, comovida. Há muitos anos não via o marido daquele jeito. Levantou-se, emocionada, e disse, com carinho: - Então volte mais cedo hoje para rezarmos juntos. E querendo dar um ar mais alegre à conversa, chamou o filho, dizendo: - Joãozinho, hoje o papai vai rezar com a gente. O rosto do garoto se iluminou com alegria indescritível. Olhou a mãe, com carinho, e disse: - Então, mãe, vou fazer todas as orações que já sei. Depois do jantar, em outro estado de espírito, Adelino se despediu com delicadeza que Herculano disse não ser habitual. Alexandre, muito satisfeito, afirmou, depois de deixar o garoto sob os cuidados da mãe: - Felizmente, nossos preparativos estão indo muito bem. Conseguimos muito em pouco tempo. De minha parte, era enorme a surpresa que sentia. Por que tantos cuidados? Alexandre e os outros intrutores, tão elevados quanto ele, não poderiam cuidar sozinhos do reencarne de Segismundo? Não tinham grande poder sobre todos os obstáculos? E, dando a entender que queria responder aos meus questionamentos, Alexandre disse a Herculano: - Não devemos e nem podemos forçar ninguém a nada, e precisamos da boa vontade de Adelino para o trabalho a ser feito. Em seguida, passou a orientar Segismundo, sobre a sua conduta mental, aconselhando-o a preparar-se com todos os recursos de que dispunha para o sucesso do trabalho. Outros amigos espirituais da família chegaram, intensificando-se o ambiente de alegria e companheirismo. A presença de Alexandre parecia incentivar a todos. Ele sabia conduzir a conversa com otimismo. Comentavam as dificuldades para o reencarne diante dos conflitos vibratórios causados pela incompreensão dos encarnados, quando Adelino voltou para casa, interessado em manter as emoções daquele dia. Alegres e surpresos, Raquel e Joãozinho fizeram muita festa e começaram a conversar animadamente. Ficaram mais de uma hora fazendo boa leitura e trocando idéias, com Adelino reforçando seus propósitos de recuperar a serenidade íntima, pela comunhão espiritual com a família. Quando Raquel disse ao filho que estava na hora de dormir, o garoto lembrou-se da promessa do pai e perguntou: - Pai, você sabe o que devemos fazer antes de rezar? Adelino sorriu e pediu que ele explicasse. O menino, muito animado, esclareceu: - A mamãe diz que devemos chamar os mensageiros de Deus para nos ajudarem. - Então, - disse o pai, bem-humorado – pode chamá-los! O garoto, de mãos postas, fez o convite em voz alta e, em seguida, os três foram para o quarto. Alexandre, que parecia muito satisfeito com a lembrança espontânea do garoto, disse: - Fomos convidados para participar das orações. Vamos acompanhá-los. Naquele momento, nosso grupo contava com mais três entidades amigas de Raquel, que tinham vindo até ali, também atendendo ao pedido de Herculano, a fim de ajudarem naquele processo. A cena era das mais comoventes. Joãozinho estava de joelhos e rezava o Pai Nosso, em tom infantil. Adelino e a esposa, acompanhavam a prece com grande atenção. E nós, continuávamos em silêncio, observando e colaborando naquela prática espiritual, com os nossos melhores sentimentos. Notei que Raquel estava rodeada de intensa luminosidade, que, saindo de seu coração, envolvia o marido e o filho em vibrações suaves. Muito emocionado, Adelino deixou cair uma lágrima, quando o filho, terminando as preces, curtas em palavras, mas imensas em espiritualidade, beijou suas mãos. Logo depois, todos estavam embaixo dos cobertores, felizes e tranqüilos. Nesse instante, Alexandre falou: - Agora, amigos, vamos à nossa oração de auxílio. Precisamos conversar seriamente com Adelino sobre a situação. O instrutor pediu, em voz alta, a proteção divina para o casal, sendo acompanhado por nós, em profundo silêncio. As vibrações dos nossos pensamentos, como partículas de substância luminosa, mesclaram-se num todo único, derramando-se sobre a cama do casal, como correntes sutis de forças magnéticas revigorantes e regeneradoras. Foi então que vi Raquel sair do corpo, em meio a energias luminosas, parecendo inconsciente. Despreocupada e feliz, abraçou-se a uma das entidades que nos acompanhavam, uma senhora que Alexandre nos disse, um pouco antes, ser sua avó materna. A senhora desencarnada convidou-a a fazerem uma prece e Raquel concordou contente. No entanto, ela parecia perceber apenas a presença da avó. Olhava-nos, indiferente, como se não estivéssemos ali. Estranhando o fato, pedi explicações a Alexandre, que não se fez de rogado, e, apesar da delicadeza do serviço, esclareceu: - Não se surpreenda. Cada um de nós só pode ver aquilo que lhe faça bem. Além do mais, não seria justo intensificar a percepção de Raquel para acompanhar os trabalhos da noite. Ela nos ajudará com a oração, mas não precisará acompanhar de perto as explicações que daremos a Adelino. Quem faz o que pode, recebe, em paz, o que merece. Raquel vem fazendo aquilo que pode para o êxito de suas tarefas. Por isso mesmo, não deve ser perturbada. Vamos cuidar de Segismundo e Adelino. Satisfeito com as explicações e admirando a justiça divina expressa nos mínimos detalhes de nossas atividades espirituais, observei que Raquel se mantinha em profunda prece, não muito distante de nós. Nesse momento, Adelino saía do corpo, muito pesado. Não tinha, como a esposa, uma aura luminosa à sua volta, parecendo mover-se com muita dificuldade. Enquanto seu olhar vagueava pelo quarto, angustiado e assustado, Alexandre se aproximou de mim, dizendo: - Está anotando a lição? Repare nas particularidades da vida espiritual. Adelino e Raquel são espíritos ligados há muitas vidas, partilham os mesmos dramas e alegrias na Terra. No momento, seus corpos dormem, um ao lado do outro, na mesma cama. No entanto, cada um vive em um plano mental diferente. É muito difícil espíritos do mesmo nível estarem unidos nas famílias terrenas. Raquel, fora do corpo, pode ver a avó, com quem se encontra ligada pelo mesmo nível espiritual. Adelino, no entanto, só poderá ver Segismundo, com quem se encontra imantado pelas forças do ódio que deixou crescer novamente em seu coração... Mas a palavra de Alexandre foi interrompida por um grito dolorido. Adelino, assustado, havia percebido a presença de Segismundo e, desesperado, tentava correr, inutilmente. Movimentava-se, com dificuldade, ansioso para voltar ao corpo físico, como criança medrosa querendo esconder-se, mas Alexandre, aproximando-se dele, com amor e autoridade, estendeu-lhe as mãos, das quais saíam grandes faíscas de luz. Contido pelos raios magnéticos, Adelino passou a tremer, começando a ver algo além da figura do ex-inimigo. Aos poucos, com a fortes vibrações de Alexandre, ele pôde vê-lo, em sintonia direta, e caiu de joelhos, chorando muito. Observei que seu pensamento, naquele momento difícil, associava a visão luminosa às preces do filho. Ele via, ali, a estranha figura de Segismundo e a brilhante presença de Alexandre, e fazia um grande esforço para lembrar-se de alguma coisa do passado distante, que a sua memória não conseguia localizar com precisão. Supôs, naturalmente, que Alexandre fosse um emissário celeste, enviado para salvá-lo dos pesadelos e, ofuscado pela intensa luz, soluçava, de joelhos, entre o medo e a alegria, suplicando paz e proteção. Com a serenidade de um pai carinhoso e experiente, o instrutor levantou-o e disse: - Adelino, que a paz de Jesus esteja com você! E, abrançando-o, continuou: - Do que é que você tem tanto medo? Ele ergueu os olhos úmidos e, apontando Segismundo, triste, disse, emocionado: - Mensageiro de Deus, livre-me deste pesadelo horrível! Se você veio por causa das orações do meu filho inocente, ajude-me, por favor! E apontando o pobre amigo, continuou: - Este fantasma me enlouquece! Sinto-me doente, desesperado!... Mas Alexandre, olhando-o profundamente, perguntou: - É assim que você recebe os mais necessitados? É assim que se comporta diante da vontade de Deus? Onde pôs as noções de solidariedade humana? Por que fugir dos mais infelizes? É sempre muito fácil amar os amigos, admirar os bons, compreender os inteligentes, defender os parentes, valorizar os mais queridos, ajudar aqueles de quem gostamos, cumprimentar os justos e destacar os heróis conhecidos, mas, se dispomos de tais conquistas íntimas, é preciso reconhecer que elas refletem apenas o serviço realizado em nosso processo evolutivo. Nós, no entanto, meu amigo, ainda não alcançamos a vitória final. Por isso mesmo, a tempestade é nossa aliada; a dificuldade é nossa mestra; o adversário é nosso instrutor. Mude as vibrações de seus pensamentos. Receba, com compaixão, o necessitado que bate à sua porta, enquanto ainda não alcançou luz suficiente para recebê-lo com o amor que Jesus nos ensinou! Impressionado com as palavras ouvidas, ditas com profundo carinho, Adelino, chorando muito, virou-se para Segismundo, encarando-o de frente. Alexandre, como que aproveitando a nova atitude, acrescentou: - Olhe o infeliz que lhe pede socorro! Observe o seu estado de humilhação e necessidade. Imagine-se no lugar dele e reflita! Você não sofreria com a indiferença dos outros? Não teria a alma dilacerada pela crueldade alheia? Gostaria que alguém o chamasse de fantasma, só por sua aparência de sofredor? Adelino, meu amigo, abra as portas do coração aos que o procuram em nome de Deus. Adelino virou-se, como criança amedrontada, e, olhando o instrutor, falou: - Ah, mensageiro de Deus, tenho medo, muito medo!... Existe alguma coisa entre este homem e eu, que me provoca profunda aversão! Acredito que ele quer me matar, acabar com a minha felicidade, envenenar meu coração para sempre!... Entendi que a aproximação de Segismundo despertava em Adelino as lembranças do passado sombrio. Ele, a vítima de antes, não conseguia localizar os fatos, mas tinha, nas emoções, as recordações imprecisas dos acontecimentos, cheias de medo e dor. Depois de ligeira pausa, Alexandre respondeu: - Você não deve permitir a interferência de forças negativas em sua alma. Sempre é possível transformar o mal em bem, quando há vontade firme da criatura no serviço fiel a Deus. Pense, meu caro, nas grandes verdades da vida eterna! Ainda que este irmão procurasse você na condição de adversário, ainda que ele viesse como inimigo, você deveria abrir-lhe o espírito com fraternidade. Toda reconciliação é difícil quando se é inexperiente na prática do amor, mas sem a reconciliação humana, seria impossível a integração com o Pai! E como Adelino ainda chorasse muito, Alexandre observou: - Não chore! Equilibre o coração e aproveite a oportunidade sagrada!... Adelino, então, enxugou as lágrimas e pediu, com humildade: - Ajude-me, pelo amor de Deus! Sentindo sua sinceridade, Alexandre pediu a Segismundo que se aproximasse. Ele levantou-se, cambaleante e angustiado. Ao lado da antiga vítima, Alexandre apontou o ex-assassino e o apresentou: - Este é o nosso amigo Segismundo, que precisa da sua ajuda para se recuperar. Estenda-lhe as mãos e ajude-o, em nome de Jesus! Adelino não hesitou e, com grande esforço, perceptível à nossa visão espiritual, apertou a mão do ex-adversário, profundamente comovido. - Perdoe-me! – murmurou Segismundo, com profunda humildade. – Deus o recompensará pelo bem que está me proporcionando!... Adelino olhou-o nos olhos, querendo dissipar as últimas sombras do desentendimento, e respondeu: - Disponha... Serei seu amigo!... O ex-assassino inclinou-se, cheio de respeito, e beijou suas mãos. Esse gesto espontâneo acabou de conquistar Adelino. Não podia ser mau o espírito angustiado e triste que beijava suas mãos com tanto carinho. Foi então que vi um fenômeno diferente. O perispírito de Adelino parecia desfazer-se de pesadas cascas, que se rompiam dos pés à cabeça, revelando suas características luminosas. Vibrações muito suaves envolviam-no agora, deixando transparecer sua verdadeira condição, elevada e nobre. Herculano, ao meu lado, disse-me, discretamente: - O perdão de Adelino foi sincero. As grossas sombras de ódio foram completamente dissipadas. Graças a Deus! Alexandre abraçou os dois ex-inimigos e reforçou algumas orientações cheias de sabedoria e ternura. Em seguida, recomendou a Adelino que descansasse, enquanto se preparava para sair conosco. Notei que o casal, ajudado pelos amigos espirituais, voltava ao corpo físico, para comentar aquilo que classificaria de sonho, dentro da sua capacidade. Ao sair, Alexandre comentou, satisfeito: - Com a ajuda de Jesus, a tarefa foi concluída com êxito. E, olhando Segismundo, acrescentou: - Creio que na semana que vem já poderemos iniciar o processo definitivo de sua reencarnação. Nós o acompanharemos com carinho. Não tenha medo de nada. Enquanto Segismundo sorria, resignado e confiante, Alexandre dirigiu-se a Herculano, dizendo: - Já analisei o gráfico referente ao novo corpo físico do nosso amigo e pude verificar, de perto, as imagens do problema de coração que terá na idade adulta, como conseqüência do erro cometido no passado. Segismundo terá muitas perturbações nos nervos cardíacos, principalmente os do tônus. Entretanto, - e virou-se para o interessado – é necessário ver que as provas de verdadeiro resgate podem provocar situações difíceis e perigosas na recapituação de experiências, mas não obrigam ninguém a novos fracassos espirituais, quando existe profunda boa vontade para o trabalho de elevação. O aprendiz aplicado pode ganhar muito tempo e conquistar imensos valores se, de fato, procurar aprender e pôr em práticas as lições. A justiça divina nunca funcionou sem amor. E quando os homens se mantêm sinceramente fiéis a Deus, há sempre lugar para o “acréscimo de misericórdia” a que se referia Jesus em suas mensagens. Em seguida, convidando-me a acompanhá-lo, Alexandre despediu-se dos outros, dizendo: - Voltaremos a vê-los no dia da ligação final de Segismundo com a matéria física. Preciso trabalhar com os companheiros construtores, aos quais pedi que me mostrassem os mapas cromossômicos, referentes aos serviços a serem providenciados. Saímos. E eu, cheio de curiosidade, em vista daqueles cuidados extremos para que Adelino e Segismundo se reconciliassem, antes da reaproximação final na carne, não escondi minhas dúividas. Não seria justo providenciar a reencarnação do necessitado, sem muita demora? Por que tanto carinho para com Adelino, se ele deveria sentir-se satisfeito em poder cooperar no trabalho de redenção? Não dispúnhamos de poder suficiente para quebrar todas as resistências? Alexandre ouviu-me, pacientemente, sorriu e respondeu: - Seus questionamentos são naturais. Ainda não está habituado aos trabalhos de socorro ou de organização no plano espiritual. E, depois de pequena pausa, continuou: - Cada homem, assim como cada espírito, é um indivíduo por si mesmo e cada mente é como um céu... Dele descem raios de sol e chuvas benéficas para o planeta, assim como, quando há atrito na atmosfera, deste mesmo céu descem faíscas destruidoras. Com a mente humana, acontece o mesmo. Dela originam-se as forças que equilibram e restauram as células do corpo físico; mas, quando perturbada, emite raios magnéticos de alto poder destrutivo para as células que a compôem. O pensamento envenenado de Adelino estava destruindo a células reprodutoras, intoxicando a cromatina dentro da própria bolsa seminal. Ele poderia satisfazer as necessidades físicas, entregando-se à relação sexual, mas não atingiria os objetivos de reprodução, porque, pelas lamentáveis condições em que trazia a mente, estava aniquilando os espermatozóides, logo ao nascerem, e, quando acabasse com eles, passaria a intoxicar os genes do caráter, dificultando nosso trabalho. No caso de Segismundo, uma vez que estão unidos, não podemos dispensar sua colaboração direta. Daí a necessidade deste intenso trabalho para despertá-lo para os valores afetivos. Só o amor cria vida, alegria e equilíbrio. Com a mente transformada, Adelino passará a emitir forças magnéticas protetoras para os espermatozóides. A palavra de Alexandre não podia ser mais lógica. Agora começava a entender o sublime sentido do trabalho que havia se realizado para que Adelino se tornasse mais humano e mais doce. Como não encontrava palavras para expressar meu espanto, Alexandre sorriu e disse, depois de longa pausa: - Como você pode ver, aqui não existem milagres para o menor esforço. E quando ensinamos, em toda parte, a necessidade de praticar o amor, não o fazemos apenas para obedecer a meros princípios religiosos, mas atendendo a importantes fatores da própria vida. À medida que me esclarecia em relação ao interessante caso de Segismundo, Alexandre tocou em assuntos muito importantes para mim. Havia citado a relação sexual e classificado a reprodução como seu principal objetivo. Não seria o momento oportuno para saber mais a esse respeito? Fiz várias perguntas. Alexandre não parecia surpreso e ouviu-me, com serenidade. Quando me calei para ouvi-lo, ele respondeu, gentil: - O sexo tem sido tão vulgarizado pela maioria dos homens encarnados que é muito difícil, para nós, por enquanto, esclarecê-los sobre o assunto. Basta dizer que a relação sexual entre a maioria dos homens e mulheres encarnados se aproxima muito da cópula dos animais. Há muita inconsciência criminosa e indiferença sistemática às leis divinas. Assim, não seria razoável qualquer comentário de nossa parte. Trata-se de nível de semiselvagens, onde muitas inteligências admiráveis preferem permanecer em baixas correntes vibratórias. Não se pode negar que ali também trabalham os construtores espirituais, que colaboram na formação básica de corpos destinados às entidades que reencarnam nesses meios mais grosseiros. No entanto, precisamos considerar que o serviço, nesses locais, é feito em massa, por meios de mecanismos primitivos. O amor, nesses planos, é como o ouro bruto, exigindo grande trabalho para revelar-se. Mas entre aqueles que se encaminham, de fato, para a própria elevação, a relação sexual é muito diferente. Representa troca sublime de energias perispirituais, como alimento divino para a inteligência e o coração, e força criadora não só de filhos, mas também de grandes obras e realizações do espírito para a vida eterna. Alexandre fez ligeira pausa, sorriu e continuou: - Lembre-se, André, de que estou falando dos sagrados objetivos da criação e não apenas do fenômeno procriador. A procriação é uma das tarefas que podem ser realizadas por aquele que ama, sem ser o único objetivo das relações. O espírito que tem ódio ou que manifesta atitude negativa, perante a lei divina, não pode criar vida superior em lugar nenhum. Entendi que o problema era muito difícil de ser explicado, mas, como queria tirar todas as minhas dúvidas, o instrutor continuou, depois de rápida pausa: - É necessário deslocarmos o conceito de sexo, evitando colocá-lo apenas em determinados órgãos físicos. Vejamos o sexo como qualidade ativa ou passiva, emissora ou receptora. Desta perspectiva, veremos que toda manifestação sexual evolue com o ser. Enquanto continuamos mergulhados nas vibrações mais pesadas e venenosas, temos apenas sensações. À medida que nos dirigimos para o equilíbrio, vivemos experiências proveitosas, oportunidades de retificação, força, conhecimento, alegria e poder. Quando nos harmonizamos com as leis divinas, encontramos luz e conhecimento, enquanto os espíritos mais elevados alcançam qualidades da divindade. Se substituirmos as palavras “relação sexual” por “união de qualidades”, veremos que toda a vida universal se baseia neste fenômeno divino, cuja causa está em Deus mesmo, Pai Criador de todas as coisas e seres. As palavras de Alexandre abriam novos horizontes ao meu pensamento. As questões obscuras do assunto tornavam-se claras para mim. Percebi que os intervalos na conversa destinavam-se a me dar mais tempo para pensar e depois de longa pausa, o instrutor continuou: - Essa “união de qualidades”, entre os astros, chama-se magnetismo planetário de atração. Entre as almas, chama-se amor. Entre os elementos químicos, é conhecida por afinidade. Não seria possível, portanto, reduzirmos tal fundamento da vida universal, limitando-nos à atividade de alguns órgãos do corpo físico. A paternidade ou a maternidade são tarefas sublimes; não são, portanto, os únicos serviços divinos, no setor da criação infinita. A criatura que produz algo, seja em termos de virtude, ciência ou arte, vale-se dos mesmos princípios de troca. A única diferença é a de planos, porque, para ela, o intercâmbio de qualidades acontece em níveis mais elevados. Há fecundações físicas e fecundações psíquicas. As primeiras precisam dos elementos físicos, para atender, temporariamente, as necessidades da vida nas experiências necessárias. As segundas, porém, dispensam as limitações do físico e ocorrem nos domínios da alma, em maravilhoso processo espiritual. Quando falamos do amor de Deus, quando sentimos sede dEle, nossos espíritos não querem outra coisa, a não ser a troca de qualidades com os planos mais elevados do universo, ansiosos pelo princípio fecundante do Pai. Alexandre fez longa pausa, como se ele mesmo estivesse encantado com aqueles pensamentos. De minha parte, estava deslumbrado. Nunca havia ouvido definições tão profundas a respeito do sexo em relação à vida universal. - É lamentável – continuou ele, sério – que a maioria dos encarnados tenha menosprezado as potencialidades criativas do sexo, desviando-as para os prazeres inferiores. Todos pagarão o que devem à economia divina, pela mesma porta por que receberam a oportunidade de reencarnar. Todo ato criador está cheio de energias sagradas de Deus e são estas energias sublimes da participação do espírito nos poderes criadores da natureza, que os homem levam, inconscientemente, para o abuso e a viciação. Tentam arrastar a luz para as trevas e convertem os atos sexuais, profundamente sagrados em todas as suas características, em paixão viciosa, tão deplorável quando o álcool ou as drogas. Entretanto, André, sem que os encarnados possam perceber, todos os infelizes nesta situação são severamente punidos pela natureza divina. A essa altura das explicações, percebendo que o instrutor faria nova pausa, perguntei: - Mas o uso do sexo não é uma lei natural na Terra? Alexandre sorriu, com bondade, e respondeu: - Ninguém contesta este caráter das manifestações sexuais na Terra, mas todas as leis naturais no mundo, como em todo o universo, devem ser exercidas com base na lei universal do bem e da ordem. Quem foge ao bem, encontra o crime; quem foge à ordem, cai no desequilíbrio. Portanto, se as relações sexuais acontecem longe destes preceitos, transformam-se em causas de sofrimento e perturbação. Além disso, não devemos esquecer que o sexo, na existência humana, pode ser um dos instrumentos do amor, sem que o amor seja o sexo. Por isso mesmo, homens e mulheres que, aos poucos, se libertam do apego à forma física, libertam-se também, gradativamente, do domínio absoluto das sensações carnais. Para eles, a relação sexual física vai deixando de ser uma necessidade, porque aprendem a trocar, entre si, os valores da alma, alimentando-se, reciprocamente, por meio de trocas magnéticas, também valiosas para a criação infinita, gerando realizações espirituais para a eternidade, sem qualquer contato físico. Para esse tipo de criaturas, a união que traz mais conforto não é a que se limita às emoções de alguns minutos, mas a que integra alma com alma, por uma vida inteira, nos planos da espiritualidade superior. Frente aos fenômenos físicos, basta-lhes, às vezes, um olhar, uma palavra, um simples gesto de carinho e compreensão, para que recebam o magnetismo criador da pessoa querida, impregnando-se de força e estímulo para as mais difíceis tarefas. Alexandre fez pequena pausa e, em seguida, balançando a cabeça, disse: - Não há criação sem fecundação. As formas físicas nascem das uniões físicas. As construções espirituais originam-se das uniões espirituais. O universo é filho de Deus. O sexo, portanto, como qualidade ativa ou passiva dos princípios e dos seres universais, é manifestação cósmica em todos os níveis evolutivos, até que possamos atingir a harmonia perfeita, onde essas qualidades se equilibram na própria divindade. Não me atrevi a interromper o silêncio que se seguiu. O instrutor, mergulhado em profundos pensamentos, não voltou mais ao assunto, querendo levar-me, talvez, a reflexões mais construtivas. Esperei ansiosamente pelo momento de voltar ao caso de Segismundo. O estudo era realmente fascinante. Foi por isso que, com muita alegria, recebi o convite de Alexandre para voltar à casa de Adelino. O instrutor dizia que era preciso visitar o casal e o amigo em processo de reencarne, na véspera da primeira ligação com a matéria orgânica. Quando chegamos à casa deles, encontramos Herculano e Segismundo em companhia de outras entidades. Alexandre foi informado de que eram espíritos construtores, que íam colaborar na formação do feto do nosso amigo. Como da outra vez, era fim de tarde e a família estava jantando. Adelino, porém, apresentava outro estado de espírito. Estava cercado por uma atmosfera clara de otimismo, delicadeza e alegria. O instrutor, muito satisfeito com a nova situação, passou a examinar os mapas cromossômicos, com a ajuda dos construtores presentes. Era em vão que eu tentava entender aqueles rabiscos, totalmente indecifráveis para mim. Mas Alexandre, sempre gentil, comentou: - Este não é um estudo que você possa entender, por enquanto. Estou examinando a geografia dos genes nas estrias cromossômicas, para saber, com certeza, até que ponto poderemos colaborar em favor de Segismundo, com recursos magnéticos para a organização das características hereditárias. Fiquei conformado e passei a observar Segismundo, que parecia muito cansado e abatido. Não conseguia, sequer, manter-se sentado. Com a ajuda de Herculano, conversava conosco com muita dificuldade, estendido numa cama, em grande abatimento. Estava satisfeito com a minha presença amiga e, enquanto os outros estudavam sua situação, conversei com ele, rapidamente, e confirmei, mais uma vez, a desagradável sensação dos que estão para reencarnar. - Estava mais entusiasmado, - disse ele, triste – mas agora, sinto-me desanimado... Estou fraco, sem energias... Enquanto lutei para me reaproximar de Adelino, sentia mais confiança e serenidade... mas agora que consegui a bênção de voltar à Terra, tenho medo de fracassar novamente... - Tenha calma – respondi, animando-o. – Sua oportunidade é das melhores. Além disso, muitos companheiros o acompanharão de perto, ajudando em seu sucesso no futuro. Segismundo sorriu com dificuldade e respondeu: - Sim, é verdade... De todos os que estão me ajudando agora, Herculano será o que vai me acompanhar mais de perto... Eu sei... No entanto, a volta ao corpo físico, com todos os conhecimentos espirituais que já temos, representa algo muito sério em nosso processo de elevação. Ai de mim, se falhar outra vez!... Dizia-lhe frases de incentivo, quando Alexandre, depois de examinar todos os documentos, aproximou-se de nós e disse a ele com autoridade e carinho: - Segismundo, é incrível que esteja desanimando no momento mais importante de suas atuais realizações. Recupere a fé, resgate a esperança, porque você não pode reencarnar como nossos irmãos ignorantes e infelizes, que necessitam estar quase completamente inconscientes para entrarem, novamente, no útero (2) materno. Para o seu próprio bem, não deixe de cooperar com a sua confiança em nosso trabalho. Use a imaginação. Mentalize os primeiros momentos do feto, formando, em sua mente, os moldes adequados. Você terá em Raquel o mais elevado e eficiente auxílio, e receberá de nós colaboração direta. No entanto, lembre-se de que o seu trabalho individual será muito importante para a adaptação e a recepção, a fim de que tenha sucesso nesta oportunidade. Não perca tempo com expectativas cheias de dores e ansiedade. Eleve o padrão de suas forças íntimas. Segismundo ouviu, com respeito, a advertência. Percebi que as palavras de incentivo de Alexandre haviam surtido efeito maravilhoso. O reencarnante melhorou, de repente, esforçando-se por afastar de si as preocupações inúteis. Impressionado com a explicação do instrutor, não hesitei em tirar mais dúvidas. - Então, - perguntei, muito interessado - existem espíritos que reencarnam inconscientes do que estão fazendo? - Claro, - respondeu ele – assim como os milhares que desencarnam na Terra, diariamente, sem a menor noção do que lhes acontece. Só os espíritos mais esclarecidos compreendem completamente a situação que se apresenta no momento da morte física. Aqui é a mesma coisa. A maioria dos que reencarnam no mundo é magnetizada pelos companheiros espirituais, que organizam suas novas tarefas evolutivas, e todos os que recebem esse tipo de ajuda são conduzidos ao novo corpo físico como crianças adormecidas. O trabalho inicial de organização do feto, que deveria ser feito por eles, é executado pela mente da mãe e pelos amigos espirituais que os ajudam. Muitos reencarnam nestas condições, conduzidos por espíritos superiores de nosso plano, em vista das necessidades de cada caso. A explicação não podia ser mais lógica, e, mais uma vez, admirei em Alexandre o dom da clareza e da simplicidade. Ficamos por ali ainda algum tempo e, ao se despedir, quase à meia-noite, depois de mais algumas palavras de incentivo a Segismundo, Alexandre dirigiu-se a Herculano e aos contrutores, dizendo: - Voltaremos amanhã à noite, para a ligação inicial, entregando o reencarnante aos seus futuros pais. Um dos espíritos construtores, que parecia ser o chefe do grupo, abraçou-o, comovido, e disse: - Contamos com a sua ajuda para a divisão da cromatina no útero materno. - Com muito prazer! – respondeu ele, bem-humorado. Voltando às minhas reflexões, não agüentava as novas idéias que o caso de Segismundo me inspiravam. Como seria o auxílio, naquelas circunstâncias? Raquel estava consciente de nossa colaboração? Como o casal interpretaria o nosso trabalho, caso viesse a saber de nossas atividades? Como se estivesse ouvindo meus pensamentos, Alexandre se encarregou de me responder, dizendo: - Em casos como este, André, a nossa intervenção se dá com a mesma seriedade que caracateriza o trabalho de um médico honesto e responsável ao fazer um parto comum. A modelagem do feto e o desenvolvimento do embrião obedecem a leis físicas naturais, da mesma forma que acontece em outros reinos da natureza, mas, em todos esses fenômenos, a colaboração espiritual ocorre paralelamente a essas leis, de acordo com os planos de evolução ou resgate. Nosso trabalho, portanto, em processos como este, é uma das tarefas mais comuns. Compreendi a profundidade do esclarecimento e me tranqüilizei, esperando o dia seguinte. Mas, passado o dia, a curiosidade voltou a me incomodar. Quando iríamos à casa de Adelino? Sem qualquer má intenção, estava interessado na primeira ligação de Segismundo à matéria. Alexandre agiria no momento da relação sexual ou o processo obedecia a outros fatores? O instrutor sorria em silêncio, percebendo minha tortura mental. As horas passavam e, notando minha impaciência, Alexandre me esclareceu: - Não precisamos estar presentes durante a relação sexual. Situações conjugais como esta são sagradas e invioláveis para os casais que convivem em harmonia e elevação de propósitos. Você sabe que a fecundação do óvulo só acontece algumas horas depois da relação. O espermatozóide tem uma longa viagem a fazer, antes de chegar ao seu destino. E, sorrindo, acrescentou: - Temos bastante tempo. Percebi a delicadeza do assunto e, ansioso por mais informações, perguntei: - E você diria que todas as relações sexuais são invioláveis? - Claro que não! – respondeu o instrutor – Não se esqueça de que estou falando dos “casais que convivem em harmonia e elevação de propósitos”. Todos os encarnados que levam uma vida familiar equilibrada, conquistam a proteção de entidades elevadas, que lhes garantem a privacidade nos atos mais íntimos, intensificando as barreiras vibratórias e defendendo-as contra os assédios mais intensos, usando os pensamentos dos próprios encarnados como base para o seu trabalho. No entanto, o mesmo não ocorre nas casas onde as companhias espirituais não são das melhores. A mulher infiel aos princípios mais nobres da vida em comum e o homem que expõe sua casa de maneira irresponsável não devem esperar que seus atos tenham conseqüências positivas. Suas relações sexuais são espetáculos de que participam as entidades que eles mesmos escolheram, por sintonia. Tornam-se vítimas inconscientes de grupos trevosos, que compartilham de suas emoções físicas, induzindo-as às viciações. Ainda que estes cônjuges sejam considerados respeitáveis pelas convenções sociais do mundo, não podem disfarçar a condição espiritual desequilibrada, uma vez que vivem dominados pelo prazer físico. A resposta de Alexandre me surpreendeu. Entendi melhor que cada um de nós escolhe a situação em que quer viver, em todos os lugares. No entanto, uma nova dúvida surgiu e procurei esclarecê-la, para tornar tudo ainda mais claro. - Entendo a gravidade de suas palavras, – disse – mas considerando o perigo que certas atitudes desequilibradas representam para aqueles que assumem a responsabilidade de um lar, como fica a situação, por exemplo, de uma esposa fiel e dedicada frente a um marido que tem suas aventurais sexuais? Essa mulher ficaria exposta às entidades perturbadas que o marido atraiu? - Não. – disse ele, categórico – O mau não pode atingir o que é legitimamente bom. Em casos assim, a esposa garantirá a segurança do ambiente familiar, embora isto possa lhe custar muitos sacrifícios. Suas relações sexuais com o marido são sagradas, ainda que ele tenha um comportamento desequilibrado fora de casa. No entanto, neste caso, o marido irresponsável torna-se cego para as virtudes e se transforma em escravo das entidades perturbadas que atraiu, presentes, o tempo todo, em suas atividades fora de casa. Quando chega a esse ponto, é muito difícil impedir que chegue ao crime e ao completo desequilíbrio. - Nossa! – exclamei – Como há trabalho esperando a boa vontade dos corajosos! Quanta ignorância a ser vencida!... - Você acertou, – acrescentou o instrutor, em tom sério – porque, de fato, a maioria das tragédias conjugais continuam depois da morte física, criando terríveis infernos para aqueles que as vivenciaram na Terra. É muito doloroso ver a extensão dos crimes cometidos entre os encarnados e ai daqueles que não se esforçam para vencer as tendências inferiores em tempo! Sua chegada aqui é cheia de angústias!... Calei-me e Alexandre, pensativo, também ficou em silêncio, dando a entender que estava se concentrando. Eram, mais ou menos, 10h da noite, quando saímos em direção à casa de Raquel. O casal acabava de se deitar. Herculano e os outros nos receberam com muito carinho. O chefe dos construtores dirigiu-se a Alexandre, dizendo: - Estávamos esperando por você para começarmos com o processo magnético do reencarnante. Em seguida, fomos para um dos quartos, onde Segismundo descansava. Ele continuava triste e aflito. Não pude conter uma pergunta: - Por que Segismundo está tão mal? – perguntei, discretamente. - Já faz tempo que está em processo de ligação fluídica com os futuros pais, especialmente nesta última semana. Herculano está encarregado de ajudá-lo neste trabalho. À medida que se aproxima mais, ele vai perdendo o contato com os corpos sutis que estruturou aqui, pela assimilação de elementos deste plano. Isso é necessário para que o perispírito possa recuperar a plasticidade que lhe é característica e, no estágio em que está, o processo lhe causa alguns sofrimentos. Aquilo era muito novo para mim, por isso, continuei perguntando: - Mas o perispírito de Segismundo não é o mesmo que ele trouxe para cá, quando desencarnou pela última vez? - Sim, - concordou Alexandre – tem a mesma essência, mas, com o tempo, em virtude da nova alimentação e dos novos hábitos, em ambiente muito diferente, incorporou certos elementos sutis, dos quais precisa se desfazer para poder entrar, com êxtio, na matéria física. Para isto, o conflito causado pelas primeiras ligações fluídicas com as respectivas emoções desgatam-lhe essas energias, sempre lembrando que, esta noite, faremos a parte final do trabalho, utilizando nossos recursos magnéticos em seu favor. - Mas... – disse eu – Então não teremos aqui algo como a morte física no mundo? Alexandre sorriu e respondeu: - É claro que sim, se considerarmos a morte física como simples abandono de corpos terrestres. Percebi que o momento não era adequado para mais perguntas e, vendo que Alexandre se concentrava nos construtores, não fiz mais perguntas. Acompanhado pelos amigos, Alexandre aproximou-se de Segismundo e disse, bem-humorado: - E então? Está se sentindo melhor? E, com um gesto de carinho, acrescentou: - Você deve ficar feliz: chegou o momento decisivo. Toda a nossa gratidão é insignificante, diante da nova oportunidade recebida. - Sim... – disse Segismundo, ofegante – Estou muito agradecido... Não se esqueçam de mim... E, olhando para Alexandre, acrescentou, agitado: - Estou com medo... muito medo... O instrutor sentou-se ao seu lado e disse, com carinho: - Não deixe que o medo se instale em seu coração. O momento é de confiança e coragem. Ouça, Segismundo! Se você ainda tem alguma preocupação, diga-nos, fale de tudo o que lhe pareça obstáculo. Abra sua alma, amigo! Lembre-se de que está chegando a hora da passagem definitiva para o outro plano. Você precisa manter o pensamento puro, livre de qualquer perturbação! Segismundo deixou cair algumas lágrimas e falou, com esforço: - Você sabe que desenvolvi pequena obra de socorro, perto da nossa colônia... O projeto foi autorizado pelos nossos superiores e,... apesar de estar indo muito bem,... ainda não está terminado e me sinto responsável por ele... Não sei se fiz bem,... pedindo para reencarnar agora, antes de completar o meu trabalho... Entretanto,... entendo que,... para ir adiante, preciso me reconciliar com a minha própria consciência,... buscando os adversários de outros tempos, ... a fim de corrigir meus erros... E enquanto Alexandre e os outros o ouviam, em silêncio, Segismundo continuava: - Foi por isso que insisti tanto para voltar... Como poderia orientar os outros em sua recuperação espiritual... se eu mesmo não havia quitado ainda minhas dívidas?... Como aliviar o sofrimento dos outros,... se eu mesmo ainda sofria com as lembranças do passado?... Mas agora que chegou o momento,... sinto muito medo de errar novamente... Quando Adelino e Raquel voltaram,... prometeram me ajudar... e tenho certeza de que serão meus protetores... No entando, estou muito aflito e ansioso com o futuro desconhecido... Aproveitando a pausa, Alexandre falou, com franqueza e otimismo: - Não adianta se preocupar tanto! Esqueça suas realizações aqui. Todas as nossas obras, erguidas de acordo com as leis de Deus, sustentam-se por si mesmas e continuarão nos esperando para colher, a qualquer momento, os frutos de alegria e satisfação. Só o mal está condenado à destruição e apenas o erro precisa de trabalhos de retificação. Por isso, fique calmo. Sua insistência em reencarnar agora foi muito oportuna. A correção do desvio de outra época lhe dará uma nova luz, muito mais brilhante. Persista no seu objetivo. Para o aluno fiel, não há maior felicidade do que aproveitar bem a escola, com seus benefícios e lições. Assim, Segismundo, é muito bom que você reencarne agora. Alimente-se da confiança em Deus e continue. Para a nova encarnação, você só pode levar as conquistas espirituais alcançadas com o seu esforço. Não pare para pensar nos aspectos exteriores de nossas atividades aqui. Do contrário, você poderia não se adaptar ao feto e acabaria causando a morte prematura do seu novo corpo, ainda na infância. Não se prenda a medos sem razão. Com tristeza e desânimo nunca quitaremos nossas dívidas. É indispensável criar novas esperanças. Segismundo fez um gesto para concordar e sorriu com dificuldade, parecendo menos triste. - Não estrague o seu importante trabalho do momento. Lembre-se das bênçãos que temos recebido e não tenha medo! Quando Alexandre se calou, notei que Segismundo, muito emocionado, não conseguia mais falar. Mas vi que pegou a mão do instrutor, com muito esforço, e beijou-a, em sinal de gratidão. Pensei, então, na enorme ajuda que todos recebemos ao reencarnarmos. Aqueles amigos ajudavam Segismundo desde o primeiro dia, e, ainda ali, com toda a sua fraqueza, eles mesmos procuravam acabar com todas as tristezas, animando-o até o fim. Os construtores começaram o trabalho de magnetização do seu perispírito, ajudados de perto por Alexandre, que se mantinha firme em todos os detalhes do serviço. Sem saber bem como explicar ao leitor, devo dizer que “alguma coisa na figura de Segismundo estava sendo eliminada”. À medida que o processo magnético se intensificava, ele se tornava mais pálido, de modo quase imperceptível. Ía ficando cada vez mais vago, cada vez menos lúcido. Num determinado momento, Alexandre lhe disse, com firmeza: - Segismundo, ajude-nos! Mantenha o pensamento e a vontade firmes! Tive a impressão de que o reencarnante se esforçava para obedecer. - Agora, - continuou o instrutor – sintonize-se conosco e mentalize a forma pré-natal. Imagine sua volta ao útero materno. Lembre-se do feto e torne-se pequeno. Pense na necessidade de voltar a ser criança para aprender a ser homem! Entendi que o reencarnante precisava ajudar o mais possível para que a operação fosse bem sucedida. Surpreso, percebi que, sob a influência magnética de Alexandre e dos contrutores, o perispírito de Segismundo ía diminuindo. Embora não fosse simples, a operação não demorou muito. Ele já não nos percebia com a mesma lucidez e suas respostas às nossas perguntas não eram mais tão completas. Por fim, para meu espanto, notei que Segismundo parecia uma criança. O fenômeno me espantava e não consegui conter as perguntas que surgiam. Notando que Alexandre e os construtores dispunham de algum tempo antes de entrarem no quarto do casal, aproximei-me dele que, imediatamente, percebeu minha curiosidade. Gentil, como sempre, disse: - Já sei. O espírito de pesquisa o tortura. Sorri, sem jeito, e perguntei: - Como é que isso acontece? Não imaginava que o reencarne exigisse operações tão complexas no plano espiritual. - O trabalho elevado está em toda parte – disse ele, de propósito. – O paraíso do descanso é, provavelmente, a maior ilusão dos princípios doutrinários que confundem o sentido divino da verdadeira religião na Terra. Fez uma pausa e continuou: - Não vejo razão para tanto espanto. O desencarne normal na Terra obriga o corpo físico ao mesmo tipo de modificações. A doença letal, para o homem encarnado, não deixa de ser, até certo ponto, uma prolongada operação de redução, que, ao final, liberta o espírito, desfazendo os laços orgânicos. Há pessoas que, depois de algumas semanas de cama, ficam irreconhecíveis. Isso sem considerar que o corpo físico está muito longe de ter a plasticidade do perispírito, o qual é profundamente sensível à influência magnética. A explicação não podia ser mais lógica. - Mas o que vimos aqui – perguntei – é regra geral para todos os casos? - De jeito nenhum – respondeu Alexandre. – Os processos de reencarne, tanto quanto os de morte física, são muito diferentes entre si e, até onde sei, não existem dois casos completamente iguais. As facilidades e dificuldades dependem de vários fatores, muitas vezes relacionados ao estado de consciência dos próprios reencarnantes ou à libertação dos elementos físicos. Há companheiros muito elevados que, ao voltarem à Terra em tarefa de serviço e crescimento, quase não precisam da nossa ajuda. Já outros, que vivem nas regiões mais densas, necessitam muito mais auxílio do que o oferecido a Segismundo. - Mas não deveriam renascer – perguntei, curioso – só aqueles que já estão preparados? - Não podemos esquecer – respondeu ele – que reencarnação é repetição de lições necessárias. A Terra é uma escola divina. E o amor, diariamente, leva de volta milhares de aprendizes, por meio das atividades de intercessão. Alexandre calou-se, por alguns minutos e, depois, prosseguiu: - A reencarnação de Segismundo segue os procedimentos mais comuns. É como a maioria dos casos dessa natureza, já que o nosso irmão está na média dos espíritos que povoam o planeta, nem puros, nem deliberadamente maus. Vale destacar, no entanto, que o reencarne de certas entidades das regiões mais densas, exige grandes esforços dos trabalhadores de nosso plano. Estas criaturas nos obrigam a serviços que você ainda vai demorar muito para entender. As explicações de Alexandre eram muito interessantes e satisfaziam minha curiosidade científica. No entanto, outras dúvidas íam surgindo. Por isso, continuei perguntando: - Por acaso, este tipo de ajuda é dado a todos? Aqui, estamos num lar harmonioso, segundo você mesmo disse. Mas... e se estivéssemos numa casa em desequilíbrio? E se tivéssemos que enfrentar paixões e distúrbios profundos? O instrutor pensou um pouco e respondeu: - André, o diamante que fica perdido no lodo por algum tempo não deixa de ser diamante. Do mesmo modo, a paternidade e a maternidade são sempre divinas, em si mesmas. O auxílio dos planos superiores está presente em todos os lugares, desde que esteja de acordo com a vontade de Deus. Entretanto, precisamos considerar que, em tais circunstâncias, as atividades de auxílio são muito difíceis. As vibrações contrárias e prejudiciais do espírito em desequilíbrio comprometem os nossos esforços e, muitas vezes, para ajudar nesses ambientes de irresponsabilidade e viciação, precisamos, antes de tudo, cuidar das entidades trevosas que dominam a atmosfera de homens e mulheres que, inadvertidamente, preferem a perturbação emocional, ambiente preferido dessas criaturas ignorantes e desequilibradas. Nesses casos, a nossa colaboração nem sempre é perfeita, já que os próprios pais menosprezam a grandeza da tarefa que lhes foi confiada, abrindo as portas de suas energias a entidades sombrias que perseguem seus filhos que ainda não nasceram. Muitos espíritos, bastante corajosos, escolhem reencarnar nestas condições, a fim de fortalecerem a própria resistência contra o mal, desde os primeiros dias de gestação. Entretanto, é preciso ser muito forte na fé e na coragem para não desistir. Nesse tipo de reencarne, a maioria dos casos é de espíritos em programas de provas e resgate. Muitos não agüentam, mas há sempre alguns que aproveitam a experiência para a vida espiritual eterna. Alexandre comentava o assunto com beleza. Estava começando a entender a origem de certas anomalias e de determinadas doenças de nascença que, no mundo, causam tanto sofrimento. Aquelas explicações me conduziam a novo estudo: as questões dos resgates e das provas. Em seguida, Alexandre pediu aos contrutores que examinassem, com ele e Herculano, os mapas cromossômicos. Acompanhei o trabalho com interesse, embora não fosse capaz de entender completamente o que representavam aqueles desenhos. Por falta elementos, não tenho como transmitir determinadas definições daqueles especialistas, mas posso dizer que, quando terminaram a parte técnica da reunião, Alexandre disse, satisfeito: - Com exceção da artéria principal, no ponto onde deve se dilatar para facilitar o funcionamento do coração, tudo está indo muito bem. Todos os genes (3) serão absolutamente normais. Depois de pequena pausa, acrescentou: - Os membros e órgãos serão excelentes. E se o nosso amigo souber aproveitar as oportunidades do futuro, poderá conseguir a recuperação do aparelho circulatório, mantendo-se em experiência evolutiva por um bom tempo na Terra. Só depende dele. Virando-se para os construtores, disse-lhes: - Meus amigos, Herculano ficará, em definitivo, com Segismundo, até que ele complete sete anos de vida, quando o processo de reencarne estará completo. Depois disso, sua tarefa de amigo e orientador será mais suave, já que poderá acompanhar nosso irmão a distância. Sei que ele tomará todas as providências necessárias para o equilíbrio do feto, seja ajudando o reencarnante, seja protegendo a mãe contra o assédio de forças perturbadoras. Entretanto, peço que prestem muita atenção aos primeiros sinais de formação do timo (4), glândula muito importante desde a gestação até o fim da primeira infância, como todos sabem. Precisamos que ela funcione muito bem até que a medula óssea esteja pronta para a produção dos glóbulos vermelhos. Os vários gráficos dos cromossomos vão facilitar o trabalho. Alguns dos presentes passaram a olhar os mapas com mais atenção. Enquanto examinavam aqueles sinais microscópicos, aproximei-me de Alexandre e, percebendo que estava mais acessível às minhas dúvidas, perguntei: - Nestes mapas, temos a geografia dos genes, distribuídos nos cromossomos. Mas e a lei de hereditariedade, será limitada? A criança recebe, ao nascer, a total influência das características dos pais? Doenças físicas e distúrbios de caráter são transmitidos em sua totalidade? - Não, André. – disse ele, sério – Estamos diante de um fenômeno físico natural. O organismo dos futuros bebês, em sua forma mais densa, provém do corpo dos pais, que lhes dá a vida e determina as características com o próprio sangue. No entanto, não existe na lei natural nenhuma transgressão aos princípios de liberdade espiritual, intrínsecos a toda a criação. Por isso mesmo, os encarnados herdam tendências e não, qualidades. As tendências cercam o homem que reencarna desde os seus primeiros dias de luta no ambiente em que deve renascer, para aprimorar-se. Já as qualidades são o resultado do esforço individual do espírito encarnado, defendendo, educando e aperfeiçoando a si mesmo. Se o reencarnante prefere as tendências inferiores, ele as desenvolverá assim que as encontrar novamente na nova situação de vida, perdendo tempo precioso e desperdiçando valiosa oportunidade de crescimento. Mas se ele se mantiver firme no propósito de se elevar, ficará acima de qualquer tendência negativa do corpo ou do ambiente, vencendo as condições adversas e conquistando títulos muito importantes para a vida espiritual. Portanto, em sã consciência, ninguém pode se queixar da influência de forças negativas ou circunstâncias difíceis, no que se refere ao ambiente em que renasceu. Sempre teremos liberdade íntima para escolher o caminho da luz. Elevando-nos epiritualmente, estaremos sempre melhorando. Esta é a lei. Em virtude de suas explicações anteriores, a respeito da ajuda de Herculano a Segismundo até os sete anos, procurei saber algo mais de Alexandre. Pedi desculpas a ele, mas não pude conter aquela dúvida. Por que tanto cuidado com o sangue do futuro recém-nascido? O processo de reencarnação só termina aos sete anos de vida física? Como sempre, o instrutor me ouviu, pacientemente, sorriu e respondeu, atencioso: - Você sabe que o corpo humano tem suas atividades meramente vegetativas, mas talvez ainda não saiba que o perispírito, que serve de molde às células, está profundamente enraizado na circulação sangüínea. No feto, o sangue provém da mãe. Logo depois do nascimento, tem início um período de assimilação diferente, em que o “eu” reencarnado começa a consolidar suas novas experiências, e só aos sete anos é que passa a comandar, por si mesmo, o processo de formação do sangue, elemento básico de equilíbrio para o perispírito, na nova experiência iniciada. O sangue, portanto, é como o fluido divino que nos garante as atividades no corpo físico e, em seu fluxo e refluxo constantes no organismo, temos o símbolo do eterno movimento das forças sublimes da criação. Quando ele não circula livremente, surgem os distúrbios e as doenças e, quando algo interrompe completamente a sua circulação, o tônus vital se extingue e logo ocorre a morte física, com a saída imediata do espírito. Muito impressionado com a revelação, observei: - Ah, quanta responsabilidade tem o homem, frente ao corpo físico! - É muito natural e justa sua admiração frente a esse dever do espírito encarnado – disse Alexandre. – Sem corresponder às graves responsabilidades que lhe competem nos cuidados com o corpo físico, nenhum homem poderá alcançar a elevação espiritual. O espírito renasce na carne para conquistar valores divinos para sua natureza. Mas como conseguir isso, destruindo o organismo, principal fundamento do trabalho? Agora há pouco você falava da lei de hereditariedade. O corpo físico também é um patrimônio herdado há milênios, que a humanidade vem aperfeiçoando através dos séculos. O plasma (5), sublime criação divina, feito à base de água do mar nas épocas mais primitivas, é a base fundamental dos organismos. Quando voltamos à Terra, temos que aproveitar sua herança, mais ou menos evoluída no corpo humano. Depois de ligeira pausa, continuou: - Por isso mesmo, você sabe que, enquanto estamos encarnados, somos criaturas marinhas, respirando em terra firme. Na alimentação comum, não podemos deixar faltar o sal. Nosso corpo é constituído de 60% de água salgada, com composição quase idêntica ao mar, com sais de sódio, cálcio e potássio. O sabor do sal está no sangue, no suor, nas lágrimas e nas secreções. Os organismos adaptados para a vida nos mares mais quentes viveriam confortavelmente no líquido do corpo humano. Há muitas comparações surpreendentes neste sentido. Não sabia o que dizer e, em vista do meu silêncio, foi ele mesmo que continuou, depois de uma boa pausa: - Como vê, ao renascermos no mundo, recebemos, com o corpo, uma herança sagrada, cujos valores precisamos preservar e aperfeiçoar. As forças físicas devem evoluir com os nossos espíritos. Se o corpo nos é proporcionado como ferramenta para as novas experiências de elevação, devemos retribuir, com o nosso esforço, oferencendo-lhe nosso respeito e equilíbrio espiritual no campo das atividades orgânicas. O homem do futuro entenderá que suas células não são apenas partículas de carne, mas companheiras de evolução, que merecem a sua gratidão e colaboração efetivas. Sem esta compreensão da harmonia orgânica, é impossível encontrar a paz. A conversa brilhante de Alexandre inspirava elevadas questões. Entretanto, ele mesmo me lembrou do trabalho em andamento e encerrou as explicações. Eram 2h da manhã. Além de Alexandre e dos construtores, estavam ali conosco também vários amigos espirituais da família. Com todos os companheiros ao seu redor, Alexandre falou, em tom sério: - Agora, amigos, vamos ao quarto do casal para que se efetive a união espiritual. E, entregando Segismundo à mãe de Raquel, acrescentou: - Seja você a portadora do sagrado presente. Raquel se sentirá ainda mais feliz ao seu contato. E ela bem merece esta alegria. Virando-se para os outros, explicou: - Faremos agora a ligação inicial mais direta de Segismundo com a matéria física. Mas espero que todos vocês visitem nosso amigo reencarnante, principalmente no período de gestação. Vocês sabem o quanto é importante a colaboração carinhosa nesse serviço. Só aqueles que souberam cultivar afeições podem receber a ajuda dos amigos e Segismundo merece esse prêmio pelos trabalhos e sentimentos por nós, nestes últimos anos em que se dedicou a grandes obras de assistência. Logo depois, entrávamos no quarto do casal, onde o cenário era maravilhoso. Na cama de madeira, em lençóis macios de linho, descansavam dois corpos imobilizados pelo sono, mas, ali mesmo, Adelino e Raquel nos esperavam no astral, conscientes da importância daquele momento. Ao despertar no físico, seus cérebros não conseguiriam fixar as lembranças daquela cena espiritual, em que eram as principais personagens, mas o acontecimento ficaria gravado para sempre em sua memória eterna. Os amigos da família, companheiros do nosso plano, haviam enchido todo o quarto com flores de luz. Desde a meia-noite, já tinham permissão de entrar ali, para efeitar os caminhos por que Segismundo recomeçava. Mais de cem amigos estavam reunidos ali, para as merecidas homenagens. Alexandre foi à nossa frente, cumprimentando carinhosamente o casal, temporariamente fora dos corpos físicos. Em seguida, com a atmosfera de harmonia, os presentes passaram a cumprimentá-los, proporcionando muita alegria ao coração de ambos. A cena era linda e emocionante. Ao meu lado, duas entidades comentavam: - É sempre difícil reencarnar, depois de termos conhecido os planos mais elevados. No entanto, o amor cristão é tão sagrado que, mesmo nestas circunstâncias, é muito grande a felicidade daqueles o praticam. - Sim, – respondeu a outra – Segismundo tem lutado muito para se recuperar e, nessa luta, tem se dedicado muito a todos nós. Ele merece estas alegrias. Nesse momento, notei que a mãe de Raquel se mantinha a pequena distância dela, entre os construtores. Estava pensando nisso, quando alguém me tocou de leve, chamando minha atenção. Era Alexandre que sorria, dizendo: - Vamos deixar os nossos amigos aproveitarem a atmosfera de amor e alegria por alguns minutos. Começaremos o trabalho na hora certa. Perplexo diante daqueles fatos novos, não conseguia acomodar o raciocínio frente às várias questões daquela noite. Por isso mesmo, tinha muitas dúvidas. Alexandre percebeu o meu estado de espírito e, talvez por isso mesmo, deu-me a impressão de estar mais paciente. Aproveitando a oportunidade, apontei Segismundo, nos braços daquela que seria sua avó, e perguntei: - Depois de adulto na carne, ele terá a mesma aparência que tinha aqui entre nós? Uma vez que o molde é o perispírito, que já existia, ele vai ter a mesma altura e os mesmos traços que tinha aqui? Alexandre respondeu, sem vacilar: - Calma, André. Estamos falando de uma forma que já existia e que serve de modelo para a estrutura principal, ou seja, o aspecto humano. Os traços e detalhes anatômicos vão se desenvolver naturalmente, de acordo com a lei de hereditariedade. O futuro corpo físico de Segismundo dependerá dos genes dos pais, mas, acrescente a isso a influência mental de Raquel, a atuação do próprio reencarnante, a ajuda dos espíritos construtores, que agirão como funcionários da natureza, invisíveis aos encarnados, o auxílio dos amigos que o visitarão durante a gestação, e você terá uma idéia de como será o corpo que ele vai ter, por algum tempo, para novas experiências de crescimento e recuperação. Alguns fisiologistas da Terra afirmam que a vida humana é apenas o resultado de processos biológicos, mas esquecem-se de que estes processos nada mais são que a lei de cooperação espiritual em ação. - Então, - insisti – por enquanto, Segismundo terá uma forma física indefinida para nós? - Se estivéssemos diretamente envolvidos com o seu caso, conheceríamos todos os detalhes do seu futuro, mas a nossa colaboração aqui é transitória e sem maior importância no tempo. Mas os orientadores de Segismundo, nos planos mais elevados, têm todo o programa traçado para o seu bem. Note que falo do seu bem e, não, do seu destino. Muita gente confunde programa com fatalismo. O próprio reencarnante e Herculano conhecem os detalhes deste programa, porque ninguém matricula-se numa escola, para um curso mais ou menos longo, sem um objetivo definido e sem saber as regras que deve obedecer. Depois de rápida pausa, continuou: - Os contornos anatômicos da forma física, perfeitos ou deformados, longos ou curtos, bonitos ou feios, fazem parte das regras a serem obedecidas. Em geral, a reencarnação sistemática é sempre um recurso de trabalho contra os defeitos morais já existentes nas lições e conflitos presentes. Defeitos de anatomia, circunstâncias adversas, ambientes hostis, na maioria das vezes, são os melhores meios de aprendizado e recuperação para aqueles que reencarnam. Por isso, o mapa do programa de provas úteis é elaborado com antecedência, como o caderno de anotações de um aluno qualquer numa escola comum. Em vista disso, o mapa de Segismundo está devidamente traçado, levando-se em conta a contribuição genética dos pais, o ambiente familiar e a ajuda que receberá de inúmeros amigos daqui. Imagine, portanto, que o nosso amigo está voltando a uma escola, a Terra, com o propósito de obter novas conquistas espirituais. Ora, para conseguir isso, terá de se submeter às regras da escola, renunciando, até certo ponto, à liberdade de que dispõe em nosso plano. - Mas nós não poderíamos – perguntei – chamar este programa de “destino fixo”? O instrutor respondeu, com paciência: - Não cometa o mesmo erro de muitas pessoas. Isto significaria conduta espiritual obrigatória. É claro que o espírito renasce com independência limitada e, muitas vezes, fica sujeito a certas condições mais difíceis, em virtude da necessidade educativa, mas isso, em hipótese nenhuma, anula o livre-arbítrio da criatura, no sentido de escolher entre progredir, estacionar ou piorar ainda mais sua situação. Existe um programa de tarefas positivas a serem cumpridas pelo reencarnante, onde os orientadores estabelecem a cota aproximada de conquistas suscetíveis de serem alcançadas pelo espírito durante a reencarnação. E o espírito que reencarna pode melhorar esta cota, ultrapassando a previsão anterior, pelo esforço próprio, ou ficar muito longe dela, enterrrando-se ainda mais nos compromissos com o próximo, menosprezando as grandes oportunidades que lhe foram oferecidas. A essa altura, Alexandre calou-se, talvez para avaliar quanto tempo já havíamos gasto com aquela conversa, e, como quem queria terminar o assunto, observou: - Todo programa traçado nos planos superiores tem, por objetivos principais, o bem e a elevação, e todo espírito que reencarna na Terra, mesmo aqueles que se encontram em condições aparentemente muito difíceis, sempre tem recursos para melhorar. Logo depois, ele me convidou para nos aproximarmos do casal. Alexandre disse que as horas estavam passando e precisávamos entregar o reencarnante ao feliz casal. Os construtores, por intermédio de seu dirigente, pediram a Alexandre que fizesse a prece daquele momento de confiança, e notei todos ficaram em silêncio. O instrutor já ía iniciar a oração, quando Raquel se aproximou e pediu, humilde: - Amigo querido, se possível, gostaria de receber meu novo filho de joelhos!... Alexandre concordou sorrindo e, ficando entre ela, de joelhos, e Adelino, muito comovido, em pé, como nós, começou a prece, estendendo as mãos para o alto: - Pai de Amor e Sabedoria, abençoe os filhos de sua casa terrestre que vão partilhar, neste momento, a sagrada bênção da capacidade criadora! Senhor, faça descer a sua misericórdia neste lar cheio de afeto, transformado em abrigo de reconciliação. Estamos aqui, companheiros do passado, para acompanhar o amigo que retorna à prova de humildade e compreensão das suas leis! - Ah, Pai, fortaleça-o para a longa jornada do esquecimento temporário, permita que possamos sempre manter viva a sua esperança, ajude-nos, ainda, para que possamos vencer todo mal! - Conceda a estes pais a sua luz generosa, que dissipa todas as sombras! Fortaleça-lhes, Senhor, a noção de responsabilidade, abra-lhes a porta de sua sublime confiança, conserve-os na bendita alegria de seu amor incondicional. Restaure-lhes as energias para que levem, contentes, a missão até o fim, santifique-lhes os prazeres para que não se percam entre fantasias. - Este, Senhor, é um ato de confiança na sua bondade infinita, que queremos honrar para sempre! Abençoe, pois, o nosso trabalho de amor e, acima de tudo, Pai, suplicamos as suas bênçãos para a nossa irmão Raquel, que se entrega, humilde, à divina tarefa da maternidade. Cubra-lhe o coração com sua luz paternal, intensifique-lhe a boa vontade, dilate-lhe a fé no futuro sem fim! Sejam para ela, em particular, os nossos melhores pensamentos, nossos votos de paz e esperanças mais puras! - Acima de tudo, porém, Senhor, seja feita a sua vontade em todos os recantos do Universo, e que possamos, nós, humildes criaturas do seu reino, ter sempre a alegria de louvá-lo e obedecer às suas leis sempre!... Alexandre se calou e notei que todo o cômodo se enchia de luz. Percebi que, de todos nós, desencarnados reunidos ali, partiam raios luminosos que se derramavam sobre Raquel, que chorava emocionada. Mas o fenônemo não parou aí. Assim que Alexandre terminou, alguma coisa pareceu responder à sua prece. Um suave ruído, que só nós podíamos ouvir, podia ser percebido acima de nossas cabeças. Ergui os olhos e, surpreso, vi que uma coroa muito bonita e brilhante descia sobre a cabeça de Raquel, ajoelhada, em silêncio. Tive a impressão de que a auréola era feita de turmalinas sutis, que um mestre em jóias havia tornado luminosas. A linda coroa, sustentada por espíritos muito superiores a nós, que eu não podia ver, acomodou-se na cabeça da esposa de Adelino. Apesar da emoção do momento, notei que Alexandre fez um gesto à avó de Segismundo, para que o entregasse à sua futura mãe. Raquel, dando a impressão de que não via a coroa, ergueu os olhos úmidos e recebeu o presente que Deus lhe confiava. Alexandre ajudou-a a levantar-se e vi que Adelino aproximou-se dela, abraçando-a, carinhosamente, e beijando sua testa iluminada. Foi então que a vi apertar a forma infantil de Segismundo contra o coração, com tanta força e com tanto amor, que mais parecia uma sacerdotisa da Divindade Suprema. Segismundo ligou-se a ela como a flor se une à haste. Então entendi que, a partir daquele momento, já era alma de sua alma aquele que seria carne de sua carne. Alexandre pediu a todos que saíssem, com exceção dos construtores, de Herculano e de mim, e levassem Adelino, feliz e sereno, para uma volta. Enquanto conduzia Raquel, com muito cuidado, ao corpo físico, disse: - Agora, vamos ajudar Segismundo no seu primeiro contato com a matéria mais densa. Raquel acordou sentindo-se muito feliz. Abraçou-se, instintivamente, ao marido que dormia, como o navegante que se sente contente, ao se ver em porto tranqüilo e seguro. Havia voltado ao plano físico e não guardava qualquer lembrança precisa da felicidade de momentos antes. No entanto, seu sentimento de alegria continuava intenso, suas esperanças transbordavam e uma imensa confiança no futuro preenchia seu coração. Será que ía ser mãe outra vez? – pensava, contente. Essa idéia, que não surgia por acaso, dava-lha muita paz e alegria. Estava pronta para a tarefa sagrada da maternidade, confiaria em Deus como filha de sua bondade infinita. Raquel não percebia que Alexandre e os construtores envolviam sua mente em luz, enchendo seu pensamentos de amor espiritual. Notando que a forma de Segismundo havia se ligado a ela, por maravilhoso processo de união magnética, fui orientado por Alexandre para que acompanhasse, de perto, o trabalho de auxílio na ligação definitiva de Segismundo à matéria física. Apontando o aparelho reprodutor de Raquel e projetando sobre ele a sua luz, Alexandre me preveniu sobre a grandeza do momento, acentuando, com respeito: - Aqui temos o templo sagrado da maternidade humana. Diante de seu altar, ao qual todos devemos as oportunidades de encarnação, devemos colaborar, na tarefa de amor, guardando a consciência voltada para Deus. Inclinei-me sobre o corpo de Raquel, com um sentimento de veneração que nunca havia sentido, até então. Ajudado pelos recursos magnéticos de Alexandre, passei a observar os detalhes do fenômeno da fecundação. Pelas vias naturais, íam os espermatozóides, em busca do óvulo, como se estivessem previamente preparados para uma prova eliminatória, numa velocidade de, mais ou menos, 3 mm por minuto. Surpreso, notei que eram milhões deles que seguiam, em massa, para a frente, em impulso instintivo, na sagrada competição. No silêncio daqueles minutos, percebi que Alexandre, sendo o trabalhador mais elevado ali presente, comandava os importantes serviços da primeira ligação. Segundo o que pude entender, ele podia ver as características cromossômicas de todos os espermatozóides em movimento, depois de ter examinado, atentamente, o óvulo materno, e fazia o trabalho prévio de determinação do sexo do corpo a se formar. Depois de acompanhar, completamente entretido, a marcha dos espermatozóides, identificou o mais apto, fixando nele a sua energia magnética, dando a idéia de que ajudava para que ele se livrasse dos outros competidores e fosse o primeiro a penetrar o óvulo. O espermatozóide focalizado por ele ganhou mais energia que os outros e avançou, rapidamente, em direção ao seu destino. O óvulo que, comparado ao minúsculo espermatozóide, parecia um pequeno mundo redondo cheio de açúcar, amido e proteínas, aguardando o raio de vida, sofreu uma ruptura da membrana, como pequeno barco sendo bombardeado, e endureceu, de maneira especial, fechando os minúsculos poros, como se quisesse isolar-se em si mesmo, para receber, face a face, o esperado visitante, e impedindo a invasão de qualquer outro dos concorrentes, que haviam perdido o primeiro lugar na grande prova. Sempre sob a ação energética de Alexandre, o espermatozóide vencedor seguiu adiante, depois de atravessar a periferia do óvulo, levando pouco mais de quatro minutos para alcançar o seu núcleo. As duas sementes, masculina e feminina, tornaram-se uma só, convertendo-se em suave foco de luz. Alexandre, absolutamente concentrado no trabalho, tocou a pequena forma com a mão, comandando o processo de divisão da cromatina, cujas particularidades eu ainda não podia entender, como se fosse um cirurgião seguro de si em sua técnica. Em seguida, o instrutor encaixou a forma infantil de Segismundo, interpenetrado no perispírito de Raquel, naquela minúscula bola de luz, cheia de vida, e notei que a vida começou a existir. Havia passado 15 minutos desde que o espermatozóide penetrou o óvulo. Depois de intensa operação magnética, que era sustentada pelos construtores, Alexandre aproximou-se de mim e falou: - A operação inicial de ligação está terminada. Que Deus nos proteja. Percebendo com que admiração eu acompanhava o processo de divisão celular, pelo qual rapidamente se formava a vesícula germinal (6), o instrutor disse: - O corpo da mãe fornecerá todo o alimento para a estruturação física do feto, enquanto a forma perispiritual de Segismundo funcionará como modelo, dando forma ao seu futuro corpo. Estava muito impressionado com o que via. E, percebendo que a redução do perispírito de Segismundo era algo espantoso para mim, acrescentou: - Não se esqueça, André, de que reencarnação significa recomeço ou retificação nos processos evolutivos. Lembre-se de que os organismos mais perfeitos da Terra se originam, inicialmente, de uma ameba. Ora, recomeço quer dizer “recapitulação” ou “volta ao começo”. Por isso mesmo, em seu desenvolvimento embrionário, o futuro corpo de um ser humano não pode ser diferente do processo de formação do réptil ou do pássaro. O que faz a diferença na forma é apenas o grau evolutivo, contido no molde do perispírito do ser que reencarna. Assim, ao regressar à matéria física, como acontece com Segismundo, é preciso recapitular todas as experiências vividas no longo processo de aperfeiçoamento, ainda que por alguns dias ou horas apenas, repetindo, rapidamente, todas as etapas vencidas e as lições adquiridas, parando no ponto de onde deve prosseguir no aprendizado. Logo depois da ameba microscópica, surgirão, no feto de Segismundo, as características aquáticas de nossa evolução e, sucessivamente, todos os períodos de transição ou progresso que a criatura já ultrapassou na jornada contínua até o estágio em que nos encontramos agora, como seres humanos. Já era muito tarde. Sentindo que Alexandre não demoraria muito, aproximei-me do feto, mais uma vez. O óvulo fecundado estava cheio de vida, caminhando para a vesícula germinal. Alexandre me convidou para irmos embora e falou: - Meu trabalho está terminado. No entanto, André, considerando as suas necessidades de novos conhecimentos, posso pedir aos construtores que permitam a sua colaboração nos serviços de proteção, sempre que você tiver oportunidade de vir até aqui. Fiquei imensamente feliz. De fato, não queria outra coisa. Aquele estudo de embriologia, de outro ponto de vista, era fascinante e maravilhoso. Enquanto aproveitava a minha alegria, o intrutor tomava as providências para que eu pudesse colaborar e aprender, ao mesmo tempo, ouvindo os companheiros. Logo depois, quando nos despedíamos, Herculano, muito simpático e gentil, disse que ficaria à minha espera, sempre que eu pudesse voltar à casa de Adelino, para ajudar nos trabalhos de proteção. Notas: (1) questões biogenéticas – questões que se referem à gênese da vida, ou seja, à origem e formação da vida. (2) útero – órgão muscular oco do aparelho genital feminino, localizado entre a bexiga e o reto, de parede espessa, responsável por acolher e abrigar o óvulo fecundado, durante seu desenvolvimento, expulsando-o no fim gestação. (3) genes – unidades fundamentais, físicas e funcionais da hereditariedade, que trazem informações específicas para controlar cada uma das mínimas características de um ser humano. (4) timo – glândula de formato piramidal, localizada entre os pulmões, o coração e a traquéia, responsável pela produção complementar de anticorpos para o sistema imunológico. Produz também a timosina, substância responsável pelo amadurecimento de células linfáticas, e a timina, que atua na junção de músculos e nervos, tendo, portanto, atuação sobre os estímulos neurais e periféricos. É muito importante para os recém-nascidos, que ainda não têm os nodos linfáticos e o baço suficientemente maduros para atuar na defesa imunológica. (5) plasma – líqüido amarelado, composto principalmente por água, cuja função é carregar, em suspensão, os elementos do sangue, tais como glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas e outras substâncias importantes na manutenção da pressão sangüínea, no processo de coagulação e na defesa imunológica. (6) vesícula germinal – um dos estágios do desenvolvimento embrionário.