------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 30 HERANÇA E EUTANÁSIA Ainda não havia me recuperado da surpresa, quando Salústio se aproximou, informando Narcisa: - Nossa irmã Paulina quer ver o pai doente, no Pavilhão 5. Antes de permitir, achei melhor consultar você, porque o doente continua em crise muito aguda. Com os gestos de bondade que lhe eram característicos, Narcisa ressaltou: - Mande-a entrar agora mesmo. Ela tem permissão da Ministra, já que, em seu tempo livre, está trabalhando pela reconciliação da família. Enquanto o mensageiro se despedia apressado, a enfermeira se dirigiu a mim e acrescentou: - Você vai ver que filha dedicada! Logo depois Paulina estava na nossa frente, esbelta e linda. Usava uma túnica muito leve, de seda luminosa. Uma beleza de anjo marcava seu rosto, mas os olhos demonstravam grande preocupação. Narcisa nos apresentou com delicadeza e, sentindo que poderia confiar em mim, Paulina perguntou, meio apreensiva: - E papai, minha amiga? - Um pouco melhor – explicou a enfermeira. – No entanto, ainda apresenta fortes desequilíbrios. - É lamentável – respondeu a moça, - nem ele, nem os outros cedem em suas idéias. Sempre o mesmo ódio e a mesma displicência. Narcisa nos pediu que a acompanhássemos e logo estávamos diante de um velho de aparência desagradável. Olhar duro, cabelo desarrumado, rugas profundas, lábios retraídos, causava mais pena do que simpatia. Tentei controlar as vibrações inferiores que sentia, para poder enxergar o irmão espiritual acima do sofredor. A impressão de repugnância desapareceu, deixando minhas idéias mais claras. Apliquei a lição a mim mesmo. Como será que tinha chegado ao Ministério do Auxílio? Meu rosto desesperado deveria ser horrível. Quando examinamos o sofrimento dos outros, olhando nossos próprios problemas, sempre achamos lugar para o amor fraterno no coração. O velho doente não disse uma palavra de ternura para a filha que o cumprimentou com carinho. Pelo olhar áspero e cheio de revolta, parecia uma fera humana enjaulada. - Papai, o senhor se sente melhor? – perguntou com imenso carinho de filha. - Ai!, ai!... – gritou o doente em voz forte. – Não consigo esquecer o infame, não consigo descansar o pensamento... Ainda o vejo a meu lado, dando-me o veneno mortal!... - Não diga isso, papai – pediu a moça delicadamente. – Lembre-se de que Edelberto foi recebido, em nossa casa, como filho enviado por Deus. - Meu filho?! – gritou o infeliz. – Nunca, nunca!... É um criminoso sem perdão, filho do inferno!... Paulina falava agora com os olhos cheios d’água. - Vamos ouvir a lição de Jesus, papai, que nos recomenda amarmos uns aos outros. Passamos por experiências em família na Terra para alcançar o verdadeiro amor espiritual. Aliás, é indispensável reconhecer que só existe um Pai realmente eterno, que é Deus. Mas o Senhor da Vida permite que sejamos pais ou mães no mundo para que possamos aprender a fraternidade plena. Nossos lares terrenos são núcleos de purificação dos sentimentos ou templos de união sublime, a caminho da solidariedade universal. Lutamos e sofremos muito até merecermos o verdadeiro título de irmão. Somos todos uma só família, na Criação, com a bênção de um único Pai. Ouvindo sua voz meiga, o doente começou a chorar muito. - Perdoe Edelberto, papai! Procure sentir nele, não o filho leviano, mas o irmão necessitado de esclarecimento. Estive em casa hoje e vi muitas perturbações. Daqui desse leito, o senhor envolve toda a nossa família em energias de amargura e incompreensão. E eles fazem o mesmo com o senhor. O pensamento alcança o alvo em vibrações sutis, por mais distante que esteja. A troca de ódio e desentendimento causa ruína e sofrimento às almas. Mamãe foi internada num hospício há alguns dias, destruída pela angústia. Amália e Cacilda entraram em disputa judicial com Edelberto e Agenor, pelos grandes patrimônios materiais que o senhor juntou em vida. Uma situação terrível, cujas sombras poderiam diminuir se o senhor não estivesse com a mente completamente envolvida pelo desejo de vingança. Vemos o senhor aqui em estado grave. Na Terra, mamãe está louca e os filhos perturbados, odiando-se uns aos outros. Em meio a tanto desequilíbrio, uma fortuna de milhões. E de que vale tanto dinheiro se não há ninguém feliz? - Mas eu deixei um enorme patrimônio para a família – disse o infeliz, com rancor, - desejando o bem estar de todos... Paulina não o deixou terminar a frase, falando novamente: - Quando se trata de riqueza material, nem sempre sabemos interpretar o que realmente é benefício. Se o senhor houvesse garantido o futuro dos nossos, dando-lhes tranquilidade moral e trabalho honesto, seu esforço teria valido muito. Mas, às vezes, papai, costumamos juntar dinheiro apenas por vaidade e ambição. Querendo viver acima dos outros, só nos lembramos disso nas situações extremas da vida. São raras as pessoas que se preocupam em juntar conhecimentos nobres, tolerância, humildade, compreensão. Impomos aos outros os nossos caprichos, afastamo-nos dos serviços de Deus, esquecemos de trabalhar nosso espírito. Ninguém nasce na Terra só para juntar dinheiro nos cofres e bancos. É natural que a vida humana precise da ajuda divina e é justo que Deus não dispense a contribuição de mordomos fiéis que saibam administrar com sabedoria. Mas ninguém será mordomo de Deus com mesquinhez e desejo de poder. Esse tipo de vida arruinou nossa família. Em vão tentei levar socorro espiritual à nossa casa em outros tempos. Enquanto o senhor e mamãe se sacrificavam para aumentar os bens, Amália e Cacilda esqueceram do serviço útil e, como preguiçosas da banalidade social, casaram-se com outros preguiçosos que só pensavam nas vantagens financeiras. Edelberto formou-se médico, mas afastou-se completamente da Medicina, exercendo a profissão de vez em quando, como se fosse um trabalhador que visita o trabalho por curiosidade. Todos arruinaram grandes oportunidades espirituais, distraídos pelo dinheiro fácil e apegados à idéia de herança. Demonstrando grande pavor, o doente acrescentou: - Maldito Edelberto! Filho criminoso e ingrato! Matou-me sem dó, quando eu ainda precisava fazer meu testamento! Cafajeste!... Cafajeste!... - Cale-se, papai. Tenha compaixão de seu filho. Perdoe e esqueça!... Mas o velho continuou a praguejar em voz alta. A jovem já estava para discutir com o pai, quando Narcisa a olhou e chamou Salústio para atender o doente em crise. Paulina se calou, afagando a cabeça do pai e contendo, com muito custo, as lágrimas. Logo depois, saí com elas, muito impressionado. As duas amigas conversaram em particular por alguns minutos. Em seguida, Paulina se despediu com frases gentis, mas com imensa tristeza no olhar cheio de preocupação. A sós novamente, Narcisa disse bondosa: - Em geral, os casos de herança são extremamente complicados. Com raras exceções, são um peso enorme para quem deixa e para quem recebe. E neste caso, além de tudo, temos também a eutanásia. A ambição pelo dinheiro causou esquisitices e desentendimentos para toda a família de Paulina. Pais mesquinhos possuem filhos esbanjadores. Estive na casa de Paulina quando o irmão, Edelberto, médico aparentemente distinto, deu ao pai, já nos últimos momentos, a chamada “morte suave”. Fizemos de tudo para evitar, mas foi em vão. O pobre rapaz queria mesmo apressar a morte, por questões financeiras. Agora temos o resultado da irresponsabilidade: ódio e doença. E com um expressivo gesto, Narcisou concluiu: - Deus criou seres e céus, mas nós costumamos nos transformar em espíritos diabólicos, criando nossos próprios infernos individuais.