------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 34 COM OS RECÉM-CHEGADOS DO UMBRAL Os cães, conduzidos por homens fortes, pararam ao nosso lado. Logo em seguida, estávamos todos percorrendo os corredores de entrada das Câmaras de Retificação. Muitos colaboradores andavam com pressa. Alguns doentes foram levados para dentro, com muita ajuda. Além de Narcisa, Salústio e outros companheiros, os Samaritanos também trabalhavam com amor para socorrer. Alguns doentes comportavam-se com humildade e resignação, mas outros reclamavam aos gritos. Procurando ajudar também, notei que uma senhora tentava descer do último carro com muita dificuldade. Notando que eu estava próximo, disse com espanto: - Tenha piedade, meu filho! Ajude-me, pelo amor de Deus!... Aproximei-me com interesse. - Cruz, credo! – continuou, benzendo-se – Graças a Deus estou longe do purgatório... Ah, que malditos demônios me torturavam lá! Que inferno! Mas os anjos do Senhor sempre chegam. Ajudei-a a descer, cheio de curiosidade. Pela primeira vez ouvia alguém que me parecia equilibrada e calma falar do inferno e do purgatório. Mais por malícia do que outra coisa, perguntei: - Está vindo assim de tão longe? Falando assim, fingia sincero interesse fraternal, exatamente como fazia na Terra, esquecendo completamente os sábios conselhos da mãe de Lísias. A pobre criatura, percebendo meu interesse, começou a explicar: - De muito longe. Na Terra, meu filho, fui mulher de muito bons costumes, fiz muita caridade, rezei sempre como sincera devota. Mas, quem sabe do que Satanás é capaz? Quando saí do mundo, me vi cercada de seres monstruosos, que me levaram de sopetão. No começo, pedi a proteção dos arcanjos celestes, mas os espíritos diabólicos me mantiveram presa. Só que eu não perdia a esperança de ser libertada, de uma hora para a outra, porque deixei algum dinheiro para que missas mensais fossem rezadas por meu descanso. Sempre com o vício de perseguir assuntos que não me diziam respeito, insisti: - Que interessante! E não tentou saber por quê ficou tanto tempo lá? - De jeito nenhum. – respondeu, benzendo-se. – Como disse, na Terra fiz o possível para ser uma boa religiosa. Você sabe que ninguém está livre de pecar. Meus escravos provocavam brigas e intrigas e, mesmo que o dinheiro me garantisse vida tranquila, às vezes era necessário aplicar disciplinas. Os feitores eram muito exigentes e não podia hesitar nas ordens diárias. De vez em quando, algum negro morria no tronco como exemplo geral. Outras vezes era obrigada a vender as mães escravas sem os filhos, para garantir a ordem. Nessas ocasiões, ficava com muito remorso, mas confessava-me todos os meses, quando o Padre Amâncio visitava a fazenda e, depois de comungar, estava livre dessas faltas menos graves. Afinal, depois de receber a absolvição no confessionário e engolir a hóstia sagrada, estava novamente em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus. A essa altura, escandalizado com o que ouvia, comecei a doutrinar: - Minha irmã, essa paz espiritual era falsa. Os escravos são nossos irmãos também. Para Deus, os filhos dos servos são iguais aos filhos do patrão. Ao me ouvir dizer aquilo, bateu o pé de forma autoritária e disse irritada: - Ah, mas não mesmo! Escravo é escravo! Se não fosse assim, a religião nos ensinaria o contrário. Pois se havia cativos até na casa dos bispos, por que não em nossas fazendas? Quem iria cuidar da terra se não fossem eles? E, acredite, sempre permiti que ficassem em minhas senzalas como verdadeira honra!... Em minha fazenda nunca vinham ao local das visitas, a não ser para cumprir minhas ordens. Padre Amâncio, nosso virtuoso sacerdote, disse-me, na confissão, que os africanos são os piores entes do mundo, nascidos só para servir a Deus no cativeiro. E você acha que eu poderia me sentir constrangida ao lidar com esse tipo de criatura? Não tenha dúvida: os escravos são seres perversos, filhos de Satã! Fico até admirada com a paciência com que aguentei essa gente na Terra. E devo dizer que saí de repente do corpo, por ter ficado chocada com a determinação da Princesa de libertar esses bandidos. Já faz muito tempo, mas me lembro muito bem. Já estava doente há muitos dias e, quando o Padre Amâncio veio da cidade trazendo a novidade, piorei de repente. Como iríamos ficar no mundo, vendo esses criminosos em liberdade? Com certeza, iriam querer nos escravizar. E não era preferível morrer do que servir gente dessa laia? Lembro que me confessei com dificuldade, recebi as palavras do padre, mas parece que os demônios também são africanos e estavam me esperando, pois fui obrigada a suportar sua presença até hoje. - E quando foi que veio para cá? - Em maio de 1888. Senti estranha sensação de espanto. Com os olhos embaçados, a velhinha olhou ao longe e disse: - Vai ver que meus sobrinhos se esqueceram de pagar as missas. No entanto, eu deixei isso bem claro em meu testamento. Ía responder com idéias novas de fraternidade e fé, na tentativa de elevar seus pensamentos, mas Narcisa se aproximou e disse, com bondade: - André, meu amigo, você se esqueceu de que estamos lidando com doentes e perturbados? Que utilidade pode ter esse tipo de informação? Os loucos falam sem parar e quem os ouve, desperdiçando energia espiritual, pode estar tão louco quanto eles. Aquilo foi dito com tanta bondade que fiquei vermelho de vergonha, sem coragem de responder. - Não se impressione. – disse a enfermeira delicadamente – Vamos atender aos irmãos perturbados. - Mas, você acha que também estou perturbada? – perguntou a velhinha, ofendida. E Narcisa, demonstrando excelentes qualidades de psicóloga, assumiu expressão de fraternidade carinhosa e disse: - Não, minha amiga, não é isso o que estou dizendo, mas acho que você deve estar muito cansada. Seu esforço no purgatório foi muito longo... - Isso mesmo, isso mesmo. – respondeu a recém-chegada do Umbral – Você não imagina o que tenho sofrido, torturada pelos demônios... A pobre mulher ía continuar com a mesma história, mas Narcisa, mostrando-me como agir nessas situações, disse: - Não comente o mal. Já sei tudo o que aconteceu de triste e doloroso a você. Descanse, lembrando que vou ajudá-la. E, no mesmo instante, falou a um dos assistentes: - Zenóbio, vá ao departamento feminino e chame Nemésia, em meu nome, para que venha buscar mais uma irmã para os leitos de tratamento.