------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 14 EXPLICAÇÕES DE CLARÊNCIO Meu coração batia acelerado, como se eu fosse um estudante inexperiente diante de examinadores rigorosos. Vendo aquela mulher chorar e pensando na atitude enérgica e serena do Ministro do Auxílio, tremia por dentro, arrependido de haver pedido aquela entrevista. Não seria melhor ficar quieto, aprendendo a esperar pelas decisões dos superiores? Não seria arrogância exagerada de minha parte pedir trabalho de médico naquela casa, onde estava hospedado como doente? A sinceridade de Clarêncio para com a senhora com quem havia conversado antes de mim havia me chamado a atenção para outros aspectos. Quis desistir dos desejos do dia anterior e voltar ao meu quarto, mas já era tarde. O Ministro do Auxílio, como se lesse meus pensamentos, disse em tom firme: - Estou pronto para ouvi-lo. Instintivamente ía pedir qualquer serviço médico em “Nosso Lar”, embora estivesse muito indeciso. Entretanto, a consciência me advertia: por que falar de serviço especializado? Não seria o mesmo que repetir os erros do mundo físico, onde a vaidade não tolera outro tipo de trabalho que não esteja de acordo com os títulos e diplomas? Esta idéia me trouxe algum equilíbrio. Muito confuso, falei: - Tomei a liberdade de vir até aqui para pedir sua ajuda no sentido de voltar a trabalhar. Tenho sentido falta das minhas atividades, agora que a generosidade de “Nosso Lar” me devolveu a saúde. Qualquer trabalho útil me interessa, desde que me permita agir. Clarêncio me olhou um bom tempo, como se quisesse saber das minhas intenções mais íntimas. - Já sei. Você pede qualquer tipo de tarefa, mas, no fundo, sente falta dos seus clientes, do seu consultório, do quadro de serviço com que Deus o abençoou na última encarnação. Até aí, as palavras dele só me traziam conforto e esperança ao coração, o que eu confirmava com a cabeça. Depois de uma pausa longa, ele prosseguiu: - No entanto, é preciso considerar que, às vezes, Deus deposita em nós Sua confiança e nós a traímos, desvirtuando o serviço que nos diz respeito. Você foi médico na Terra, cercado de todas as facilidades no estudo. Nunca soube o preço de um livro, porque seus pais generosos pagavam tudo. Logo depois de formado, começou a ganhar bem, sem as preocupações dos médicos mais pobres, que precisam usar as relações de amizade para criar clientela. Progrediu tão rápido que transformou as facilidades conquistadas em corrida para a morte antecipada do corpo físico. Enquanto jovem e sadio, cometeu vários abusos na profissão que Jesus lhe deu. Diante daquele olhar firme e bondoso, senti uma estranha perturbação. Com muito respeito, argumentei: - Reconheço a verdade de tudo isso, mas, se possível, gostaria de poder resgatar minhas dívidas, dedicando-me aos doentes deste hopital com sinceridade. - Iniciativa muito válida, - disse Clarêncio – mas é preciso notar que toda tarefa profissional na Terra é convite de Deus para que o homem penetre os templos divinos do trabalho. O diploma é apenas uma ficha para nós, mas no mundo costuma representar uma porta aberta a todo tipo de absurdos. Com essa ficha, o homem está habilitado a aprender a servir a Deus seriamente com seu trabalho. Isso se aplica a todas as atividades terrenas, com exceção das convenções humanas. Você recebeu ficha de médico. Entrou para o templo da Medicina, mas sua atitude lá dentro não me permite atender seu pedido. Como posso passá-lo de espírito doente a médico de espíritos doentes, de uma hora para outra, se fez questão de limitar suas observações apenas ao físico? Não nego seus conhecimentos do corpo humano, mas a vida é muito mais que isso. O que você diria de um botânico que se limitasse a estudar somente as cascas secas de algumas árvores? Muitos médicos da Terra preferem limitar a anatomia aos cálculos matemáticos. A matemática é importante, mas não é a única ciência do universo. Como você pode ver agora, o médico não pode se limitar a diagnósticos e terminologias. É preciso penetrar profundamente na alma. No planeta, muitos profissionais da Medicina estão viciados pelos ambientes acadêmicos, porque a vaidade lhes impede de ver mais adiante. Muito poucos conseguem superar os interesses menores e preconceitos comuns, e acabam por enfrentar o sarcasmo do mundo e o deboche dos colegas. Fiquei atordoado. Não conhecia essas considerações sobre a responsabilidade profissional. Fiquei surpreso com a idéia de que o diploma não passasse de mera ficha de ingresso aos serviços de cooperação com Deus. Sem saber o que dizer, esperei que o Ministro do Auxílio retomasse a explicação. - Como pode ver, - continuou ele – você não se preparou adequadamente para os serviços em nossa colônia. - Sr. Clarêncio, - atrevi-me a dizer – entendo a lição e admito meus erros. E fazendo força para não chorar, pedi com humildade: - Aceito qualquer trabalho nesta colônia de realização e paz. Com um olhar de profunda simpatia, ele respondeu: - Meu amigo, não sou portador apenas de notícias tristes. Tenho também palavras de incentivo. Você ainda não pode ser médico em “Nosso Lar”, mas poderá assumir o cargo de estudante assim que possível. Sua situação atual não é das melhores, mas é razoável, tendo em vista os pedidos que chegam ao Ministério do Auxílio em seu favor. - Minha mãe? – perguntei eufórico. - Sim, - explicou o Ministro – sua mãe e outros amigos, no coração de quem você plantou a semente da simpatia. Logo depois da sua vinda, pedi ao Ministério do Esclarecimento que me informasse suas notas para examinar com atenção. Muita irresponsabilidade, muitos abusos e muita negligência, mas, nos 15 anos em que clinicou, também atendeu gratuitamente mais de 6 mil necessitados. Fez isso apenas por divertimento, na maioria das vezes. Mas hoje pode ver que o verdadeiro bem sempre espalha bênçãos em nossos caminhos. Desses beneficiados, 15 não se esqueceram de você e têm enviado até aqui muitos pedidos em seu favor. No entanto, devo deixar claro que mesmo o bem que praticou aos indiferentes conta a seu favor. Concluindo as explicações com um sorriso, Clarêncio destacou: - Você vai aprender novas lições em “Nosso Lar” para, depois de experiências úteis, poder cooperar conosco de forma eficiente, preparando-se para o futuro espiritual. Eu estava muito feliz. Pela primeira vez, chorei de alegria naquela colônia. Ah, quem, na Terra, poderia entender uma alegria assim? Às vezes, é preciso que o coração fique mudo diante do grandioso silêncio divino.