------------------------------------- MISSIONÁRIOS DA LUZ LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 17 DOUTRINAÇÃO Terminava uma das reuniões regulares de estudos, quando uma senhora muito simpática se aproximou de nós, cumprimentando Alexandre, que a recebeu com alegria. Tratava-se de uma mãe carinhosa, que expôs, sem rodeios, o que a preocupava tanto, pedindo a ajuda do instrutor, logo após as primeiras palavras: - Ah, meu amigo, estou até hoje lutando pelo pobre Marinho. Apesar dos meus esforços, o infeliz continua preso a forças sombrias. Entretanto, com as esperanças renovadas, venho pedir-lhe ajuda para auxiliá-lo! - Uma nova doutrinação? – perguntou Alexandre, atencioso. - Sim – disse a mãe angustiada, enxugando os olhos -, já recorri a vários outros amigos que participam dos trabalhos espirituais, onde sei que você atua como orientador, e todos estão dispostos a me ajudar. - Você vê em Marinho sinais claros de transformação? – perguntou Alexandre. Ela respondeu que sim com a cabeça, e prosseguiu: - Há mais de dez anos procuro convencê-lo a deixar essa vida, influenciando-o indiretamente. Já o conduzi a situações de esclarecimento mais de uma vez sem resultado, como você sabe. Mas agora vejo nele nova disposição. Já não se sente tão entusiasmado com as sugestões negativas das entidades que o acompanham. Sente um tédio profundo com o próprio desequilíbrio e, muitas vezes, tenho tido a alegria de levá-lo à prece, embora sem conseguir fazê-lo sair do estado de rebeldia. A senhora fez uma pausa ligeira e continuou, em tom de súplica: - Quem sabe não chegou o seu momento de luz interior? Venho sofrendo muito por ele e é possível que Deus me conceda a graça de trazê-lo de volta ao caminho do bem... Para isso, estou investindo meus sentimentos mais puros. Em seguida, olhando o instrutor com estranho brilho, implorou: - Ah, Alexandre, conto com seu apoio! Preciso trabalhar por Marinho, por quem me sinto culpada, até certo ponto. E confesso, meu amigo, que tenho me sentido cansada, em profunda exaustão espiritual. - Compreendo – respondeu Alexandre, emocionado. - A luta para ajudar um ente querido preso às sombras pode esgotar qualquer um de nós. Mas tenha calma. Se Marinho anda entediado com os companheiros de desequilíbrio, então vai ser fácil ajudá-lo, recoloncando-o no caminho da luz. Se não fosse assim, não me abalaria para auxiliá-lo. Confie em nosso trabalho e vamos fazer por ele o que estiver ao nosso alcance. Os preparativos já estão prontos? - Sim – respondeu a senhora -, alguns amigos me ajudarão a trazê-lo, enquanto outros se encarregarão de ajudar Otávia, encaminhando o assunto no grupo. - Muito bem – concluiu Alexandre -. Na noite marcada, estarei presente, atuando em seu favor, no que me seja possível. Depois de gestos de profunda gratidão, estávamos novamente a sós. - Por que a doutrinação com os encarnados? – perguntei. – Isso é regra nos trabalhos desse tipo? - Não – explicou Alexandre -, não é indispensável. Temos vários grupos de desencarnados exclusivamente dedicados a esse tipo de assistência. As atividades de regeneração de nossa colônia estão cheias de institutos que se dedicam à assistência àqueles que se encontram em desequilíbrio. Os postos de socorro e as organizações de emergência, nos vários departamentos de nosso plano, contam com avançados núcleos de serviço do mesmo tipo. Mas, em alguns casos, a contribuição da energia humana pode influir de forma mais intensa, em benefício daqueles que se encontram presos às sensações da Crosta. Mesmo assim, a ajuda dos encarnados, embora seja louvável, não é fator imprescindível. No entanto, quando é possível e útil, valemo-nos desse recurso, não só para facilitar a obtenção do que pretendemos, mas também para proporcionar aos encarnados ensinamentos vivos, despertando-os para a espiritualidade. Alexandre deu um sorriso e continuou: - Ajudando as entidades em desequilíbrio, ajudarão a si mesmos; doutrinando, acabarão doutrinados. Satisfeito com a explicação, passei a pensar no caso da senhora que nos havia visitado. Por que um espírito de luz como ela permanecia trabalhando continuamente por alguém que se sentia bem nas sombras? Seria justo que mães ficassem presas a filhos negligentes? Alexandre, no entanto, explicou: - A mãe dedicada que nos visitou é alguém que se debate após a morte física. - Por quem ela está pedindo? – perguntei. - Por um filho que foi religioso na Terra. - Religioso? – perguntei, surpreso. - Sim – respondeu Alexandre. – O desequilíbrio de espíritos que receberam tarefas religiosas é sempre mais grave. Existem padres que, contrariando todas as nossas expectativas, se entregam totalmente ao sentido literal dos ensinamentos religiosos. Recebem os títulos sacerdotais como os médicos sem amor pelo ato de curar, ou como os advogados que não dão qualquer valor ao direito. Preocupam-se apenas com os interesses imediatos, usam as honrarias humanas e, quando desencarnam, vêem-se frente a um grande fracasso da consciência. Mas, como estão acostumados ao incenso dos altares e à submissão das pessoas, na maioria das vezes não percebem a própria situação e preferem fechar-se na revolta que os converte em seres das sombras. Nesse aspecto, é preciso reconhecer que esta é a condição de muitos homens e mulheres deste lado da vida, com grande cultura terrena e dotados de muita inteligência, mas desviados do próprio caminho de iluminação. É comum as pessoas mais sensíveis e cultas criarem o seu próprio mundo e depois acharem que podem se furtar ao testemunho das próprias virtudes. Acostumadas às facilidades e vantagens da Terra, pensam que podem resolver os problemas espirituais pelo mesmo processo, mas encontram apenas a Lei que manda dar a cada um segundo suas obras e agravam a própria situação, entregando-se ao desespero, em que encontram companhias afins. Entre os espíritos nessa situação, destaca-se a elevada percentagem de ministros de várias religiões. E falando apenas dos cristãos, notamos que a maioria nem pensa em se inspirar no exemplo de Jesus. Fecham os olhos e ouvidos à história dos apóstolos. Pedro, João Evangelista, Paulo de Tarso são figuras muito distantes para eles. Apegam-se apenas às convenções, estudam apenas os livros eclesiásticos e querem resolver todas as questões da alma humana com programas absurdos de domínio pelo culto exterior. Erguem basílicas suntuosas, esquecendo-se do templo vivo do próprio espírito; homenageiam Deus como os orgulhosos romanos reverenciavam a estátua de Júpiter, tentando subornar o poder celeste com a grandeza material das oferendas. Mas esquecem o coração humano, menosprezam o sentimento de humanidade, ignoram as aflições do povo, a quem servem. E, cegos aos próprios desvios, ainda esperam um céu fantástico que valide sua vaidade criminosa e sua ociosidade cruel. A essa altura, Alexandre, como que atraído por pensamentos mais profundos, fez silêncio por alguns momentos e continuou em seguida: - Para estes, André, a morte do corpo é um acontecimento terrível. Alguns enfrentam, com coragem, a desilusão necessária e proveitosa. Mas a maioria, fugindo do doloroso processo de readaptação à realidade, deixa-se levar pelo inconformismo arrogante, organizando perigosos grupos de almas rebeldes, com os quais nós temos que lutar... Quase todas as escolas religiosas falam do inferno de penas angustiantes e terríveis, onde os condenados passam por sofrimentos eternos. Poucas, no entanto, ensinam a verdade da queda consciencial dentro de nós mesmos, esclarecendo que o inferno e o diabo começam no interior de nossas próprias almas. O orientador fez nova pausa e, depois de pensar um pouco, comentou: - Veja... Aqueles que caem por ignorância aceitam, com alegria, a correção, desde que mantenham boa vontade sincera. Mas aqueles que se entregam ao desequilíbrio, inspirados pelo orgulho, têm grande dificuldade de aceitar a própria correção. Precisam trabalhar melhor a humildade, antes de começar a restauração necessária. Percebendo que Alexandre fazia nova pausa, perguntei: - Mas se, neste caso, o erro voluntário é do religioso, qual a razão do envolvimento pessoal de sua mãe? Alexandre não hesitou. - Em nosso plano, há renúncias sublimes, nas quais alguns companheiros se sacrificam por outros, durante muitos anos; mas, no caso em questão, a nossa amiga tem também a sua parcela de culpa. Como mãe, ela desviou as tendências do filho jovem. Na verdade, ele reencarnou para uma tarefa importante na área da filosofia espiritualista, mas não estava preparado para conduzir almas. A mãe, no entanto, obrigou-o a entrar para o seminário, contrariando-lhe o ideal e, indiretamente, colaborou para que o seu orgulho fosse exacerbado. Interpretando suas tendências filosóficas como vocação para o sacerdócio, obrigou-o a vestir o hábito dos jesuítas, que ele usou cheio de vaidade. Claro que nossa companheira tinha as melhores intenções. No entanto, sente-se na obrigação de compartilhar os sofrimentos do filho, que, aliás, ele mesmo ainda não chegou a vivenciar de verdade, tendo em vista a insensibilidade causada pela revolta que envolve sua alma. Aproveitando uma pausa mais longa, perguntei: - Mas se o filho foi levado a uma situação difícil, para a qual não estava preparado, seria tão culpado assim? O orientador sorriu diante de meus comentários e esclareceu: - A mãe errou pela irresponsabilidade, ele falhou pelos abusos criminosos em exercício de função sagrada. Alguém, por excesso de carinho, pode nos abrir a porta de um castelo, mas nós não podemos abusar da oportunidade, destruindo tudo o que há nele e querendo nos eximir da culpa. Por isso mesmo, a mãe tenta a correção de um erro, enquanto o filho paga por suas faltas. Essa explicação encerrou a conversa sobre o assunto. Na noite marcada, acompanhei o pequeno grupo que procurou Marinho para a assistência, o qual se constituía de quatro entidades: Alexandre, a mãe desencarnada, um colega de trabalho e eu. Muito surpreso, fiquei sabendo que esse colega, chamado Necésio, atuaria como intérprete junto ao religioso. Necésio também havia sido padre e mantinha-se em padrão vibratório adequado à percepção dos companheiros de planos mais densos. Marinho não nos veria, segundo informou Alexandre, mas enxergaria o ex-colega, e, por seu intermédio, receberia nossas sugestões. Admirado com a sabedoria que comanda este tipo de trabalho, segui o grupo em silêncio até uma antiga igreja. Se ainda estivesse encarnado, talvez me impressionasse muito com a cena terrível, mas, agora, obrigava-me a disciplinar as emoções. A igreja estava cheia de figuras sinistras. Várias entidades das sombras juntavam-se ali depois da morte, cultivando as mesmas idéias de crescimento espiritual sem esforço. Alguns sacerdotes, vestidos de negro, permaneciam junto aos altares, enquanto um deles, que parecia ser uma espécie de chefe, comentava, de um púlpito, o poder da igreja exclusivista a que pertenciam, expondo, com hábil sutileza, novas teorias sobre o céu e a salvação. Espantado, ouvi Alexandre explicando, getilmente: - Não estranhe. Os desesperados e preguiçosos também se reúnem depois da morte, de acordo com as tendências que apresentam. Assim como acontece na Terra com os grupos de rebeldes, os mais inteligentes e espertos assumem o comando. Muitos males são praticados por estas criaturas, inconscientemente... - Puxa!, como podem valorizar a ignorância a este ponto? Quem poderia imaginar a cena que estamos vendo? Se são criaturas que conhecem a verdade, por que ainda praticam o mal? - Trata-se de ação inconsciente – explicou Alexandre. - Mas – respondi, confuso – como é possível que almas cientes da distância que as separa da carne não se rendam ao bem? O orientador sorriu e comentou: - Você encontrará situação parecida entre os encarnados. Passados mais de mil anos dos ensinamentos de Jesus, com a visão ampla de tudo o que ele e seus seguidores fizeram, cientes da lição que deixou, investidos dos conhecimentos evangélicos, os homens se mobilizaram para as guerras santas, exterminando-se uns aos outros, em nome do Cristo, instituindo os tribunais da Inquisição, cheios de torturas, onde pessoas de todas as condições sociais foram atormentadas, aos milhares, em nome da caridade cristã. Como você pode ver, a ignorância é antiga e a simples mudança de situação que a morte física impõe não muda a essência das almas. Não temos “céus automáticos”, temos realidades. Sem disfarçar meu espanto, voltei a perguntar: - Mas como vivem esses infelizes? Têm organizações próprias? Ou sistemas especiais? - A maioria aqui – explicou Alexandre – é de desencarnados vivendo em parasitismo. Pesam energeticamente para as pessoas com as quais se ligam e também na atmosfera dos lares onde são acolhidos. Mas não pense que não existam organizações na zonas mais densas. Elas existem em grande número, apesar do orgulho e da rebeldia que lhes inspirou a criação. Em grupos assim, domina quem pratica a maldade deliberadamente. Aqui temos apenas uma reunião de almas desorientadas que sofrem. Você ainda não conhece os verdadeiros redutos do mal. E, num gesto, enfatizou: - Não podemos viver em paz enquanto existirem esses focos de maldade organizada. Cabe a nós lutar contra eles, até que o bem vença plenamente. Mais uma vez, senti a extensão e a grandeza dos serviços que esperam por aqueles que trabalham leais a Jesus, depois da morte do corpo físico. Escutava com interesse o discurso engenhoso do desencarnado, quando o novo colega que estava conosco fez discreto sinal, a alguma distância, para não chamar a atenção no meio da multidão, uma vez que era visível a todos. Alexandre respondeu rapidamente, acompanhado por mim e pela mãe aflita. Necésio havia localizado Marinho e nos chamava para o trabalho. Num canto escuro de uma das dependências da igreja, Marinho mantinha-se pensativo. A mãe carinhosa aproximou-se e acariciou sua testa. O filho, no entanto, como acontece com a maioria dos encarnados que recebem a influência de espíritos de luz, sentiu apenas uma vaga alegria no coração. E viu o nosso novo amigo com o qual teve uma conversa interessante. Logo depois de ser cumprimentado por ele, perguntou, surpreso: - Você também foi padre? - Sim – respondeu Necésio, com simpatia. - Pertence aos submissos ou aos lutadores? – perguntou Marinho, meio irônico, dando a entender que, por submissos, compreendia todos os colegas que cultivavam a humildade evangélica, e, por lutadores, todos os que, não encontrando o que esperavam no mundo espiritual, estavam entregues à revolta e ao desespero ingratos. - Pertenço ao grupo da boa vontade – respondeu Necésio, com inteligência. Incapaz de perceber a nossa presença a seu lado, Marinho encarou o colega com sarcasmo e tristeza, ao mesmo tempo, e perguntou: - Por que me procura? - Soube que você – disse Necésio, emocionado – está enfrentando algumas dificuldades íntimas, que eu também venho sofrendo. A dificuldade para reconhecer o bem e o cansaço de estar com o mal, a necessidade de carinho e o tédio com as companhias sombrias têm me causado muito sofrimento. Enquanto Marinho mudava de expressão, Necésio continuava: - É muito triste reconhecer que não podemos viver sem esperança, mantendo, ao mesmo tempo, o desencanto pela vida. - Ah, é verdade! – respondeu Marinho, comovido com o comentário. - E por que não trabalharmos contra isso? - Mas, como? – perguntou Marinho, incomodado – na Terra nos prometeram um céu aberto aos nossos títulos e a morte nos revelou justamente o contrário. Ministrávamos os sacramentos, fomos investidos de poder... Deram-nos a capacidade de dominar e, aqui, nos impuseram humilhações pesadas... Para quem apelar? É nossa obrigação nos rebelarmos. Percebi que Necésio ía argumentar de forma firme, falando das vaidades terrestres e das interpretações arbitrárias do homem sobre a lei divina, mas, antes que partisse para a disputa, Alexandre o advertiu, com bondade: - Não discuta. Necésio mudou a postura e continuou: - É verdade, meu amigo, cada consciência tem suas próprias lutas e problemas. Não estou aqui para convertê-lo. Amigos seus, de planos mais elevados, incumbiram-me de convidá-lo para uma reunião. - Será que estão querendo mudar o meu rumo, novamente, como já tentaram? – perguntou Marinho, curioso. - Provavelmente perceberam seu estado de espírito atual – respondeu Necésio, decidido – e talvez queiram lhe oferecer novas oportunidades. Quem sabe? Marinho pensou um pouco e voltou a fazer perguntas sobre os seus prováveis benfeitores. Necésio, no entanto, disse, com serenidade: - Não temos tempo para muitas explicações. Creio que você, como aconteceu comigo, tem muito a ganhar. Se pretende encontrar uma solução para a sua situação, não podemos perder tempo. Era possível perceber que Marinho estava indeciso. No entanto, sua mãe o abraçou com carinho, pedindo-lhe mentalmente que acompanhasse o amigo, sem hesitar. Sem poder resistir àquela vigorosa influência espiritual, disse, decidido: - Vamos! Necésio se juntou a ele e nós os acompanhamos, apressadamente, por uma das portas laterais da igreja. Em alguns minutos entrávamos na conhecida sala de orações e trabalhos espirituais. Notei que muitos trabalhadores desencarnados se mantinham de mãos dadas, formando uma longa corrente protetora em torno da mesa onde se realizariam os trabalhos. A cena era nova para mim. Mas Alexandre me explicou, discreto: - É um anel energético necessário ao bom andamento das nossas atividades de doutrinação. Sem essa rede de forças e vigilância, não teríamos como conter as entidades em desequilíbrio. Mas Alexandre me deu a entender que não era hora para conversas e, ajudando Necésio, colocou Marinho dentro do círculo, onde, surpreso, notei a presença de vários desencarnados perturbados, que aguardavam atendimento, trazidos por outros pequenos grupos de amigos espirituais. Percebendo agora onde estava, Marinho quis recuar, mas não pôde. A corrente vibratória feita pelos trabalhadores desencarnados, muito próxima da mesa, impedia que fugisse. - Isso é uma armadilha! – gritou, revoltado. - Calma! – respondeu Necésio, sem se alterar – você sentirá um grande alívio. Vai poder desabafar suas mágoas e ouvir palavras de consolo de um orientador encarnado. E, em seguida, quem sabe?, talvez possa ver algum ente querido que esteja em planos mais elevados, esperando que você se fortaleça e ilumine... - Não quero! Não quero! – gritava ele. - Você sabe o que é tudo isso? – perguntou Necésio, com carinho – Tem idéia de onde vem o socorro de hoje? Consegue lembrar-se de quem me enviou para encontrá-lo? Marinho encarou-o com os olhos cheios de terror, mas Necésio, sem perder a calma, falou: - Sua mãe! Marinho escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar de forma sentida. A essa altura, ajudado por vários companheiros, Alexandre ajudava Otávia, fornecendo ao seu organismo as energias de que necessitava. Percebi que, se para o contato com os espíritos de luz era necessária alguma ajuda espiritual para a médium, mais ainda para um caso como aquele, tendo em vista as lastimáveis condições do comunicante. Otávia recebia os mais amplos recursos energéticos para o trabalho a ser realizado. Logo em seguida, Marinho, muito agitado, incorporava em Otávia. A médium, temporariamente desligada de seu corpo físico, mostrava-se confusa, por estar envolvida em fluidos desequilibrados, não apresentando a mesma lucidez que vimos anteriormente. No entanto, a ajuda que recebia do nosso plano era muito maior. Um outro instrutor assumiu o lugar de Alexandre junto a Otávia, e o nosso orientador passou a inspirar diretamente o encarnado encarregado de dirigir a sessão. Enquanto isso, vários auxiliares recolhiam energias mentais emitidas pelos presentes, inclusive as que emanavam em grande quantidade do corpo da médium, o que, embora não fosse novidade, surpreendeu-me pelas características com que o trabalho era feito. Não agüentei e perguntei a um amigo que ajudava nessa tarefa. - Esse material – explicou ele – será usado para que os espíritos de luz do nosso plano sejam vistos pelos companheiros em desequilíbrio ou para a materialização de certas cenas, indispensáveis ao despertar das emoções e da confiança nas almas infelizes. Com essas energias emitidas pelo homem, podemos realizar certos serviços importantes para todos aqueles que se encontrem ainda presos à vibração terrena, mesmo estando distantes do corpo físico. Entendi a explicação, reconhecendo que, se é possível realizar sessões de materialização para os encarnados, o mesmo poderia ser feito para os desencarnados em situação mais densa. Admirado com a perfeição e a extensão das atividades dos nossos orientadores, levei minha atenção para a conversa que ocorria entre Marinho, incorporado em Otávia, e o doutrinador encarnado, inspirado por Alexandre. A princípio, Marinho demonstrava grande desespero e dizia palavras fortes que refletiam sua revolta. O doutrinador, no entanto, falava-lhe com serenidade, demonstrando a superioridade do Evangelho vivido sobre o Evangelho teorizado. A certa altura da conversa, percebi que Alexandre chamava um dos diversos auxiliares que manipulavam as energias recolhidas na sala, pedindo-lhe que ajudasse a mãe de Marinho a tornar-se visível a ele. Notei que a desencarnada, com a ajuda de outros amigos, atendeu rapidamente, enquanto Alexandre, saindo um pouco do lado do doutrinador, aplicava passes na região visual do comunicante. A mãe carinhosa colocava-se receptiva ao envolvimento com as energias mais grosseiras, enquanto o filho tinha sua percepção visual aumentada o mais possível, para que ambos pudessem se encontrar temporariamente, em benefício do comunicante. Alexandre voltou para o lado do doutrinador e, com surpresa, ouvi o encarnado, sob inspiração, desafiar Marinho, com profunda sinceridade: - Olhe à sua volta, meu querido! – dizia o doutrinador – reconhece quem está ao seu lado? Foi então que Marinho deu um grito terrível: - Mãe!! – disse ele, cheio de dor e vergonha – minha mãe!... - Por que resistir ao amor de Deus, meu filho? – disse ela, emocionada, abraçando-o – Chega de discussões inúteis e disputas intelectuais! Marinho, todas as nossas ilusões terrenas desapareceram com a morte do nosso corpo físico!... Não transfira para cá os nossos velhos enganos! Por favor, me ouça! Não se revolte mais! Aceite a verdade! Não me faça sofrer por mais tempo! Os encarnados presentes viam apenas o corpo de Otávia, controlado por Marinho, explodindo em soluços, mas nós víamos muito mais. A senhora desencarnada colocou-se ao lago do filho e começou a beijá-lo, chorando de reconhecimento e amor. Recuperando as forças, ela continuou: - Perdoe-me, meu filho, se em outra época eu o induzi à vida religiosa, ignorando suas tendências. Suas lutas de hoje me angustiam. Seja forte, Marinho, e me ajude! Abandone os maus companheiros! Não vale a pena revoltar-se. Nunca poderemos fugir às leis de Deus. Onde você estiver, a voz divina se fará ouvir em sua consciência... Nesse momento, notei que Marinho, cheio de medo, lembrou-se, instintivamente, dos amigos. Agora que reencontrava a mãe carinhosa, que sentia a vibração de conforto daquele ambiente, tinha receio de voltar ao convívio dos parceiros paralisados no mal. Apertou a mão da mãe, confiante, e perguntou: - Ah, mãe, posso ficar com você para sempre? A desencarnada o olhou, com amor, e respondeu: - Por enquanto, não, meu filho! No momento, você vai conseguir se afastar do desequilíbrio, quebrando todos os laços que tem com as zonas mais densas, abandonando-as de vez, mas ainda precisará mudar suas vibrações, renovando-se intimamente no bem, para que seja possível nos reunirmos novamente em breve. Mas não tenha medo. Providenciaremos todas as condições para sua nova vida, desde que você modifique, sinceramente, seus objetivos espirituais. Entre com a boa vontade verdadeira e Jesus nos ajudará com o resto!... Temos aqui um amigo querido, que nos ajudará. Falo de Necésio, o companheiro que o trouxe até aqui. Ele colocará à sua disposição os recursos de que precisa para mudar sua conduta. No início, Marinho, você terá dificuldades e decepções, será assediado pelos antigos parceiros, que se tornarão seus adversários, mas, sem o esforço que nos possibilita a conquista dos verdadeiros valores, não aprendemos qual o nosso lugar na criação. O filho infeliz prometeu à mãe a transformação necessária. Depois de encorajá-lo com ternura, a desencarnada deixou-o aos cuidados de Necésio, que, com alegria, recebeu a tarefa de encaminhá-lo em suas novas atividades. Depois de se despedir da mãe, que voltou para junto de nós, Marinho ainda conversou, por alguns minutos, com o dirigente encarnado, surpreendendo-o com a mudança repentina. De fato, foi recebido ali um presente de Deus. A dedicação materna havia surtido efeitos positivos naquele coração revoltado e desiludido. Marinho não poderia ser lançado das sombras para a luz apenas por causa da nossa ajuda, mas recebeu muitos recursos que utilizaria para colocar-se numa nova vida. Reconheci, admirado, que a mãe não poderia dar a ele a própria luz, mas proporcionava-lhe recursos valiosos para que ele empreendesse a própria caminhada. Outros grupos, vindos de outras regiões, traziam seus protegidos para a doutrinação, de acordo com a programação estabelecida previamente. Quatro entidades foram atendidas, através de Otávia e de outro médium. Em todos os casos, foi empregada grande quantidade de energias pelos nossos instrutores, especialmente para um negociante que ainda não sabia da própria morte. Como ele se recusava a enxergar a verdade, um dos orientadores do nível de Alexandre o fez ver, a distância, o restos do próprio corpo em decomposição. O infeliz, vendo a cena, gritava desesperado, até que se rendeu à realidade. Em todos os trabalhos, o material energético recolhido dos encarnados foi eficiente. Não era utilizado apenas pelos companheiros mais experientes que precisavam se fazer visíveis aos comunicantes, mas também na criação de quadros, formas-pensamento e cenas, que atuavam sobre o estado de espírito dos companheiros em desequilíbrio. Um dos atendidos, que havia incorporado com muita agitação, quis agredir os encarnados. Mas, antes que pudesse concretizar seu intento, vi que os auxiliares criavam uma forma mental, encostando-a no agressor. Era um esqueleto horrível, que ele olhou de cima a baixo, tremendo, humilhado, esquecendo-se da agressão. Depois de vários serviços do nosso plano, a sessão terminou, com grande proveito para todos. Em mim, novos pensamentos se agitavam. Cada atendimento havia se tornado uma lição diferente para mim. E, admirado com a ampliação cada vez mais intensa de minha compreensão, reconheci que os seres de luz poderiam trazer o melhor socorro possível aos espíritos em desequilíbrio, ou, cheios de compaixão e amor, poderiam organizar grandes espaços de luz junto aos sofredores, mas, de acordo com a lei eterna, esses espíritos só poderiam receber ajuda se estivessem dispostos a aderir, por si mesmos, aos trabalhos do bem.