------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 19 A JOVEM DESENCARNADA - Sua neta não come com os outros? – perguntei à dona da casa, tentando uma conversa mais íntima. - Por enquanto, come sozinha – esclareceu D. Laura – A boba ainda está nervosa e abatida. Aqui não deixamos que uma pessoa perturbada e triste coma com os outros. Mau humor, irritação e agitação emitem fluidos pesados e venenosos que se misturam automaticamente aos alimentos. Com a nossa ajuda, minha neta ficou 15 dias no Umbral muito sonolenta. Deveria ter ido para o hospital, mas, por fim, veio ficar sob os meus cuidados diretos. Demonstrei vontade de visitar a recém-desencarnada. Seria muito interessante ouvi-la. Há quanto tempo eu estava sem saber nada do mundo físico? Quando comentei isso com D. Laura, ela não pensou duas vezes. Entramos num quarto confortável e muito grande. Uma jovem muito pálida descansava numa poltrona confortável. Ficou muito surpresa quando me viu. - Este amigo, Eloísa, - explicou a mãe de Lísias, apontando para mim – é um irmão que chegou há pouco tempo do plano físico. A moça me olhou curiosa, embora as olheiras fundas demonstrassem grande cansaço pelo esforço que fazia para se concentrar. Cumprimentou-me, ensaiando um sorriso vago, e eu me apresentei. - Deve estar cansada – comentei. Mas antes que ela respondesse, D. Laura se adiantou para evitar que a moça fizesse esforços cansativos demais: - Eloísa tem estado inquieta, aflita. Em parte, faz sentido. A tuberculose foi longa e deixou marcas profundas nela. Entretanto, não se pode abrir mão do otimismo e da coragem, em qualquer situação. Vi a jovem arregalar os olhos muito negros, tentando conter o choro, mas não adiantou. Seu peito começou a sacudir violentamente e, com o lenço no rosto, não conseguia conter os soluços cheios de angústia. - Bobinha! – disse a doce senhora, abrançando a moça – Você precisa reagir contra isso. Estas impressões são consequência de uma educação religiosa deficiente. Você sabe que sua mãe não vai demorar muito a chegar. Sabe também que não pode contar com a fidelidade do noivo que, de forma nenhuma, está preparado para dedicar seu espírito sinceramente a você na Terra. Ele ainda está longe do amor espiritual sublimado. Claro que se casará com outra e você tem que se acostumar com essa idéia. Nem seria justo exirgir que ele viesse para cá de repente. Sorrindo com ternura, D. Laura acrescentou: - Suponhamos que ele viesse, desobedecendo a lei. Não seria mais difícil e sofrido? Você não acha que pagaria caro demais por se envolver numa coisa dessas? Aqui você sempre terá a ajuda fraterna de amigos carinhosos para se equilibrar. E se você ama mesmo o rapaz, deve procurar se harmonizar para poder ajudá-lo mais tarde. Além disso, sua mãe não vai demorar para chegar. O pranto da moça me causou pena. Tentei dar outro rumo à conversa, tentando tirá-la da crise de choro. - De onde você vem, Eloísa? – perguntei. A mãe de Lísias, agora calada, parecia que também queria ver a moça sair daquele estado. Depois de um bom tempo enxugando os olhos, a moça respondeu: - Do Rio de Janeiro. - Só que você não deve chorar assim. – respondi. – Você é muito feliz. Desencarnou há pouco tempo, está com a própria família e não passou pelas grandes dificuldades do momento da morte. Ela parecia mais animada e falou com mais calma: - Mas você não imagina como tenho sofrido. Oito meses de luta com a tuberculose, mesmo com os tratamentos... a mágoa de haver transmitido a doença para minha mãe... Além disso, não é possível dizer o que sofreu o meu noivo por minha causa... - Ora, ora, não diga isso. – observou D. Laura sorrindo. – Na Terra, sempre pensamos que não existe dor maior que a nossa. Pura cegueira: há milhões de criaturas enfrentando situações realmente cruéis, se compararmos com as nossas experiências. - Mas, vó, o Arnaldo ficou arrasado, desesperado. Tudo isso deixa a gente preocupada – comentou contrariada. - E você acredita mesmo nisso? – perguntou a senhora com carinho. – Andei prestando atenção ao seu ex-noivo várias vezes enquanto você esteve doente. Era natural que ele ficasse tão abalado vendo seu corpo se consumir com a doença, mas ele não está preparado para compreender um sentimento puro. Vai se recuperar bem depressa. Amor iluminado não é para qualquer um. Por isso, mantenha o otimismo. É claro que você poderá ajudá-lo muitas vezes ainda, mas, em matéria de relacionamento conjugal, já vai encontrá-lo casado com outra quando puder ir visitar a Terra. Admirado, percebi a surpresa triste de Eloísa. A doente não sabia como reagir à postura serena e equilibrada da avó. - Será? A mãe de Lísias ensaiou um gesto de muito carinho e falou: - Não seja teimosa, nem tente me desmentir. Vendo que a moça parecia querer uma prova, D. Laura insistiu com delicadeza: - Você não se lembra da Maria da Luz, a colega que levava flores para você todos os domingos? Pois então: assim que o médico declarou confidencialmente que a sua recuperação seria impossível, Arnaldo, mesmo estando muito magoado, começou a envolvê-la com pensamentos diferentes. Agora que você está aqui, não demorará muito para que tome novas decisões. - Ah, que horror, vó! - Horror por quê? Você precisa aprender a pensar nas necessidades dos outros. Seu noivo é um homem comum, não conhece as belezas sublimes do amor espiritual. Por mais que o ame, não vai poder fazer milagres. A auto-descoberta é trabalho pessoal de cada um. Mais tarde, Arnaldo saberá da beleza do seu sentimento, mas, por ora, é preciso deixá-lo viver as experiências de que precisa. - Não me conformo! – respondeu a moça, chorando. – Justamente Maria da Luz, minha melhor amiga! D. Laura, sorriu e falou com jeito: - Mas não seria melhor, mais agradável, que alguém de sua confiança cuidasse dele? Maria da Luz será sempre sua amiga espiritual, enquanto que uma outra mulher poderia criar problemas para que você se aproximasse dele mais tarde. Eu estava totalmente surpreso. Eloísa desatou a chorar. A bondosa senhora percebeu minha intranquilidade e, querendo orientar tanto à neta como a mim, explicou com clareza: - Eu sei por quê você chora tanto, minha filha: egoísmo e vaidade, os maiores e mais antigos vícios humanos. Só que eu não falo para magoá-la, mas para que você enxergue a realidade. Enquanto Eloísa chorava, a mãe de Lísias me convidou para ir à sala novamente, considerando que a doente precisava descansar. Quando nos sentamos, falou em tom confidencial: - Minha neta chegou profundamente cansada. Ficou muito tempo presa ao amor próprio exagerado. O certo para ela seria estar num dos nossos hospitais, mas o Assistente Couceiro achou melhor deixá-lo conosco. Aliás, isso me agrada muito, porque minha querida Teresa, mãe de Eloísa, está para chegar. Mais um pouco de paciência e teremos uma boa solução. Questão de tempo e de tranquilidade.