------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 35 UM ENCONTRO ESPECIAL Enquanto guardavam o material da viagem e os animais de serviço, ouvi uma voz carinhosa a meu lado: - André! Você por aqui? Que bom! Que surpresa boa!... Virei surpreso e reconheci o Samaritano que falava comigo, o velho Silveira, conhecido meu, de quem meu pai, um dia, como negociante intransigente, tirou todos os bens. Fiquei naturalmente envergonhado. Quis cumprimentá-lo, responder ao gesto de carinho, mas, de repente, me senti paralisado pela lembrança do passado. Ali, onde a sinceridade transparecia de todos os rostos, eu não seria capaz de fingir. Foi o próprio Silveira que, percebendo a situação, tentou me ajudar, dizendo: - Sinceramente, não sabia que você havia desencarnado e nem imaginava que estaria aqui em “Nosso Lar”. Sentindo sua gentileza sincera, abracei-o comovido, tentando dizer palavras de reconhecimento. Tentei dar algumas explicações sobre o passado, mas não consegui. No fundo, eu queria pedir desculpas pelo que meu pai fez, levando-o à completa falência. Naquele momento, revia mentalmente a imagem do passado. A memória mostrava-me novamente o quadro vivo. Parecia estar ouvindo a sra. Silveira quando foi à nossa casa explicar o que estava acontecendo. O marido estava doente havia muito tempo e a situação havia se complicado muito com a doença dos dois filhos. As necessidades eram muitas e os tratamentos, muito caros. A pobre mulher chorava, esfregando os olhos com o lenço. Pedia mais tempo, implorava alternativas justas. Humilhava-se, olhando com tristeza minha mãe, como se buscasse ajuda e compreensão no coração de outra mulher. Lembrei-me que minha mãe interferiu e pediu a meu pai que esquecesse os documentos assinados, abrindo mão de qualquer ação judicial. Mas meu pai, habituado a grandes negócios e tendo a sorte a seu lado, não entendia a condição do pequeno comerciante. Não deu o braço a torcer. Disse que lamentava o que estava acontecendo, que ajudaria o cliente amigo, deixando claro, no entanto, que não tinha outra alternativa quanto aos débitos já existentes, a não ser cumprir o que mandava a lei. Afirmou que não podia transgredir as regras do seu próprio estabelecimento comercial. As promissórias seriam acionadas. E consolava a esposa aflita comentando a situação de outros clientes que, para ele, parecia pior. Lembrei-me dos olhares de simpatia de minha mãe para a pobre mulher em lágrimas. Meu pai ficou completamente indiferente e, quando a sra. Silveira se despediu, chamou a atenção de minha mãe, proibindo-a de se intrometer nos negócios. A pobre família teve que arcar com a falência total. Relembrava, claramente, o instante em que até o piano da sra. Silveira foi retirado da casa deles para pagar as últimas contas. Quis pedir desculpas, mas não encontrava frases apropriadas, porque, naquele momento, pensava como meu pai e o incentivava a agir daquela forma. Achava minha mãe sentimentalista demais e fiz com que ele continuasse com a ação até o fim. Eu era muito jovem ainda e a vaidade falava mais alto. Não queria saber se os outros sofriam, não conseguia enxergar as necessidades dos outros. Só via os direitos da minha família, mais nada. E, nesse aspecto, tinha sido implacável. Era inútil minha mãe tentar me convencer. Derrotados, os Silveira foram para o interior, completamente miseráveis. Nunca mais havia tido notícias daquela família, que, com certeza, nos odiava. Essas lembranças íam se juntando em minha mente em segundos. Num instante, havia reconstruído todo o passado de sombras. E, enquanto mal disfarçava o constrangimento, Silveira, sorrindo, me trazia de volta à realidade: - Tem visitado o “velho”? Aquela pergunta, demonstrando carinho espontâneo, aumentava minha vergonha. Expliquei que, apesar de querer muito, ainda não havia conseguido. Silveira percebeu meu constrangimento e, com pena do meu estado, talvez, procurou afastar-se. Abraçou-me com respeito e voltou ao trabalho. Muito confuso, procurei Narcisa para pedir conselhos. Expliquei o que havia acontecido, contando os detalhes da história na Terra. Ela me ouviu com paciência e disse com carinho: - Não há nada de estranho nisso. Há algum tempo passei pela mesma situação. Já tive a felicidade de encontrar aqui muitas pessoas que prejudiquei na Terra. Hoje sei que isso é uma bênção de Deus, que nos dá novas oportunidades de recuperar simpatias, recompondo a corrente espiritual. E, tentando enfatizar o que dizia, perguntou: - Você aproveitou a bela oportunidade? - O que você quer dizer? - Desculpou-se com o Silveira? É sempre uma grande alegria reconhecer os próprios erros. Agora que você já pode examinar a própria consciência com bastante luz, reconhecendo ser o errado, não perca a oportunidade de reatar a amizade. Vá, André, e abrace-o de outro jeito. Aproveite o momento, porque o Silveira é muito ocupado e talvez não tenha outra chance tão cedo. Percebendo minha indecisão, Narcisa acrescentou: - Não tenha medo do fracasso. Toda vez que nos sintonizamos com o bem, Jesus no dá o que for necessário para que tenhamos sucesso. Tome a iniciativa. Fazer boas ações, quaisquer que sejam, é sempre uma grande honra para a alma. Lembre-se do Evangelho e vá atrás da reconciliação. Não vacilei mais. Corri para encontrar Silveira e falei com sinceridade, pedindo que perdoasse as ofensas e erros cometidos por mim e por meu pai. - Você entende, - destaquei – estávamos cegos. E, nesse estado, não víamos nada, a não ser o interesse próprio. Quando o dinheiro se junta à vaidade, Silveira, fica difícil manter-se longe do mau caminho. Silveira, muito comovido, não me deixou terminar: - Ora, André, será que existe alguém que não tenha errado? Por acaso, você acha que eu mesmo não tenho erros? Além disso, seu pai foi meu verdadeiro instrutor. Eu e meus filhos lhe devemos grandes lições de esforço pessoal. Sem aquela atitude enérgica, que nos tirou tudo o que tínhamos, como poderíamos ter progredido espiritualmente? Aqui todos os nossos conceitos sobre a vida humana ficam diferentes. Nossos inimigos não são realmente inimigos e, sim, benfeitores. Não se deixe levar por lembranças tristes. Vamos trabalhar com Deus, reconhecendo que a vida é infinita. E, vendo meus olhos úmidos, abraçou-me com carinho e concluiu: - Não perca tempo com isso. Em breve quero ir com você visitar seu pai. Abracei-o em silêncio, sentindo nova alegria na alma. Parecia que, em algum canto escuro do coração, uma divina luz havia se acendido para sempre.