------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 27 ENFIM O TRABALHO Nunca imaginei algo como o que via agora. Não era como um hospital comum. Era uma série de grandes cabines ligadas entre si e cheias de verdadeiros restos humanos. Ouvia-se um falatório incomum. Gemidos, soluços, frases sofridas ditas ao acaso... Rostos cadavéricos, mãos esqueléticas, faces monstruosas demonstravam a terrível miséria espiritual. Minha primeira impressão foi tão forte que tive que buscar ajuda na prece para poder suportar. Tobias, sem se perturbar, chamou uma colaboradora idosa que atendeu atenciosamente: - Não vejo muitos auxiliares – disse admirado. – O que aconteceu? - O Ministro Flácus – explicou a velhinha com respeito – mandou que a maioria acompanhasse os Samaritanos (1) ao Umbral para os serviços de hoje. - Teremos que multiplicar esforços – respondeu ele com serenidade. – Não temos tempo a perder. - Irmão Tobias!... Irmão Tobias!... por caridade... – gritou um velho, gesticulando como louco agarrado ao leito – Estou sufocando! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra... Socorro! Socorro! Quero sair, sair!... Quero ar, muito ar! Tobias aproximou-se dele, examinou-o com atenção e perguntou: - Por que é que o Ribeiro piorou tanto? - Ele teve uma crise muito forte – explicou a colaboradora – e o assistente Gonçalves disse que a carga de pensamentos negativos, emitidos pelos parentes encarnados, era a causa principal dessa piora de perturbação. Como ainda está muito fraco e não tem força mental suficiente para soltar-se dos laços mais fortes do mundo físico, não tem estado como esperávamos. Enquanto Tobias passava a mão com carinho pela testa do doente, a colaboradora continuava explicando: - Hoje muito cedo ele saiu sem a nossa permissão, correndo como louco. Gritava que estavam lhe chamando em casa, que não podia esquecer a esposa e os filhos tristes, que era crueldade mantê-lo aqui, longe do lar. Lourenço e Hermes fizeram de tudo para que voltasse ao leito, mas não foi possível. Então, decidi aplicar-lhe alguns passes anestésicos. Tirei-lhe as forças e a mobilidade, para o seu próprio bem. - Fez muito bem – disse Tobias, pensativo – Vou pedir providências contra a atitude da família. É preciso que tenham mais com que se preocupar para que deixem Ribeiro em paz aqui conosco. Olhei o doente tentando captar seus pensamentos mais íntimos e só consegui perceber os reflexos de um verdadeiro louco. Ele tinha chamado Tobias como se fosse uma criança que reconhece alguém em quem confia, mas demonstrava não perceber ou entender nada do que se dizia a seu respeito. Percebendo minha admiração, Tobias explicou: - O pobre homem está na fase de pesadelo, em que a alma não vê ou ouve quase nada além de suas próprias preocupações. A pessoa encontra, na vida real, apenas o que acumulou para si mesmo. Ribeiro empolgou-se com muitas ilusões. Quis ainda perguntar de onde vinha tanto sofrimento e saber mais detalhes sobre o histórico do caso, mas lembrei-me dos conselhos da mãe de Lísias, sobre a curiosidade, e fiquei quieto. Tobias disse ao doente algumas palavras carinhosas de esperança e otimismo. Prometeu que iria providenciar recursos para as melhoras, mas pediu-lhe que mantivesse a calma para o próprio bem e que não se aborrecesse tanto por ter que ficar na cama. Ribeiro, tremendo muito, rosto muito pálido, ensaiou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas. Seguimos adiante pelas várias filas de camas bem cuidadas, sentindo a exalação desagradável que havia no ambiente, a qual, como vim a saber mais tarde, vinha da própria mente dos pacientes, dominados por pensamentos negativos sobre as lembranças e sensações terríveis da morte física. - Nestas cabines ficam – explicou Tobias bondosamente – as entidades de natureza masculina. - Tobias!... Tobias!... Estou morrendo de fome e sede! – gritava um paciente. - Socorro, irmão!... – gritava outro. - Pelo amor de Deus!... Não aguento mais!... – exclamava ainda outro. Com o coração partido pelo sofrimento de tantas criaturas, não consegui segurar a pergunta: - Tobias, como é triste ver tantos sofredores e torturados juntos! Por que esta situação tão angustiosa? Tobias respondeu sem se alterar: - Não devemos ver aqui apenas dor e sofrimento. Lembre-se, André, que estes doentes estão tratados e já saíram do Umbral, onde tantas armadilhas esperam por aqueles que não se cuidam. Nestes pavilhões, pelo menos, eles já se preparam para a regeneração. Quanto às lágrimas que derramam, vamos nos lembrar que são os únicos responsáveis pelos próprios sofrimentos. A vida do homem está onde ele mesmo coloca o coração. E, depois de uma pausa em que parecia surdo a tantos gemidos, acrescentou: - São como contrabandistas na vida eterna. - Como assim? – perguntei interessado. Tobias sorriu e respondeu em voz firme: - Acreditavam que os bens terrenos teriam o mesmo valor no plano espiritual. Pensavam que o prazer criminoso, o poder do dinheiro, a revolta contra a lei e a imposição de caprichos passariam pelas fronteiras da morte e entrariam em vigor aqui também, dando a eles oportunidade de novos abusos. Foram como comerciantes irresponsáveis. Esqueceram-se de trocar os bens materiais por créditos espirituais. Quando íam a Londres, por exemplo, trocavam moeda brasileira por moeda britânica. Entretanto, mesmo com a certeza da morte física, não foram capazes de trocar bens terrenos por valores espirituais. Agora, o que se pode fazer? Temos milionários materiais transformados em mendigos espirituais. Realidade absoluta! Tobias não poderia ter sido mais claro. Meu novo instrutor, depois de distribuir um pouco de conforto e esclarecimento a todos, levou-me a uma grande cabine ao lado, em forma de enfermaria, avisando-me: - Vejamos alguns dos pobres semimortos. Narcisa, a colaboradora atenciosa, nos acompanhava. Uma porta se abriu e quase caí com a surpresa impressionante. 32 homens com ares de criminosos estavam imóveis em leitos muito baixos, apresentando apenas leves movimentos respiratórios. Apontando com um gesto, Tobias explicou: - Estes homens sofrem de um sono mais pesado que outros irmãos ignorantes. Nós os chamamos de crentes negativos. Em vez de aceitarem Deus, eram escravos intolerantes do egoísmo. Em vez de crerem na vida, no movimento e no trabalho, acreditavam apenas no nada, na imobilidade e na vitória do crime. Transformaram a encarnação em preparação constante para o grande sono e, como não tinham qualquer idéia do bem a serviço de todos, não dispõem de outro recurso a não ser dormirem vários anos em pesadelos sinistros. Não fui capaz de expressar meu espanto. Com muito cuidado, Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento, diante de meus olhos espantados. Quando terminou a aplicação nos dois primeiros, ambos começaram a expelir uma substância negra pela boca, uma espécie de vômito escuro e viscoso, com terrível odor de cadáver. - São fluidos venenosos que produzem – explicou Tobias, muito calmo. Narcisa fazia o que podia para limpá-los com a rapidez possível, mas era em vão. Muitos deles expeliam a mesma substância mal cheirosa. Foi então que, instintivamente, peguei os utensílios de higiene e comecei a trabalhar com vontade. A colaboradora parecia contente com a ajuda humilde do novo irmão, enquanto Tobias me olhava satisfeito e agradecido. O serviço continuou por todo o dia, custando-me muito suor, e ninguém no mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que começava novamente a própria educação na enfermagem rudimentar. (1) Organização de Espíritos benfeitores de "Nosso Lar". - (Nota do Autor espiritual.)