------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 29 A VISÃO DE FRANCISCO Enquanto Narcisa consolava o doente aflito, fui avisado de que estavam me chamando no aparelho de comunicações. Era D. Laura querendo saber de mim. De fato, havia me esquecido de avisá-la que ficaria trabalhando à noite. Pedi desculpas à minha benfeitora e fiz um breve relatório do que estava acontecendo. Pelo aparelho, a mãe de Lísias parecia muito feliz, participando de minha alegria. Ao final da nossa conversa, disse com bondade: - Muito bem, meu filho! Apaixone-se pelo seu trabalho, embriague-se de serviço útil. Só assim conseguiremos o crescimento espiritual. No entanto, não se esqueça de que esta casa também é sua. Aquelas palavras me deram muita força. Voltando ao trabalho com os doentes, percebi que Narcisa lutava para acalmar um rapaz muito perturbado. Tentei ajudá-la. O pobre moço gritava assustado, com os olhos perdidos no ar: - Ajude-me, pelo amor de Deus! Tenho medo, medo!... E, com os olhos muito agitados de quem passa por profundo pavor, acrescentou: - Irmã Narcisa, lá vem “ele”, o monstro. Estou sentindo os vermes outra vez! “Ele”!... Livre-me “dele”, irmã. Não quero, não quero!... - Cama, Francisco – pedia a amiga dos sofredores. – Você vai se libertar, ter muita serenidade e alegria, mas depende do seu esforço. Faça de conta que sua mente é uma esponja encharcada de vinagre. Você precisa expelir o líquido azedo. Eu vou ajudá-lo, mas a maior parte do trabalho é você mesmo quem deve fazer. O doente demonstrava boa vontade, acalmava-se enquanto ouvia as palavras carinhosas, mas voltava à mesma palidez anterior, soltando novas exclamações. - Mas, irmã, veja... “ele” não me deixa. Já voltou a me atormentar! Veja, veja!... - Estou vendo, Francisco – respondia ela, atenciosa. – Mas é indispensável que você me ajude a expulsá-lo. - Esse fantasma diabólico!... – dizia chorando como criança, causando pena. - Confie em Jesus e esqueça o monstro – dizia Narcisa, piedosamente. – Vamos ao passe. O fantasma vai fugir de nós. E aplicou-lhe fluidos saudáveis e calmantes, que Francisco agradeceu, demonstrando imensa alegria no olhar. - Agora, - disse ele, quando o passe terminou, - estou mais tranquilo. Narcisa ajeitou seus travesseiros e pediu a uma assistente que lhe trouxesse água fluidificada. Aquele exemplo da enfermeira me servia como grande lição. Seja onde for, tanto o bem como o mal são contagiosos. Percebendo minha vontade sincera de aprender, Narcisa se aproximou mais, querendo começar a me ensinar os segredos do serviço. - De quem o doente está falando? – perguntei impressionado. – Por acaso, está sendo assediado por alguma sombra que não consigo ver? A velha trabalhadora das Câmaras de Retificação sorriu com carinho e falou: - Trata-se do seu próprio cadáver. - O quê?!! – respondi espantado. O pobre rapaz era muito apegado ao corpo físico e veio para o plano espiritual depois de um desastre, causado por pura imprudência. Ficou vários dias ao lado do próprio cadáver, em pleno cemitério, sem se conformar com outra idéia. Queria levantar o corpo endurecido de qualquer maneira, tal era a força da ilusão em que havia vivido, e, nesse triste esforço, perdeu muito tempo. Tinha medo de enfrentar o desconhecido e não conseguia livrar-se, nem de leve, das sensações físicas. De nada adiantaram os esforços dos planos mais altos, porque tinha a mente fechada a todo pensamento sobre a vida espiritual. Por fim, os vermes causaram-lhe tanto sofrimento que se afastou do túmulo, completamente apavorado. Começou, então, a vagar nos planos inferiores do Umbral. No entanto, seus pais têm muitos créditos aqui e pediram sua internação na colônia. Os Samaritanos o trouxeram quase à força. Entretanto, seu estado ainda é tão grave que não poderá sair daqui tão cedo. No momento, seu pai está em arriscada missão, longe de “Nosso Lar”. - E vem visitar o doente? – perguntei. - Já veio duas vezes e fiquei muito emocionada observando seu sofrimento discreto. A perturbação do rapaz é tanta que não reconheceu o pai dedicado. Gritava aflito, em triste estado de loucura. O pai, que veio vê-lo acompanhado do Ministro Pádua, do Ministério da Comunicação, pareceu estar muito acima da condição humana enquanto estava com o nobre amigo que conseguiu abrigo para o pobre filho. Ficaram bastante tempo comentando a situação espiritual dos recém-chegados do plano físico. Mas, quando o Ministro Pádua precisou sair por causa de compromissos de trabalho, o pai do rapaz me pediu que o perdoasse pelo gesto humano e ajoelhou-se diante do doente. Pegou suas mãos ansioso, como se quisesse transmitir-lhe fluidos vitais poderosos, e beijou seu rosto, chorando muito. Não pude conter as lágrimas e saí, deixando-os sozinhos. Não sei o que aconteceu depois entre eles, mas notei que, desde esse dia, Francisco melhorou muito. A loucura total reduziu-se a algumas crises cada vez mais espaçadas. - Que história comovente! – exclamei, muio impressionado. – Mas, como ele pode ser perseguido pela imagem do próprio cadáver? - A visão de Francisco – esclereceu Narcisa atenciosa – é o pesadelo de muitos espíritos depois da morte física. Apegam-se demais ao corpo. Não enxergam outra coisa além dele e vivem só dele e para ele, dedicando-lhe verdadeiro culto. E mesmo quando o sopro renovador da morte vem, não o abandonam. Repelem qualquer idéia de espiritualidade e lutam desesperadamente para conservá-lo. No entanto, surgem os vermes vorazes que os expulsam. A essa altura, ficam tão horrorizados com o corpo que adotam atitude completamente oposta. Só que a visão do cadáver, fruto de forte criação mental deles mesmos, causa-lhes profundo tormento à alma. Logo começam as crises e as perturbações, mais ou menos longas, e sofrem muito até que consigam eliminar completamente o próprio fantasma. Percebendo minha comoção, Narcisa ainda disse: - Graças ao Pai, tenho aproveitado bastante nesses últimos anos de serviço! Como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos encarnados! Isso deve nos preocupar, mas não nos afligir. A lagarta se apega ao casulo inerte, mas a borboleta alcará vôo. A semente é quase imperceptível e, no entanto, o carvalho será gigante. A flor morta volta para a terra, mas o perfume vive no céu. Todo embrião de vida parece estar adormecido. Não devemos esquecer estas lições. Narcisa parou de falar e eu não me atrevi a interromper seu silêncio.