------------------------------------- MISSIONÁRIOS DA LUZ LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 18 OBSESSÃO Por sugestão de orientadores mais experientes, o grupo com que Alexandre colaborava reunia-se em noites previamente marcadas, para atender aos casos de obsessão. Era necessário limitar, o mais possível, as diferenças vibratórias no ambiente, o que obrigava a direção da casa a limitar também o número de encarnados presentes ao trabalho. Este assunto, em particular, me despertava muito interesse e, por isso, depois de autorizado por Alexandre para acompanhá-lo à reunião, perguntei, curioso como sempre: - Todo obsidiado é um médium, no verdadeiro sentido da palavra? Alexandre sorriu e respondeu: - Médiuns, André, todos somos, inclusive nós, desencarnados, em vista de sermos intermediários do bem que vem do alto, quando nos elevamos, ou do mal que vem das zonas inferiores, quando nos desequilibramos. O obsidiado, no entanto, mais que médium de energias perturbadas, é, quase sempre, também um doente, representando um verdadeiro exército de doentes invísiveis ao olhar humano. Por isso mesmo, é considerado sempre um caso especial, exigindo muita atenção, prudência e carinho. Lembrando as conversas que ouvi entre outros instrutores e os encarnados que colaboravam com Alexandre, acrescentei: - Entendo o que diz sobre as dificuldades que envolvem a cura, mas me lembro do otimismo com que os encarnados comentam os casos dos obsidiados que serão trazidos para assistência... Alexandre sorriu e observou: - Por enquanto, eles não podem ver nada além da situação presente do drama antigo que envolve cada um. Não pensam que obsidiado e obsessor são duas almas quem vêm juntas há muito tempo, profundamente ligadas pelas perturbações que lhes são peculiares. Os encarnados fazem bem em encarar o trabalho com alegria, porque todo esforço nobre traz resultados positivos definitivos, mas deveriam ter mais cuidado com as promessas de melhora imediata no plano físico, e de maneira nenhuma deveriam se precipitar em julgar cada caso, uma vez que é muito difícil identificar quem é realmente a vítima com a visão limitada do corpo físico. Depois de pequena pausa, continuou: - Também notei o otimismo exagerado dos companheiros, vendo que alguns deles, mais levianos, chegaram a fazer promessas formais de cura aos parentes dos assistidos. Claro que os benefícios recebidos pelos doentes serão muito grandes, mas, se por um lado temos que valorizar o bom ânimo, por outro é preciso advertir sobre o entusiasmo desequilibrado e sem rumo. - Você já conhece todos os casos? – perguntei. - Todos – respondeu Alexandre, sem hesitar. – Dos cinco que atenderemos na próxima reunião, apenas uma moça tem reais possibilidades de melhora mais ou menos rápida. Os outros receberão apenas o socorro, a fim de se evitar o agravamento de suas condições. Interessado no que acabava de ouvir, perguntei: - Essa moça tem alguma proteção especial? Alexandre riu e explicou: - Não se trata de proteção, mas de esforço próprio. O obsidiado, além de doente, representando outros doentes, quase sempre é também alguém cheio de profundos problemas espirituais. Se não tiver vontade firme para se auto-educar, para se disciplinar, é quase certeza que prolongará para depois da morte a sua situação. O que acontece a um homem que não tenha controle da própria casa? Sem dúvida será assediado, dia a dia, por mil e uma questões e acabará derrotado, transformando-se em vítima das circustâncias. Suponhamos que esse homem negligente esteja rodeado de inimigos que ele mesmo atraiu, adversários que o vigiam nas menores coisas, motivados pelas piores intenções, na maioria das vezes... Se não acordar para a realidade da situação, oferecendo resistência e valendo-se da ajuda que recebe, é lógico que continuará vencido. Esta é a situação da maior parte dos casos espirituais de que estamos tratando, mas não é a regra geral para as obsessões. Existem também processos complicados de resgate, em que, depois de afastados os obsessores, as situações dolorosas continuam. Mas, em todos os casos desse tipo, não se pode abrir mão do interesse do próprio obsidiado. Se ele está satisfeito com a situação de desequilíbrio, terá que esperar pelo fim de sua cegueira, a redução de sua rebeldia, ou que desapareça a ignorância que lhe impede de ver a verdade. Frente a obstáculos assim, mesmo que sejamos chamados com fervor por aqueles que amam os obsidiados, nada podemos fazer, a não ser plantar o bem para que seja colhido no futuro, sem qualquer expectativa mais imediata. Alexandre fez uma pausa breve e, como percebia minha necessidade de esclarecimento, continuou: - A moça de que falei está buscando restaurar suas próprias forças psíquicas; tem lutado continuamente contra os ataques de entidades desequilibradas, usando todos os recursos de que dispõe em fé, autodomínio e meditação. Não está esperando o milagre da cura sem esforço e, apesar de terrivelmente perseguida por seres sombrios, vem aproveitando tudo o que amigos do nosso plano lhe oferecem. Assim, a diferença entre ela e os outros é que, usando as próprias forças, ela vai, aos poucos, tomando contato com a nossa vibração, enquanto os outros, ao que tudo indica, vão continuar com a indiferença característica de quem abandona a boa luta. Entendi a explicação e esperei a noite de assistência aos obsidiados, como dizia Alexandre. Depois de alguns dias, profundamente interessado, compareci ao trabalho com Alexandre. A equipe era bem menor. Em volta da mesa, havia apenas dois médiuns, seis encarnados com experiência no trabalho espiritual e os obsidiados a serem atendidos. Os cinco assistidos apresentavam características especiais. Dois deles, uma jovem senhora e um senhor mais velho, estavam muito agitados; outros dois, que eram irmãos, pareciam completamente alheios; e, por último, vimos a moça a que Alexandre se referia, que se controlava com esforço em vista do assédio que sofria. O número de entidades desequilibradas que acompanhavam os assistidos era grande. Nenhuma delas percebia a nossa presença, em função do baixo padrão vibratório em que estavam, mas sentiam-se à vontade em contato com os encarnados. Trocavam idéias entre si, muito interessadas, e, pela conversa, era possível perceber suas intenções de ataque e vingança. Estava totalmente concentrado observando-as, quando fui surpreendido pela chegada de dois amigos do nosso plano, para os quais os obsessores olharam com certo receio. - São nossos intérpretes junto aos obsessores – disse Alexandre, explicando. – Em função de sua faixa vibratória, podem ser vistos por eles e se comunicar conosco, ao mesmo tempo. Percebendo a tranqüilidade com que sorriam para nós, sem falar diretamente com os orientadores do nosso plano, ouvi Alexandre dizer: - Já estão a par de todas as instruções para o trabalho de hoje. Os desencarnados reunidos ali, profundamente perturbados, mudaram a linguagem ao ver os dois companheiros. Pela modificação, notei que já eram ambos conhecidos de todos. Um dos obsessores, visivelmente tomado de crueldade, falou discretamente a um dos amigos: - Os doutrinadores estão chegando. Espero que não me venham com grandes exigências. - Não sei o que querem esses pregadores – respondeu o outro, meio irônico -, porque, afinal de contas, conselho e água a gente só dá a quem pede. - Parece que disseram aos encarregados da mesa para nos vencer pelo cansaço, até que a gente desista de querer fazer justiça com as próprias mãos. - Palavras o vento leva... – respondeu o outro. A essa altura, os dois companheiros começaram a conversar com os obsessores. Um deles dirigiu-se a uma senhora, em tristes condições, ligada a um dos dois irmãos, e disse-lhe: - Estou vendo que a amiga está melhor, mais forte! Que bom! Ela explodiu em pranto, mas o nosso amigo continuou, sem se alterar: - Calma! A vingança piora os crimes cometidos. Para recuperar a felicidade é necessário que você esqueça todo mal. Enquanto alimentar pensamentos de ódio, não conseguirá melhorar como deseja. A raiva persistente é um estado de contínua destruição. Você não conseguirá alcançar paz interior enquanto não perdoar de coração. - É quase impossível – respondeu ela -, este homem traiu meus ideiais de mulher, corrompeu-me, fez pouco da minha situação, transformou meu destino em um rosário de sofrimento. Não é justo que me pague? Não dizem que Deus é justo? Como eu não vejo Deus, preciso fazer justiça com as próprias mãos. E como o nosso amigo a olhava com compaixão, ela murmurou: - E se você fosse a mulher? Ponha-se no meu lugar e pense como agiria. Estaria disposto a desculpar os criminosos que o magoaram? Esqueceria tudo, a ponto de anestesiar os sentimentos? Não acredito... Você agiria como eu! Há condições para o perdão. E, como vítima, minha condição é que o culpado pelo meu sofrimento também enfrente a humilhação. Ele me fez tanto mal e voltou ao mundo para uma vida cheia de regalias sociais. Obteve títulos para ser querido pelos outros. E o que é que eu ganho? Eu também não tinha direito ao respeito no passado? Não tinha eu também o desejo de uma vida honesta e de trabalho, fiel a Deus? Eu acompanhava a conversa com muito interesse, admirado com o individualismo característico de cada um, mesmo depois da morte física. O nosso companheiro, olhando-a, sem irritar-se, disse: - Todos os seus argumentos são, aparentemente, muito respeitáveis, minha cara. Mas, em todas as dificuldades que experimentamos, devemos analisar, com calma, a nossa parcela de responsabilidade. Em algumas raras situações poderíamos, de fato, nos considerar vítimas, mas, na maioria das vezes, temos a nossa parte de culpa. Não podemos evitar que a ave de rapina voe sobre nós, mas podemos impedi-la de fazer ninho na nossa cabeça. Nesse momento, a desencarnada, ofendida, disse, em tom áspero: - Isso é pregação religiosa... eu quero é justiça!... E com riso hirônico, concluiu: - Aliás, justiça ensinada por Jesus. O companheiro não se alterou com o sarcasmo da frase e disse: - A justiça! Quantos crimes são praticados no mundo em nome de Jesus! Quantos homens e mulheres que, querendo fazer justiça sozinhos, nada mais fazem que incentivar a tirania do “eu”? A amiga fala de Jesus. Que tipo de justiça pediu ele, quando estava na cruz? Sobre isso, minha querida, ele nos deixou orientações bem claras. Jesus tinha muito cuidado com tudo o que dizia respeito à justiça para os outros. Defendeu os interesses espirituais da humanidade, até o fim, e quando chegou o momento do seu julgamento, preferiu o silêncio e a resignação. Com isso, é claro que não pretendia desqualificar os juízes honestos da Terra, mas preferiu esta postura como referência de prudência para todos os seus discípulos, nas mais diferentes situações. Em se tratando de interesses alheios, devemos ser rápidos em justificar, mas quando os assuntos difíceis e dolorosos envolvem o nosso “eu”, é melhor conter todos os impulsos de reivindicação. Nem sempre a nossa visão limitada nos deixa perceber o tamanho da nossa própria dívida. E, na dúvida, é melhor nos abstermos. Você acredita que Jesus tivesse alguma dívida para merecer a condenação? Ele sabia o erro que estavam cometendo, tinha boas razões para apelar para as leis. No entanto, preferiu o silêncio e o esquecimento, na esperança da nossa legítima compreensão. É que Jesus, acima do antigo “olho por olho”, ensinou, sempre na prática, o “amai-vos uns aos outros”. Confirmou a justiça, mas proclamou o amor. Demonstrou que defender os que merecem será sempre um ato de heroísmo, mas não quis fazer justiça para si mesmo, para que os seus discípulos valorizassem a prudência humana e a fé divina, nas complexas questões pessoais, evitando os absurdos que as paixões egoístas podem provocar no mundo. Em vista dos argumentos, a mulher se calou, profundamente impressionada. E Alexandre, que acompanhava as explicações do intérprete, comentou: - O trabalho de esclarecimento espiritual das consciências depois da morte exige de nós muita atenção e carinho. É preciso saber plantar nos corações desiludidos, que deixam a Terra cheios de ódio e angústia indefinida. A Bíblia diz que no princípio era o Verbo... Aqui também, diante do caos desolado dos espíritos infelizes, é necessário o diálogo como início da verdadeira iluminação. Não podemos criar sem amor, e só quando nos preparamos adequadamente, podemos construir com sucesso para a vida eterna. Como a desencarnada havia se calado com a advertência, passei a observar a jovem senhora obsidiado, que se mostrava muito irritada, preocupando os trabalhadores encarnados. Vários perseguidores, invisíveis no plano físico, mantinham-se ao seu lado, causando-lhe profundas perturbações, mas, de todos eles, um obsessor mais cruel se sobressaía. Estava colado ao longo do seu corpo, controlando todos os centros de força física. Percebia o quanto lutava a encarnada, que, inutilmente, tentava resistir. Alexandre percebeu meu espanto e explicou: - Este, André, é um caso de possessão completa. E, dirigindo-se ao companheiro que conversava antes com a outra entidade, sugeriu-lhe uma conversa rápida com o perseguidor, para que eu pudesse avaliar melhor o assunto. Tocado pela mão do nosso companheiro, o infeliz gritou: - Não! Não! Não me venha ensinar o caminho para o céu. Sei qual é a minha situação e ninguém pode me impedir de me vingar!... - Não queremos forçar você a nada, amigo – disse o outro, com serenidade -, fique tranqüilo. Enquanto quiser vingança, será castigado por si mesmo. Ninguém está incomodando você, a não ser a própria consciência. Suas próprias mãos o prenderam à perturbação e à dor! - Nunca! – gritou o infeliz – nunca! E ela? Acompanhou a pergunta com uma expressão horrível e continuou: - Você diz que a virtude justifica a escravidão de homens livres? Acha certo construir senzalas para humilhar os filhos do mesmo Deus? Esta mulher foi cruel para nós todos. Além da minha vingança, outros vibram de ódio e não a deixam descansar. Nós a perseguiremos onde for. Fez um gesto sinistro e continuou: - Por simples capricho, ela vendeu minha mulher e meus filhos! Não é justo que sofra até que os devolva? Será possível que Jesus estivesse de acordo com o cativeiro? O intérprete, muito calmo, respondeu: - Jesus não aprovaria a escravidão, mas recomendou que nos perdoássemos uns aos outros, sem o que nunca sairemos do labirinto dos nossos erros. Qual de nós, antes encarnados, poderia mostrar um passado sem crimes? Neste momento, seus olhos vêem a culpa de uma pobre infeliz. Mas a sua alma, amigo, continua desesperada pela revolta. Sua memória está também desequilibrada e ainda não pode recuperar totalmente as lembranças que lhe dizem respeito. Não sendo possível lembrar o passado com exatidão, não seria melhor esperar pela justiça de Deus? Como julgar e executar alguém, pelas próprias mãos, se ainda não pode avaliar a extensão das próprias dívidas? O revoltado parecia chocado com os argumentos, mas, longe de se render, respondeu com frieza: - Para os mais fracos, seus comentários seriam muito bons. Mas não para mim, que conheço as sutilezas dos pregadores do seu tipo. Não vou desistir dos meus objetivos. Minha situação não vai se resolver com simples palavras. Nosso companheiro, percebendo a dureza e a ignorância do outro, continuou, de maneira fraterna: - Não se trata de sutileza e, sim, de bom senso. Aliás, não tiro sua razão individual, até porque você está fortemente ligado à mente da encarnada. No entanto, apelo para o que você ainda tem de bom no coração, para que reconheça que, sem as desculpas mútuas, não será possível quitarmos nossas dívidas. Em geral, o credor exigente fica cego para os próprios compromissos. A sua queixa, em essência, é legítima, mas o seu processo de cobrança é estranho e não vejo qualquer vantagem nele, uma vez que sua vingança, além de agravar as próprias feridas, tornam-no antipático aos outros companheiros. Atingido mais profundamente em sua vaidade, o obsessor se calou, enquanto o intérprete se virava para nós, querendo saber de Alexandre se deveria ajudar energeticamente a entidade, para que suas lembranças pudessem trazer de volta alguns acontecimentos do passado mais distante. Alexandre, no entanto, considerou: - Não seria oportuno aumentar suas lembranças. Ele não compreenderia. Precisa sofrer até que possamos ajudá-lo mais em seu entendimento. Aproveitando a pausa mais longa, observei a obsidiada. Cercada de entidades agressivas, seu corpo parecia a casa do perseguidor mais cruel. Ele ocupava seu organismo da cabeça aos pés, forçando reações violentas em todas as células. Fios muito finos, mas fortes, uniam a ambos e, enquanto o obsessor apresentava um quadro de lucidez e maldade, a pobre mulher parecia completamente angustiada e inconsciente para os encarnados. - Salvem-me do demônio! Salvem-me do demônio! – gritava sem parar, comovendo os encarnados em torno da mesa. – Ah, meu Deus! Quando vai acabar o meu sofrimento? Depois de algum tempo em silêncio, com os olhos muito abertos, como se estivesse encarando inimigos invisíveis, gritava desesperada: - Estão vindo todos do inferno! Estão aqui! Estão aqui! Seus gemidos pareciam uivos agonizantes. Percebendo meu espanto, Alexandre explicou: - Este é um caso de possessão violenta. Desde criança, ela era perseguida pelos inimigos de outra época. Enquanto solteira, sob a proteção dos pais, ela conseguiu, de algum modo, se livrar da influência total dos inimigos persistentes, embora sentisse sua ação de maneira menos perceptível. Mas quando se casou, tendo uma cota maior de responsabilidades, não conseguiu mais resistir. Logo depois do nascimento do primeiro filho, ficou totalmente abatida, dando oportunidade aos perseguidores e, desde então, sofre difícil prova. Eu ía fazer outras perguntas, mas Alexandre deu a entender que o atendimento ía começar entre os encarnados. Precisávamos continuar ajudando e vigiando. Surpreso, observei as emanações energéticas dos encarnados ali reunidos em trabalho de socorro, movidos por profundo sentimento de caridade. Nossos técnicos aproveitavam o fluxo abundante de energias saudáveis, improvisando vários recursos de assistência, não só para os obsidiados, mas também para os obsessores. De todos os assistidos, só a jovem mais firme conseguia aproveitar totalmente nossa ajuda. Era possível perceber seu esforço para reagir contra o assédio dos espíritos que a cercavam. Envolvida na corrente das nossas vibrações, recuperava plenamente o equilíbrio do corpo, ainda que temporariamente. Sentia-se tranqüila, quase feliz. Apesar de continuar trabalhando, Alexandre chamou minha atenção para o fato. - Esta companheira – disse ele – está, de fato, no caminho da cura. Percebeu, a tempo, que medicação, seja qual for, não é tudo para recuperar a saúde. Já sabe que a nossa ajuda é algo a ser aproveitado por quem quer se recuperar. Por isso mesmo, exercita a resistência, colaborando conosco em benefício próprio. Observe. De fato, sentindo-se amparada pelas nossas vibrações, a jovem emitia forte fluxo de energias mentais, expulsando todas as idéias ruins que os obsessores lhe haviam sugerido e absorvendo, em seguida, os pensamentos saudáveis e construtivos que lhe oferecíamos. Satisfeito com o exame detalhado, Alexandre disse: - Só o doente que se transforma voluntariamente em médico de si mesmo alcança a cura efetiva. Nos casos de obsessão, o princípio é o mesmo. Se a vítima se rende sem lutar ao adversário, fica entregue a ele e torna-se possuída, depois de transformar-se em um robô comandado pelo perseguidor. Se sua vontade for fraca e indecisa, acostuma-se à atuação dos obsessores e fica viciada no desequilíbrio complexo, uma vez que se converte, aos poucos, em foco de forte atração mental para os próprios inimigos. Em casos assim, nossa assistência fica restrita a meros trabalhos de socorro, com resultados a muito longo prazo. Mas quando encontramos o obsidiado interessado na própria cura, aproveitando para aplicar nossos recursos intimamente, então podemos prever sucesso imediato. Quando Alexandre se calou, continuei observando os trabalhos. O doutrinador encarnado, companheiro de grande sinceridade, apresentava um quadro especial. Seu peito havia se transformado num foco brilhante e cada palavra que dizia parecia um jato de luz indo diretamente ao alvo, fosse ele os ouvidos ou o coração dos obsessores. Suas palavras eram, na verdade, simples e belas, mas o sentimento que acompanhava cada uma era sublime e elevado. Percebendo meu espanto, Alexandre explicou: - Estamos numa escola espiritual. O doutrinador encarnado encarrega-se de transmitir as lições. Você pode notar, no entanto, que, para ensinar de verdade, não basta conhecer as matérias e ministrá-las. É preciso, antes de mais nada, senti-las e vivê-las profundamente no coração. O homem que prega o bem tem que praticá-lo, se não quiser que suas palavras sejam levadas pelo vento, como simples eco de um tambor vazio. O companheiro que ensina a virtude, experimentando-a em si mesmo, tem a palavra carregada de energias sadias, criando construções espirituais em quem o ouve. Sem isso, a doutrinação, quase sempre, é inútil. Vendo o quadro com as explicações de Alexandre, compreendi que o contágio pelo exemplo não é apenas ideologia, mas, sim, um fato científico nas manifestações mentais e energéticas. Com exceção da encarnada possuída, os outros obsidiados ficavam livres da influência direta dos obsessores durante os trabalhos. No entanto, a não ser pela jovem mais forte, todos estavam bastante agitados, ansiosos para se reunirem novamente aos obsessores. Trabalhadores do nosso plano haviam afastado os perseguidores daqueles corpos doentes, mas os obsidiados continuavam distantes dos ensinamentos que o doutrinador encarnado, inspirado pelos mentores, transmitia com admirável sentimento. Pareciam insatisfeitos e incomodados por estarem separados dos obsessores. Acostumado com doentes que, aparentemente, queriam a cura, estranhei a atitude mental daqueles assistidos que tínhamos diante de nós, tão desinteressados do tratamento que a espiritualidade lhes oferecia com amor. Alexandre percebeu minha surpresa e comentou: - Em geral, noventa por cento das obsessões na Terra são de casos dolorosos e complicados. Quase sempre, o obsidiado sofre de profunda cegueira em relação à própria situação. E como não responde ao tratamento, devido à fixação no próprio personalismo, torna-se presa fácil e inconsciente, mas responsável, de inimigos perigosos das regiões mais sombrias. É comum termos casos desse tipo, em função de fortes ligações de afeto mal dirigido ou de ódio, que sempre é a confiança transformada em monstro. Alexandre fez uma pausa, observando os trabalhos em andamento, mas, como se quisesse me ajudar com lições importantes da prática, continuou: - É por isso, André, que mesmo o psiquiatra espírita tem dificuldade de compreender este tipo de caso. Em virtude dos aspectos emocionais, cada problema desse pede uma solução diferente. Além disso, é importante notar que os encarnados vêem apenas um lado da questão, quando cada processo se caracteriza por inúmeros aspectos do passado dos encarnados e desencarnados envolvidos. Diante do obsidiado, preocupam-se apenas em afastar o obsessor. Mas como romper, de uma hora para outra, ligações de séculos, geradas em compromissos mútuos? Como separar seres que se agarram uns aos outros, ansiosamente, por acreditarem que com a dor de uma união dessas fazem o resgate necessário? É verdade que existem raros casos de cura imediata, mas aí temos o fim de um complexo processo de redenção, ou então encontramos o doente que agride a si mesmo para abreviar a cura necessária. Considerando a dificuldade da cura completa dos doentes psíquicos, comentei: - Então, quer dizer que... Alexandre, no entanto, não me deixou terminar. Interrompendo-me, respondeu: - Já sei o que vai dizer. Observando as dificuldades que aponto para o seu próprio aprendizado, você questiona se o nosso trabalho não é inútil e se não seria melhor entregar os obsidiados à própria sorte. Isso, no entanto, não faz sentido. Se você estivesse encarnado e visse um filho querido desenganado pela medicina, teria coragem de abandoná-lo às circunstâncias? Não buscaria a ajuda divina? Não esperaria, ansioso, que a natureza agisse favoravelmente? Quem conhece, de fato, o íntimo do coração de um homem para dizer, com certeza absoluta, se ele vai ou não reagir ao mal, se deseja ou não o trabalho ativo? Sendo assim, não podemos usar qualquer argumento racional para fugir ao dever de dar assistência ao ignorante e ao sofredor. É preciso que façamos a nossa obrigação imediata, conscientes de que a construção do amor é também uma questão de tempo. No trabalho do bem, nenhuma palavra, nenhum gesto ou pensamento é em vão. Entendi a importância da observação e fiquei em silêncio. E como Alexandre voltou aos trabalhos, passei a examinar os assistidos, enquanto o doutrinador encarnado prosseguia com sua tarefa. A jovem que reagia contra o assédio das sombras demonstrava normalidade física razoável. Parecia alguém que fazia todos os esforços para defender o equilíbrio da própria casa. No entanto, os outros apresentavam lamentáveis condições orgânicas. A mulher possuída tinha sérias perturbações, desde o cérebrio até os nervos lombares e sacros, apresentando completo desequilíbrio da sensibilidade, além de grave descontrole das fibras motoras. Esses desequilíbrios não se limitavam apenas ao sistema nervoso, mas atingiam também as glândulas e demais órgãos em geral. Os outros assistidos tinham condições físicas menos comprometidas. Dois deles apresentavam estranhas intoxicações no fígado e nos rins. E outro tinha o coração e os pulmões afetados, com tendência à insuficiência cardíaca complicada por tuberculose avançada. Enquanto examinava com atenção aqueles quadros clínicos interessantes, o dirigente encarnado, inspirado por instrutores do nosso plano, distribuía palavras de consolo e amor, semeando a caridade, a luz e o perdão com extrema fidelidade ao Cristo. Com o intuito de me fazer aprender ainda mais, Alexandre se aproximou e disse: - Repare o trabalho de autêntica fraternidade. Não temos milagres de transformações repentinas, nem promoções imediatas aos planos mais elevados. A tarefa é de plantar a semente, cuidando dela com persistência e vigilância. Não se pode romper laços de séculos num instante, nem construir uma cidade num dia. É indispensável desintegrar esses laços com perseverança e praticar o bem, com boa vontade. A reunião estava terminando. Percebendo que Alexandre estava mais disponível, comentei o que havia observado, perguntando, em seguida: - Tendo em vista os desequilíbrios físicos que pude verificar nos assistidos, podemos considerá-los como doentes do corpo também? - Com certeza – afirmou Alexandre -, o desequilíbrio da mente pode causar perturbação geral do corpo físico. É por isso que as obsessões, quase sempre, vêm acompanhadas de aspectos muito complicados. As perturbações da alma levam às doenças do corpo. Antes que eu pudesse fazer outras perguntas, percebi que a reunião estava sendo encerrada pelos encarnados. A corrente energética de defesa foi rompida. Notei, surpreso, que a jovem mais forte e firme na fé apresentava melhoras consideráveis, enquanto a possessa saía sem qualquer alteração de seu quadro. Observei também os outros três assistidos. Assim que a corrente foi desfeita, atraíram novamente os perseguidores, a cuja influência já estavam acostumados, demonstrando bem pouco proveito do trabalho. Aproveitando o momento, aproximei-me de Alexandre, e perguntei: - Como conseguir resultados definitivos no tratamento aos obsidiados? Ele sorriu e respondeu: - Em todas as atividades de assistência há sempre grande proveito, mesmo que não possamos perceber de imediato. E qualquer doente desse tipo que se disponha a ajudar no processo, em benefício próprio, colaborando de modo decisivo na recuperação de seu equilíbrio mental, pode esperar a restauração da saúde relativa do corpo físico. Mas quando a criatura pede ajuda da boca para fora, sem abrir o coração à influência divina, não pode esperar milagres de nossa parte. Podemos ajudar, socorrer, contribuir, esclarecer, mas não é possível improvisar recursos que são de exclusiva responsabilidade dos interessados. - Mas fico penalizado com o quadro clínico dos obsidiados – comentei, bastante impressionado. – Como são dolorosas as suas condições! - Sim, - respondeu Alexandre – a responsabilidade não se limita a palavras. É questão vital no caminho da evolução. Para proteger seus filhos contra os perigos da queda, Deus criou os recursos da religião, despertando almas para a elevação espiritual. Mas poucos são os homens que se dispõem a respeitar as determinações da religião, e esquecem, voluntariamente, que os menores erros e os vícios mais insignificantes ficam gravados na alma, exigindo correção. Você está vendo aqui alguns obsidiados infelizes já em processo de tratamento, mas esquece que muitas criaturas encarnadas, apesar de conhecerem as necessidades do espírito informadas pela religião, deixam-se levar pelo apego às sensações, contraindo débitos, assumindo compromissos pesados e arrastando outras consciências em suas aventuras, criando laços fortes para as futuras obsessões. E, depois de um sorriso, acrescentou: - O que você queria? Se, por um lado, temos o dever de trabalhar, tanto quanto possível, pelo bem do próximo, de outro não podemos eximi-lo de suas próprias obrigações. O trabalhador comprometido não é aquele que chora ao ver o sofrimento alheio, nem o que apenas observa, de forma passiva, com a desculpa de não querer interferir na justiça divina. O sentimentalismo doentio e a justiça fria não contróem para o bem. O bom trabalhador é o que ajuda, sem perturbar o próprio equilíbrio, construindo o bem que estiver ao seu alcance, consciente de que o seu esforço é reflexo da vontade divina. Alexandre não poderia ser mais claro. Compreendi a explicação, mas, notando que os assistidos íam saindo acompanhados dos familiares que os esperavam do lado de fora, perguntei novamente: - Mas e se conseguíssemos afastar os obsessores definitivamente? Como ex-médico encarnado, vejo que estes doentes psíquicos não têm as doenças restritas à mente. Com exceção da jovem mais forte, os outros apresentam estranhos desequilíbrios do sistema nervoso, com distúrbios no coração, fígado, rins e pulmões. Digamos que conseguíssemos fazer com que os obsessores desistissem de seu intento. Os obsidiados teriam de volta o equilíbrio físico, retomando a saúde plena? Alexandre pensou um pouco, antes de responder, e disse: - André, o corpo físico é como um violino que se entrega ao músico, que, nesse caso, é o espírito encarnado. É indispensável preservar o instrumento das pragas e defendê-lo de ladrões. Viu a jovem que se esforça para evitar os ataques? Tem sofrido muitas quedas por causa do assédio dos obsessores, mas, como alguém que atravessa um longo caminho à beira do abismo, confia em Deus e recorre à prece, incessantemente, fazendo sua auto-análise e reunindo as forças de que dispõe para não desequilibrar a si mesma. No processo em que está, essa companheira tem a prova que a salva. No entanto, no silêncio de seu trabalho, ela tem também ajudado a esclarecer os próprios perseguidores, levando-os a refletir e se corrigir. Como vê, essa moça sabe conservar o corpo que lhe foi confiado e, transformada em doutrinadora dos próprios obsessores, pelo exemplo de resistência, transforma os inimigos, iluminando a si mesma. Diante de uma colaboração como esta, a cura fica muito mais fácil. Mas o mesmo não acontecerá com aqueles que não cuidam da defesa do próprio corpo. O violino simbólico de que falamos, quando entregue às forças do mal, pode ficar parcialmente destruído. E, mesmo que seja devolvido ao verdadeiro dono, pode não ter mais a qualidade que tinha antes. Um Stradivarius pode ser autêntico, mas não poderá ser ouvido com as cordas arrebentadas. Como vemos, os casos de obsessão apresentam complicações naturais e, para solucioná-los, não podemos dispensar a colaboração direta dos próprios interessados, os obsidiados. - Entendo! – respondi. E, como Alexandre fazia uma pausa mais longa, comentei: - Mas, suponhamos que os obsessores mudem de idéia e se afastem definitivamente do mal, depois de atacarem o corpo dos obsidiados durante longo tempo... Nesse caso, esses obsidiados não se recuperariam imediatamente? Não teriam a saúde completa novamente? Com a paciência que lhe é peculiar, Alexandre respondeu: - Já vi casos assim e, quando acontecem, os antigos perseguidores se transformam em amigos, ansiosos por reparar o mal praticado. Às vezes, com a ajuda dos planos superiores, conseguem a recuperação física plena daqueles que sofreram os seus ataques desumanos. No entanto, na maioria dos casos, os obsidiados não conseguem mais recuperar o equilíbrio do corpo físico. - E vão com a saúde comprometida até a morte? – perguntei, muito impressionado. - Sim – respondeu Alexandre, tranqüilamente. E, notando meu grande espanto, acrescentou: - Sua surpresa se deve ainda ao limitado julgamento humano. Aquele que é considerado obsessor entre os encarnados pode apresentar modificações de conduta e intenções, mas talvez a suposta vítima não esteja, de fato, modificada. Na obsessão, as dificuldades não estão apenas de um lado. O eventual afastamento do obsessor nem sempre significa que a dívida foi extinta. E, em qualquer lugar do universo, André, recebemos sempre de acordo com as nossas próprias obras. O assunto inspirava ainda outras questões, mas outros compromissos nos esperavam. Alexandre fez menção de sair, despedindo-se, com carinho, dos colaboradores, e eu o acompanhei em silêncio, pensando na grandeza das mínimas disposições da justiça divina.