------------------------------------- MISSIONÁRIOS DA LUZ LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 16 INCORPORAÇÃO Continuando meus estudos sobre os vários fenômenos mediúnicos, sempre que possível voltava à Terra, para aprender e ajudar no grupo do qual Alexandre era o dirigente. Mas, em função dos meus compromissos em Nosso Lar, não ia com muita freqüência e, por isso, aproveitava as menores oportunidades para aumentar meus conhecimentos. Numa das reuniões a que compareci, um dos trabalhadores espirituais aproximou-se de Alexandre e pediu: - Os encarnados têm pedido sempre pela presença de Dionísio Fernandes, atualmente vivendo numa instituição de socorro, como você sabe. Dizem que a família está inconsolável, que a visita dele seria muito oportuna e que seria interessante ouvir um antigo colega de trabalho... Enquanto Alexandre ouvia em silêncio, o simpático trabalhador continuou, depois de ligeira pausa: - Gostaríamos muito de ter autorização para atendê-los... Ele poderia incorporar em Otávia e apresentar-se, de algum modo, aos amigos e parentes... Alexandre pensou um pouco e respondeu: - Não tenho nada contra o seu projeto, Euclides. No entanto, embora o grupo seja composto de grandes amigos encarnados, não creio que estejam preparados para aproveitar completamente uma experiência como esta. Quase todos têm investigação e raciocínio demais, e sentimento e compreensão de menos. Colocam a pesquisa muito acima do entendimento e, como você sabe, os médiuns não são filtros mecânicos... Além disso, Dionísio está no plano espiritual há pouco tempo e ainda não pôde nem mesmo sair da instituição que o recebeu. Se somarmos a isso a intranqüilidade da família, que pouco se lembra da fé, a diferença de vibrações do novo plano a que o nosso amigo está se adaptando, a profunda emoção que sentiria nesta aproximação prematura, a instabilidade natural da médium, você concordará que o projeto não é muito oportuno. Euclides, como porta-voz do grupo, não desanimou e insistiu: - Entendo o que quer dizer. Concordo que o objetivo desejado não será alcançado, mas, insisto no pedido. Ainda que tudo não passe de mera experiêncica... É que temos alguns companheiros muito esforçados no trabalho diário pelo próximo, aos quais muito devemos aqui, e ficaríamos muito felizes em dar-lhes esta prova de reconhecimento e carinho... Alexandre sorriu com a generosidade de sempre e comentou: - Só tenho motivos para endossar seu pedido. E já que você insiste no projeto de atender estes amigos que também se sentem em dívida com você, avise-os que Dionísio virá. Vou cuidar pessoalmente de trazê-lo. E como Euclides manifestou profunda gratidão e alegria, Alexandre encerrou a conversa dizendo: - Prometa a visita para amanhã. É muito mais fácil doar com alegria que receber com discernimento. Afastamo-nos. E como eu o interroguei sobre o processo da incorporação, o instrutor explicou com boa vontade: - Mediunicamente falando, as providências são as mesmas adotadas nos casos de psicografia comum, com a diferença de que precisaremos proteger, com mais atenção, o centro da linguagem na zona motora, projetando nossos recursos energéticos sobre todos os músculos da fala, localizados ao longo da boca, garganta, laringe, tórax e abdome. Respondendo às minhas perguntas, Alexandre deu vários esclarecimentos de ordem ética, comentando as dificuldades para difundir os valores do verdadeiro consolo, em função das exigências absurdas da pesquisa intelectual. Admirava sua sabedoria profunda e grande compreensão das fraquezas humanas, quando chegamos à instituição de socorro onde estava Dionísio, em plena zona mais densa, não muito longe da crosta. Depois de conversar com os encarregados locais, responsáveis pelos serviços de luz em regiões como aquela, levou-me ao encontro de Dionísio, ainda sob forte agitação, em função do recém desencarne. - Dionísio, – falou Alexandre, sereno, depois de cumprimentá-lo – lembra-se do nosso grupo de estudos espiritualistas? - Como não? E com que saudades! – suspirou o outro. - Nossos amigos pedem a sua presença, pelo menos por alguns minutos, – disse o instrutor – e decidi levá-lo até lá, para que fale, não só com eles, mas também com os parentes... - Que alegria! – disse Dionísio, quase chorando de felicidade. - Mas ouça bem, meu amigo! – continuou Alexandre, sereno e firme – É indispensável que você pense bastante. Lembre-se de que irá utilizar um aparelho neuromuscular que não lhe pertence. Otávia será a médium, no entanto você sabe das dificuldades de um médium para satisfazer particularidades técnicas que permitam identificar o comunicante, frente as exigências dos encarnados, certo? - Sim, - respondeu Dionísio, um tanto decepcionado – agora estou no mundo da verdade e não posso faltar com ela. Lembro-me de que muitas vezes recebi comunicações do plano espiritual, através de Otávia, sempre com muitas dúvidas, e era comum achar que não passavam de mistificações. Alexandre, muito calmo, comentou: - Pois é, agora chegou a sua vez de tentar. E se, antes, era tão fácil duvidar dos outros, perdoe agora a fraqueza dos encarnados, caso duvidem de seu esforço. Pode ser que não tenhamos sucesso, mas nossos amigos insistem na sua visita e não podemos impedir a experiência. Antes que Dionísio pudesse pensar qualquer outra coisa, Alexandre concluiu: - Pense bem sobre o assunto, peça a ajuda divina em suas preces e me aguarde. Nós o levaremos à casa da médium, com algumas horas de antecedência, para que o processo de harmonização possa ser mais fácil. Em seguida, nos despedimos, com muitos agradecimentos de Dionísio. O caso me interessava muito. Por isso, pedi a Alexandre para acompanhá-lo mais de perto. Recebendo autorização, fui com ele, no dia seguinte, à instituição onde vivia Dionísio, para ajudá-lo na visita programada. Com a gentileza de sempre, Alexandre nos levou à casa da médium Otávia, onde Euclides, o assistente que encontramos no dia anterior, nos esperava, cheio de cuidados. O instrutor despediu-se, deixando-me com os novos amigos, e disse: - A reunião do encarnados está marcada para as 20h. No entanto, entre 18h e 19h volto para levá-los ao local do trabalho. E, olhando-me, concluiu: - Aproveite o contato com Euclides, André. Um bom trabalhador sempre tem algo de bom a ensinar. Euclides, sorrindo, agradeceu emocionado, e levou-nos para dentro da casa, enquanto Alexandre saía em outra direção. Paramos em cômodo simples. - Aqui, - disse Euclides – Otávia costuma fazer suas meditações e preces. Por isso, a atmosfera aqui é muito agradável, leve e tranqüilizadora. Fiquem à vontade. Como hoje é dia de reunião mediúnica, ela vai terminar mais cedo o jantar, para poder preparar-se. Olhei o relógio na parede, que marcava 16h, e quis ver a médium que atuaria como intermediária entre os dois planos naquela noite. Deixamos Dionísio, e Euclides levou-me a uma pequena cozinha, onde uma mulher idosa preparava refeição trivial. Tudo muito limpo e em ordem. Mas notei que algo a incomodava, deixando-a pálida e abatida... Diante de minhas perguntas, Euclides explicou: - Otávia é uma ótima trabalhadora, mas, em função das provas por que precisa passar, está unida a um homem ignorante e quase cruel. Enquanto ele está fora, trabalhando, a casa fica tranqüila, uma vez que ela não permite a sintonia com entidades perturbadas. No entanto, quando Leonardo volta para casa, a situação muda, porque o pobre marido é um verdadeiro canteiro de espinhos no jardim de sua própria casa. Está sempre acompanhado de entidades perigosas das zonas mais densas. - Ele não simpatiza com a missão espiritual da esposa? – perguntei, interessado. - Não, de jeito algum. – disse Euclides – Não é nenhum novato no assunto, mas é teimoso com os próprios erros. Permite que a esposa trabalhe conosco, em função da insistência de parentes dele, dedicados à nossa causa, que, inspirados por nós, não permitem que a afaste. Mas o trabalho não é muito fácil, porque, se de um lado Otávia sintoniza-se facilmente com os espíritos de luz, de outro, o marido entrega-se passivamente às entidades das trevas. Às vezes, basta fazermos alguns planos com a colaboração dela, para que ele, cedendo a essas entidades, perturbe nosso trabalho, criando grandes dificuldades. Percebendo que o abatimento da médium era claro para mim, Euclides acrescentou: - Assim que avisei, ontem, sobre a vinda de Dionísio, querendo incentivar os amigos encarnados, contando com a ajuda da médium, o marido teve suas condições psíquicas pioradas. Leonardo amanheceu hoje mais nervoso que de costume, embebedou-se antes do almoço, atacou a esposa, chegando mesmo a agredi-la fisicamente. Assustada, Otávia sofreu um choque profundo que lhe atingiu o fígado, e está, no momento, sob forte desarranjo gastrintestinal. Com isso, não pôde se alimentar bem durante o dia e não conseguiu manter a harmonia mental necessária ao nosso projeto. Ainda está muito fraca, mas se não fossem os vários recursos de assistência que lhe trouxe para melhorar o seu padrão vibratório, inclusive a transfusão energética de enfermeiros espirituais experientes, ela agora estaria de cama. Meio decepcionado, Euclides falou, depois de rápida pausa: - Como você sabe, harmonia não é algo que se possa improvisar. E se nós, os desencarnados que nos dedicamos ao bem, estamos sempre lutando pela própria iluminação, os médiuns, como seres encarnados, estão sempre suscetíveis às perturbações e desequilíbrios do plano físico... - E não temos alguém para substituí-la? – perguntei, impressionado. – Não temos alguém que possa ocupar o seu lugar? - Você não acha que ela deveria ser mais feliz para ser mais útil? – perguntei. - Quem sabe? – respondeu Euclides, reticente. – A mediunidade de tarefa pode conviver, perfeitamente, com o bem-estar e, a rigor, todas as pessoas que desfrutam de relativa tranqüilidade material, poderiam aproveitar ótimas oportunidades de serviço e crescimento. No entanto, os encarnados, quando favorecidos pelo conforto material, acomodam-se apenas naquilo que diz respeito às próprias necessidades individuais e, como cumprir as obrigações já é um grande sacrifício, raramente vão além delas, em busca do trabalho de luz em benefício de outros. Mas a luta constante amplia os horizontes íntimos. O sofrimento, quando aceito por fé, é uma fonte de muita elevação. Nesse momento, Euclides sorriu e falou: - Não estou dizendo que a mediunidade de tarefa precise vir acompanhada de sofrimento. Não é isso. Os trabalhos da espiritualidade superior estão ao alcance de todos. O que estou dizendo é que expressamos melhor nossa convicção quando aproveitamos os obstáculos para elevar a consciência. Otávia terminou o jantar e, antes que o marido voltasse para casa, foi para o quarto onde, como havia dito Euclides, costumava fazer sua preparação. Entramos no quarto também. Euclides colocou Dionísio ao lado dela e, enquanto a médium se concentrava em oração, ele aplicava-lhe passes para fortalecer os nervos, transmitindo grandes porções de energia, não só às fibras nervosas, mas também às células gliais (1). Otávia pedia a Jesus bastante força para a tarefa, comovendo-nos muito com sua prece, simples e sincera. Pensou na promessa que os amigos espirituais haviam feito no dia anterior, sobre a visita de Dionísio, recém-desencarnado. Tentava colocar-se à disposição, isolando a mente das contrariedades materiais. Aos poucos, sob a influência de Euclides, formou-se um laço fluídico, ligando a médium ao comunicante. Em seguida, recomendou a Dionísio que falasse com Otávia, com toda sua capacidade de concentração, preparando o ambiente para o trabalho da noite. Dionísio começou a falar de suas necesssidades espirituais, comentando a esperança de se apresentar à família e aos antigos colegas de trabalho, e eu notei que Otávia registrava sua presença e as palavras sob a forma de cenas e lembranças, aparentemente imaginárias. Notei também a distância vibratória que nos separa dos encarnados, uma vez que, mesmo ali, junto a uma médium treinada, precisávamos começar o trabalho de comunicação como se estivéssemos muito longe, vencendo, aos poucos, a resistência das camadas mais densas. O diálogo durou um bom tempo, sempre orientado de perto por Euclides, e admito que, ao fim daquela interessante conversa, Otávia parecia mais sintonizada com o trabalho, registrando, com clareza, o que Dionísio pretendia fazer. Tudo ía bem e não me cansava de admirar aquele serviço imprevisto de preparação mediúnica, quando algo muito sério aconteceu. Leonardo chegou, interrompendo, de maneira violenta, a tranqüilidade das vibrações que nos envolviam. Gritando, logo na entrada, obrigou a esposa a se levantar, de repente, como um tirano insensível. Algumas entidades perturbadas o acompanhavam. Otávia serviu o jantar, fazendo imenso esforço para manter a paciência. Quando terminaram a refeição, ao lado dos dois filhos, a mulher disse ao marido, em particular: - Leonardo, como você sabe, hoje tenho reunião e preciso sair antes das oito. - Quê?! – gritou ele, encharcado de vinho, remexendo o bigode grisalho – A senhora não pode sair hoje! Nada de sessões! Hoje não! Impressionado com aquela atitude intempestiva, perguntei a Euclides, que, muito calmo, acompanhava a cena: - E agora? - Eu já imaginava que isso pudesse acontecer – respondeu, triste – e pedi a uma de nossas companheiras que trouxesse uma tia do agitado Leonardo até aqui, para nos ajudar. Elas não devem demorar. Com ela, ele se rende, sem esforço. Realmente, enquanto Otávia enxugava as lágrimas, em silêncio, limpando a mesa, alguém bateu palmas na entrada. Leonardo foi atender e, em seguida, uma desencarnada, muito simpática, entrava na casa, acompanhando uma senhora idosa, de rosto risonho e agradável. A assistente de Euclides aproximou-se e nos cumprimentou. Muito surpreso, diante de tantos cuidados para a organização de um pequeno trabalho de comunicação, concentrei-me na conversa dos encarnados: - Ainda bem que o dia terminou. – disse a senhora para a médium, depois de cumprimentá-la. – Vim até aqui para irmos juntas. Otávia tentou esconder sua mágoa, sorriu com esforço e respondeu: - Ah, Georgina, hoje não posso... Leonardo não está passando muito bem e quer se deitar mais cedo. - Já sei, já sei... – disse a visitante, com carinho e firmesa, olhando o sobrinho. – Otávia, você tem compromisso e não pode faltar. Em seguida, levantou-se, bateu no ombro de Leonardo, que se esticava no sofá, e disse, sem vacilar: - Filho, não posso impedir que você se esbalde em prazeres e continue adiando seu crescimento espiritual, por irresponsabilidade e preguiça, mas quero adverti-lo sobre os compromissos de sua mulher em nosso grupo, pedindo que não a impeça de fazer seu trabalho. Otávia é uma esposa exemplar, tem agüentado seu mau humor a vida toda e já criou seus dois filhos, com cuidado e carinho. Não queira impedi-la agora de cumprir seu dever. Eu poderia me voltar contra você, induzindo-a a desobedecê-lo, mas prefiro alertá-lo de que sua atitude contra o bem não passará em branco. Notei que as palavras da mulher eram emitidas com grandes jatos de energia, que envolviam Leonardo, obrigando-o a rever o assunto. Ele pensou, por alguns minutos, e respondeu, vencido: - Otávia pode ir, quando quiser, desde que seja com você. A senhora agradeceu, incentivando-o a estudar a espiritualidade, e, quando elas já estavam de saída, Alexandre chegou, para nos acompanhar. Notei que o instrutor percebeu, de relance, o estado de abatimento da médium, registrando as dificuldades que se apresentavam à prometida comunicação de Dionísio, mas, longe de se abater, ele é que se mostrava otimista, estimulando o entusiasmo de Euclides no serviço do bem. Chegamos ao grande salão da instituição às 19:45h. Como sempre, havia muitos trabalhadores espirituais desempenhando funções de assistência, preparação e vigilância. Enquanto alguns encarnados ansiosos, a esposa e os filhos do comunicante aguardavam a sua mensagem, nós fazíamos todo o possível para melhorar a receptividade da médium. Como de outras vezes, Alexandre dava o exemplo da colaboração sadia. Pediu que alguns trabalhadores cuidassem do sistema endócrino e atuassem na normalização imediata do fígado, a fim de que houvesse algum equilíbrio nas funções gastrintestinais, para que a médium estivesse em razoável harmonia, atendendo às necessidades do momento. Às 20h, com o encarnados reunidos, foram iniciados os trabalhos, com a prece emocionante do dirigente da casa. Aproveitando os recursos energéticos que lhe foram transmitidos, a médium já se sentia bem melhor. Mais uma vez observava o fenômeno luminoso da pineal e acompanhava o grande trabalho de Alexandre na técnica de preparação mediúnica, notando que ali o instrutor dava mais atenção às células do cótex cerebral, ao centro da linguagem e às estruturas responsáveis pela fala. Quando a prece terminou, o ambiente já estava equilibrado, com a ajuda de vários trabalhadores do nosso plano. Otávia, foi, então, parcialmente afastada do corpo físico, para que Dionísio se aproximasse e começasse a usar parte do organismo da médium. Otávia estava a alguma distância, mas mantinha a capacidade e a liberdade de voltar ao corpo a qualquer momento, com alguma consciência do que acontecia, enquanto Dionísio falava, utilizando recursos que não lhe pertenciam e que deveria usar com muito cuidado, sob o controle direto da proprietária e a vigilância firme de amigos e instrutores que o acompanhavam com o olhar, de modo a mantê-lo em bom equilíbrio emocional. Notei que o processo de incorporação comum era muito parecido com um enxerto de árvore. A planta hospedada revela suas características e frutos particulares, mas a árvore que a recebe não perde suas qualidades e segue trabalhando em seu próprio funcionamento. Dionísio era um elemento que aderia às faculdades de Otávia, usando-as para a expressão que lhe era característica, mas naturalmente subordinado à médium, sem cuja força mental e receptividade ele não poderia se apresentar aos encarnados. Por isso, é lógico que não se podia evitar completamente a influência de Otávia. O corpo físico era seu templo, que ela precisava defender contra qualquer perturbação, e nenhum de nós, desencarnados, tinha o direito de exigir que se afastasse mais, já que era sua obrigação cuidar de suas estruturas fisiológicas e preservá-las contra o mal, com ou sem a nossa assistência. Mas a nossa atmosfera equilibrada não conseguia acalmar os encarnados ansiosos. Entre nós, havia equilíbrio, disciplina, autocontrole, mas, entre eles, prevaleciam o desequilíbrio e a agitação. Queriam que Dionísio se manifestasse como homem pela boca de Otávia, mas nós o apresentávamos como espírito, nas expressões da médium. A família encarnada esperava o pai emocionado e ainda sujeito às paixões inferiores, mas nós o ajudávamos para que se mantivesse calmo e equilibrado, em benefício dos próprios familiares. O comunicante falava, profundamente emocionado, enquanto Alexandre e Euclides, cuidando dele e da médium, respectivamente, vigiavam suas atitudes e palavras, para que se ocupasse apenas dos assuntos relativos à elevação de todos, responsabilizando-o por todas as imagens nocivas que suas palavras criassem no cérebro e no coração dos presentes. Em vista disso, em todos os aspectos, Dionísio apresentou-se com dignidade espiritual, fazendo, no entanto, grande esforço de disciplina interior para não comentar certos acontecimentos familiares e evitar as lágrimas. Depois de falar por quase 40 minutos, dirigindo-se à família e aos colegas encarnados, Dionísio despediu-se com comovente oração que Alexandre ditou-lhe ao ouvido. Nosso trabalho havia transcorrido em perfeita harmonia. O comunicante deu as indicações possíveis para a identificação pessoal, mas o pequeno grupo de encarnados não recebeu a mensagem como seria de se esperar. Logo depois do encerramento, começaram os comentários e notava-se que a maioria não aceitava a autenticidade da manifestação. Só a esposa de Dionísio e alguns poucos amigos foram capazes de sentir, de fato, sua presença viva. Seus próprios filhos preferiram permanecer em atitude de dúvida e negação. Questionado por um dos amigos presentes, o mais velho respondeu: - Impossível. Não pode ser meu pai. Se fosse ele, teria comentado a nossa difícil situação familiar, com certeza... O outro filho comentou, com ironia: - Não acredito na manifestação. Se fosse o papai, teria respondido às minhas questões íntimas. Será que no outro mundo os pais não se lembram mais do carinho que devem aos filhos? Num grupo que conversava num dos cantos da sala, começou a maledicência. Só a viúva e outros três colegas ficaram ao lado da médium, incentivando-a com palavras e pensamentos de compreensão e alegria. Ao lado dos filhos, que faziam comentários maliciosos, um dos companheiros, cheio de ciência, afirmava, sério: - Não podemos aceitar a suposta manifestação de Dionísio. Otávia sabe de todos os detalhes de sua vida passada, está sempre em contato com a família, e o comunicante não ofereceu qualquer sinal particular, que nos permitisse identificá-lo. E, depois de jogar as cinzas do cigarrro num cinzeiro próximo, acrescentou, maldoso: - A mediunidade é uma questão muito séria na doutrina. O animismo é uma erva daninha que aparece em todo canto. Nosso contato com o plano espiritual está cheio de tristes enganos. Um dos rapazes presentes arregalou os olhos e perguntou, de repente: - Mas o senhor acha que D. Otávia seria capaz de nos enganar? - Conscientemente, não, – disse o outro, com um sorriso superior – mas inconscientemente, sim. A maioria dos médiuns é vítima de suas próprias ilusões emotivas. Os comunicantes, em geral, são apenas criações mentais dos médiuns. Tenho estudado profundamente o assunto, para não tirar conclusões absurdas, como acontece com muitos. Temos que fugir do ridículo, meus amigos. Ainda sorrindo, sarcástico e arrogante, disse: - As cenas que emergem do subconsciente nas hipnoses profundas são capazes de confundir até os mais atentos pesquisadores. E, como se o palavreado difícil e as referências sofisticadas fossem a solução final para o assunto, disse, enfático: - A fim de corrigir os exageros da imaginação no Espiritismo, foi criada a Metapsíquica para nortear nossas pesquisas, e não podemos esquecer que o próprio Richet morreu duvidando. Nem as décadas de estudo sistemático foram capazes de convencê-lo. E as materializações também não lhe deram a certeza da sobrevivência. Portanto... O pequeno grupo o escutava, como se ouvisse um profeta infalível. Em outro ponto da sala, o mesmo assunto era comentado, discretamente. - Não acredito na autenticidade da manifestação – dizia, em voz baixa, uma jovem, falando com o marido e as amigas. – Afinal de contas, a mensagem só tratou de banalidades... Nada de novo. Para mim, as palavras são da própria Otávia. Não senti qualquer sinal mais evidente de que se tratava do nosso amigo. O plano espiritual seria muito monótono se só nos proporcionasse o que o suposto Dionísio nos trouxe. - Talvez tenha havido alguma perturbação – disse o marido. – Não estamos livres dos mistificadores invisíveis... O grupo disfarçava o riso solto. Nunca senti tanta decepção como naqueles momentos em que observava o processso de incorporação mediúnica. Ninguém ali pensava nas dificuldades com que Euclides teve que lidar para trazer a eles o conforto daquela noite. Ninguém considerava os problemas que a própria médium teve que enfrentar para poder servir, com amor, à causa do bem. Os encarnados sentiam-se credores de tudo. Na opinião deles, os amigos espirituais não passavam de meros empregados dos seus caprichos, vindo do outro mundo apenas para atender ao seu anseio por novidades. Com raríssimas exceções, ninguém pensou no consolo, no crescimento, no aproveitamento positivo da experiência. Em vez de agradecimento e observação sadia, cultivavam a desconfiança e a maledicência. Alexandre percebeu que Euclides acompanhava a cena com profunda decepção, agravada pelo alerta do dia anterior, mas, sempre gentil e carinhoso, recomendou-lhe que se afastasse, deixando aos seus cuidados o comunicante, que deveria voltar, o mais rápido possível, para a sua intituição. Alexandre, então, aproximou-se de mim e, percebendo minha surpresa, falou: - Não se admire tanto, André. Os encarnados sofrem de complicadas limitações. Fez um gesto de confiança e, sorrindo, acrescentou: - Além disso, como você pode ver, a maioria tem o cérebro inchado e o coração atrofiado. Nossos amigos da Terra, geralmente, criticam demais e sentem de menos; gostam de ser compreendidos, mas raramente se dispõem a compreender os outros... Mas o trabalho é um presente divino e devemos confiar no Pai, trabalhando sempre para o melhor. Em seguida, deu algumas instruções aos companheiros que ficariam na casa trabalhando e falou: - Vamos. Ao sairmos, junto à porta, um senhor dizia ao dirigente da casa: - Todos temos o direito de duvidar. Não ouvi a resposta, mas Alexandre comentou, como um pai otimista e generoso: - Quase todos os encarnados que se beneficiam do nosso contato se sentem no direito de dividar. É muito raro aparecer alguém que se sinta na obrigação de ajudar.