------------------------------------- MISSIONÁRIOS DA LUZ LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 20 DESPEDIDAS Estava esperando que os meus estudos continuassem, mas, com surpresa, recebi de Lísias um convite enviado por Alexandre. Tratava-se de uma reunião de despedidas. Li o pequeno bilhete e olhei para o companheiro. - Despedidas? – perguntei. Lísias explicou, atencioso: - Sim. Como acontece com outros orientadores do mesmo nível, Alexandre, de tempos em tempos, se dirige a planos superiores, para desempenhar tarefas que ainda estão além da nossa compreensão. Creio que parte amanhã, em companhia de outros instrutores, e quer se despedir dos colaboradores e estudantes esta noite. - E os trabalhos na Terra? – perguntei – Alexandre não é um dos orientadores diretos de um dos grandes grupos espíritas que conhecemos? Lísias respondeu com segurança: - A substituição já foi providenciada, de acordo com o merecimento e as necessidades do grupo a que você se refere. E percebendo a mágoa que me tomava, comentou: - O que posso lhe garantir é que Alexandre não nos esquecerá. Partindo para planos mais altos, sua única preocupação será o serviço, para enriquecer a si mesmo e ser mais útil a todos nós. - Mas – argumentei – ele nos fará muita falta... Tenho a impressão de que está nos deixando no meio do trabalho, quando ainda necessitamos muito de sua ajuda para o aprendizado... Lísias percebeu o quanto meu comentário era passional e respondeu, firme: - Nada de egoísmo, André! Sabemos que Alexandre está partindo a serviço, mas, mesmo que sua ausência fosse muito longa e por motivos de lazer, cabe a nós ficarmos contentes por seu merecimento. É preciso considerar o bem que ainda se pode fazer, vibrando alegria e esperança com as realizações que estão por vir, para não sermos preguiçosos e improdutivos, mas não devemos esquecer o bem que se fez ou que recebemos, para não sermos ingratos. Aquela observação teve o dom de me acordar a consciência. Recuperei o equilíbrio emocional necessário. Mudei minha atitude íntima, reagindo contra as primeiras impressões que a notícia havia me causado. Lísias percebeu, sorriu e comentou: - Além disso, não podemos esquecer nossas próprias obrigações. O aprendizado, nas várias atividades em que se apresenta, sempre acaba, embora a sabedoria seja infinita. Precisamos demonstrar, na prática, o quanto aproveitamos das lições recebidas. Que melhor demonstração de aproveitamento podemos dar a Alexandre do que assumir as tarefas em que ele nos instruiu, até que volte do serviço temporário? - É verdade! – respondi. E, reanimado por aquelas palavras, conversamos ainda um pouco e combinamos que Lísias voltaria ao anoitecer para irmos juntos para a reunião. À noitinha, ele voltou e seguimos para o local em agradável conversa. Visto de nossa colônia, o céu parecia mais belo que o normal. Várias constelações brilhavam e a Lua, muito maior do que quando vista da Terra, parecia mais acolhedora e tranqüila. Sem a luz do Sol, que renova a vida constantemente, as flores exalavam perfume delicioso, dançando de mansinho ao sopro do vento leve... - Muitos alunos de Alexandre – comentava Lísias, com alegria – virão visitá-lo esta noite. Vamos manter atitude interior de gratidão e serenidade, como eles. Com esforço, concordava com ele, lembrando-me das lições recebidas. Alexandre sabia fazer-se amado. Superior sem afetação, humilde sem servilismo, orientador sempre disposto, não só a ensinar, mas também a aprender, desempenhava as altas funções que lhe eram atribuídas sem qualquer exacerbação do "eu", sempre interessado em cumprir a vontade do Pai e em aceitar nossa pequena ajuda, aproveitando-a. Devido à sua compreensão, aquele afastamento, ainda que temporário, era muito difícil para mim. Com esses pensamentos, contra os quais reagia, chegamos a uma bela casa, onde aconteceria a reunião. Entramos. O salão lindamente iluminado me surpreendeu. Não havia luxo no interior, mas o lustre em forma de estrelas, emitindo claridade azul brilhante, dava ao ambiente um ar de beleza misteriosa misturada a espiritualidade elevada. Delicados arranjos de flores naturais enfeitavam as paredes, dando-nos a sensação de alegria e bem-estar. Apresentado por Lisias a diversos companheiros, logo me dei conta do pequeno número de alunos que se reuniriam ali. Estavam presentes apenas os alunos de Alexandre que viviam em nossa colônia, sessenta e oito colegas, incluindo quinze mulheres. Todos os presentes falavam de Alexandre com palavras de elogio. Éramos todos grandes devedores de sua bondade. Quando todos os convidados já haviam chegado, Alexandre veio até nós, cumprimentando cada um, com carinho sincero. Era o mesmo Alexandre, simples e admirável. Deixando-nos à vontade, conversou com todos, individualmente, a respeito de nossas tarefas, estudos, realizações. Em seguida, com toda a naturalidade, começou a nos falar: - Vocês sabem o motivo da reunião. Quero me despedir de todos, em virtude da minha ausência temporária, por razões de serviços mais elevados. Pelo olhar de todos, notei que a maioria compartilhava da minha tristeza. Devíamos muito àquele espírito sábio e bondoso. Depois de pequena pausa, continuou: - Conheço o amor puro que vocês têm por mim e tenho certeza de que sabem do carinho que tenho por todos. É natural. Somos amigos no mesmo trabalho do bem e colegas felizes na execução da vontade divina. Companheiros de luta construtiva, seria muito difícil para nós esta separação, ainda que temporária, se não tivéssemos já a luz do esclarecimento. Nesse momento, Alexandre fez uma pausa mais longa, olhando todos nos olhos, como a nos examinar intimamente, e continuou: - Alguns colaboradores, a quem muito devo, pediram-me que permaneça em nossa colônia, o que agradeço, comovido. Não falo por questões pessoais, mas pela estima recíproca e fiel que temos uns pelos outros. No entanto, é preciso considerar, amigos, que este auxiliar humilde não deve ocupar, em suas vidas, o lugar que é de Jesus. É muito difícil encontrarmos o amor puro e a ele nos entregarmos sem reservas. E como essa dificuldade é flagrante em todos os caminhos de nossa evolução, quase sempre cometemos o erro da idolatria. É verdade que estamos entre amigos, e que não cabem, nesta sala, profundas reflexões filosóficas, para podermos nos restringir somente aos sentimentos. Mas não posso deixar de aproveitar a oportunidade para refletir sobre o problema dos laços que nos unem, sem nos algemar uns aos outros. Nossa estrada evolutiva, bem como o caminho de progresso da humanidade terrena, em geral, têm sido tortuosas estradas em que pisamos ídolos quebrados. Passamos por encarnação após encarnação, e as civilizações repetem as longas espirais de recapitulação, porque não temos tido atenção para com a nossa caminhada. Havendo nova pausa em seu discurso, observei que profundo respeito pairava no ambiente, em virtude das sábias palavras. - Temos criado deuses à parte – continuou Alexandre, comovido – para destrui-los, muitas vezes, com desespero para o nosso coração, quando a realidade nos amplia a compreensão diante do horizonte infinito da vida. Na procura por conforto pessoal, em face de problemas graves em nossa vida, raramente encontramos a solução, mas, sim, a fuga, que aproveitamos com todas as forças para adiar indefinidamente o reajuste necessário. Mas, um dia, a verdade virá e, com ela, o momento do nosso testemunho pessoal. Com olhar muito lúcido, onde podíamos perceber sua serenidade emocional, ele nos olhou e, depois de longa pausa, continuou com as despedidas. - É por isso, meu amigos, - prosseguiu – que o orientador consciente de sua tarefa não pode fugir das obrigações para com a evolução de seus protegidos. De tempos em tempos, é necessário deixar o estudante entregue a si mesmo, ainda que o mais profundo carinho nos sugira o contrário. Junto do instrutor, o estudante, quase sempre, só observa, mas, a distância, experimenta e age, vivenciando o que aprendeu. É indispensável desenvolver os potenciais ilimitados, inerentes a cada um de nós, guardados como herança divina em nosso mundo interior. A proteção inconsciente, que desvia o estudante das realizações que lhe são próprias, impede o progresso, a elevação, o resgate individual. Deixar que se crie dependência nesse nível é como aprisionar o espírito, anulando sua capacidade de improvisar e estimulando os vícios do pensamento. Devemos fugir ao hábito condenável da adoração mútua, em que o falso carinho anula os sentimentos. Respeitemo-nos uns aos outros, como irmãos reunidos para a mesma obra do bem e da verdade, mas vamos combater a idolatria. Amemo-nos, uns aos outros, como Jesus nos amou, mas vamos trabalhar contra a exacerbação do exclusivismo que destrói. Somos guardiões de grandes lições da vida superior. Colocá-las em prática, estendendo mãos amigas aos nossos semelhantes, é o nosso maior objetivo. Cada um de vocês tem as próprias obrigações, nas diversas áreas de atividade espiritual. Durante alguns meses, estivemos quase sempre juntos. Reunidos na mesma experiência, criamos laços sagrados de amor que nos unem uns aos outros. Mas não podemos nos acomodar com o afeto. É preciso enfrentar as dificuldades do serviço, conhecer a luta, mostrar aproveitamento. Nunca me valeria da qualidade de instrutor para impedir o crescimento mental de vocês. A Terra, que é mãe de todos nós, pede filhos esclarecidos que colaborem na divina tarefa de libertação planetária. Por toda parte, há multidões escravas do bem-estar e da miséria, da alegria e do sofrimento, inconscientes do caráter temporário das condições em que estão. Todos vivem, mas raros são os espíritos de nosso mundo que realmente conquistaram a vida eterna. O campo de trabalho é imenso. Pratiquem nele o que aprenderam, despertando as consciências que dormem pelo caminho. O aprendizado nos traz conhecimento. A vida nos oferece a oportunidade da prática. Vamos unir sabedoria e amor, na atividade de cada dia, e descobriremos a essência divina que vive em nós, santificando a Terra que espera pela nossa ajuda, nosso equilíbrio e nossa compreensão. Existem muitos instrutores generosos e, além disso, vocês devem expandir as lições que receberam, orientando também seus semelhantes e os companheiros mais fracos. Só quem se entrega voluntariamente à idolatria transforma a ausência num vácuo. Não, meus queridos, não devemos alimentar qualquer sentimento de saudade sem otimismo e esperança. Um futuro de grandes realizações luminosas nos espera. Façamos a nossa parte, aceitando as experiências construtivas que nos pedem o esforço em benefício de maiores possibilidades. Valorizo, profundamente, o consolo individual, mas devemos procurar nos libertar com Cristo, acima de tudo. Não há dúvida de que o discurso, embora carinhoso, era severo e que, no momento, não agradava ao nosso coração, habituado às manifestações constantes de carinho, mas ele tinha também o dom de nos acordar para a verdade, chamando-nos para uma atitude de entendimento legítimo. Mesmo ali, numa simples reunião de despedidas, Alexandre sabia ser grande e generoso, alertando-nos para o equilíbrio que, de outro modo, não saberíamos manter. Apesar de compreendermos, estávamos todos emocionados. A separação de quem é bom, mesmo que temporária, é sempre difícil. Com ele havíamos aprendido lindas lições. Forte e sábio, carinhoso e enérgico, Alexandre havia nos ajudado na busca por novos conhecimentos. Comparando nossas condições atuais com as que apresentávamos antes, a melhora geral era evidente. Como não sentir que devemos a este amigo de todas as horas as mais sinceras demonstrações de carinho? Creio que a maioria partilhava dos meus pensamentos, porque Alexandre, dando a entender que percebia nossas reflexões mais íntimas, acrescentou: - Devemos a Jesus todas as bênçãos! Ele é o divino intermediário entre Deus e nós. Saibamos ser gratos a ele pelas lições e oportunidades de trabalho. O espírito de gratidão a Deus nos alegra a vida e valoriza a tarefa de quem trabalha com dedicação!... Em seguida, Alexandre se levantou e, sorrindo, abraçou cada um de nós, dizendo palavras de incentivo ao bem e à verdade, enchendo-nos de coragem e fé. Mais equilibrados por sua palavra, os estudantes não se atreveram a fazer qualquer comentário menos discreto. Estávamos todos sérios e serenos. Epaminondas, o aluno mais adiantado do nosso grupo, tomou a palavra e agradeceu, de forma simples, transmitindo nossos sentimentos mais nobres e endereçando a Alexandre nossos votos sinceros de paz e sucesso, na continuidade de seus trabalhos. Vimos que o instrutor recebia nossas vibrações de amor e reconhecimento com profunda emoção. Seu rosto emitia luzes muito bonitas. Terminada a saudação de Epaminondas, Alexandre disse algumas palavras de agradecimento, que não merecíamos, e falou: - Agora, meus amigos, vamos elevar nossos pensamentos de alegria e gratidão a Jesus, dedicando a ele nossas emoções pela despedida. Ainda de pé, cercado de intensa luz azul brilhante, e de olhos voltados para o alto, estendeu os braços como se conversasse com Jesus ali presente, mas invisível, orando com grande beleza: Senhor, Sejam para o teu coração misericordioso Todas as nossas alegrias, esperanças e aspirações! Ensina-nos a executar teus propósitos desconhecidos, Abre-nos as portas de ouro das oportunidades do serviço E ajuda-nos a compreender a tua vontade!... Seja o nosso trabalho a oficina sagrada de bênçãos infinitas, Converte-nos as dificuldades em estímulos santos, Transforma os obstáculos da senda em renovadas lições... Em teu nome, Semearemos o bem onde surjam espinhos do mal, Acenderemos tua luz onde a treva demore, Verteremos o bálsamo do teu amor onde corra o pranto do sofrimento, Proclamaremos tua bênção onde haja condenações, Desfraldaremos tua bandeira de paz junto às guerras do ódio! Senhor, Dá que possamos servir-te Com a fidelidade com que nos amas, E perdoa nossas fragilidades e vacilações na execução de tua obra. Fortifica-nos o coração Para que o passado não nos perturbe e o futuro não nos inquiete, A fim de que possamos honrar-te a confiança no dia de hoje, Que nos deste Para a renovação permanente até à vitória final. Somos tutelados na Terra, Confundidos na lembrança De erros milenares, Mas queremos, agora, Com todas as forças d’alma, Nossa libertação em teu amor para sempre! Arranca-nos do coração as raízes do mal, Liberta-nos dos desejos inferiores, Dissipa as sombras que nos obscurecem a visão de teu plano divino E ampara-nos para que sejamos Servos leais de tua infinita sabedoria! Dá-nos o equilíbrio de tua lei, Apaga o incêndio das paixões que, por vezes, Irrompe, ainda, No âmago de nossos sentimentos, Ameaçando-nos a construção da espiritualidade superior Conserva-nos em tua inspiração redentora, No ilimitado amor que nos reservaste E que, integrados no teu trabalho de aperfeiçoamento incessante, Possamos atender-te os sublimes desígnios, Em todos os momentos, Convertendo-nos em servidores fiéis de tua luz, para sempre! Assim seja. A linda prece de Alexandre foi a última manifestação naquelas despedidas. Saímos. À nossa volta, as flores exalavam agradável perfume, sob a luz prateada da noite. E, mais ao longe, no céu, brilhavam os astros, como corações de luz, em regiões distantes do universo, reunidos, como nós, uns aos outros, à procura das grandes alegrias da união com Deus.