------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 38 O CASO TOBIAS No terceiro dia de trabalho, Tobias me fez uma agradável surpresa. Quando terminamos o trabalho no fim da tarde, como outros se encarregaram do turno da noite, ele me levou à sua casa, onde belos momentos de alegria e aprendizado me esperavam. Assim que chegamos, apresentou-me duas senhoras, uma mais idosa e uma entrando na idade madura. Explicou que a primeira era sua esposa e a outra, uma irmã. Hilda e Luciana foram muito atenciosas e gentis. Reunidos na bela biblioteca de Tobias, examinamos livros maravilhosos, tanto pela capa, como pelo conteúdo espiritual. D. Hilda me convidou para ir ao jardim, para que pudesse ver de perto alguns caramanchões muito bonitos. Cada casa em “Nosso Lar” parecia se especializar no cultivo de determinadas flores. Na casa de Lísias, havia centenas de glicínias e lírios. Já na casa de Tobias, víamos hortênsias em meio a um tapete de violetas. Belos caramanchões de árvores delicadas, parecidas com o bambu ainda novo, tinham uma trepadeira diferente em cima, que unia a copa de várias árvores como se fosse enorme laço florido, formando um lindo teto. Não sabia expressar minha admiração. O ar estava carregado de delicioso perfume. Comentávamos a beleza da paisagem geral, vista daquele ângulo do Ministério da Regeneração, quando Luciana nos chamou para um lanche. Encantado com o ambiente simples, cheio de fraternidade sincera, não sabia como agradecer a Tobias a generosidade. Num certo momento da conversa, Tobias disse sorridente: - A bem da verdade, você ainda é novato em nosso Ministério e talvez não saiba do meu caso familiar. As duas mulheres sorriram ao mesmo tempo e, percebendo minha curiosidade muda, o dono da casa continuou: - Aliás, temos vários outros casos idênticos na colônia. Imagine que fui casado duas vezes... E, apontando as duas senhoras, prosseguiu com bom humor: - Acho que não preciso dizer quem foram as esposas... - Ah!, sim. – gaguejei muito confuso. – Quer dizer que D. Hilda e Luciana compartilharam da sua experiência na Terra... - Isso mesmo – respondeu tranquilo. Nesse meio tempo, D. Hilda tomou a palavra, falando comigo: - Perdoe o Tobias, André. Ele está sempre disposto a falar do passado, quando nos encontramos com alguma visita recém-chegada da Terra. - E não é motivo de alegria – respondeu Tobias – vencer o ciúme inferior, conquistando, ao menos, alguma parcela de fraternidade verdadeira? - De fato, - respondi, - o problema interessa muito a todos nós. Há milhões de pessoas casadas pela segunda vez no plano físico. Como fica essa importante questão, considerando que o espírito é eterno? Sabemos que a morte do corpo não nos destrói, apenas nos transforma. Os laços da alma continuam pelo tempo a fora. Como agir? Condenar o homem ou a mulher que se casaram mais de uma vez? Só que aí teríamos milhões de pessoas nessa situação. Muitas vezes lembrei, com interesse, a passagem evangélica em que Jesus nos promete a vida dos anjos, falando do casamento na eternidade. - Mas precisamos reconhecer, com todo respeito a Jesus, – comentou Tobias bondoso – que ainda não estamos nos plano dos anjos e, sim, no dos homens desencarnados. - Mas, então, como resolvemos essa questão aqui? – perguntei. Tobias sorriu e disse: - Simplesmente reconhecendo que entre os animais e o homem há uma enorme sequência de graus. Assim como de nós aos anjos há uma distância imensa a caminhar. Ora, como podemos desejar a companhia de anjos se ainda não somos fraternos uns com os outros? Claro que existem espíritos mais fortes, que se mostram superiores a todos os obstáculos do caminho, com enorme força de vontade, mas a maioria não pode abrir mão de pontes ou socorro de amigos espirituais. Em vista dessa verdade, esses casos são resolvidos com base na fraternidade pura, tendo em mente que o verdadeiro casamento é de almas e essa união ninguém pode desfazer. Nesse momento, Luciana, que estava quieta, comentou: - Mas é bom explicar que tudo isso, felicidade e compreensão, devemos ao espírito de amor e renúncia de Hilda. A sra. Tobias, no entanto, demonstrando humildade, comentou: - Deixem disso. Nada de me atribuir qualidades que não tenho. Vou tentar resumir nossa história, para que o nosso visitante conheça meu difícil aprendizado. E, depois de um gesto de amabilidade, continuou: - Tobias e eu nos casamos muito jovens na Terra, de acordo com nossas afinidades espirituais. Acho que não é necessário falar da felicidade de duas almas que se amam de verdade e se unem no casamento. No entanto, acho que a morte tinha ciúme da nossa felicidade e me tirou do mundo quando tive o nosso segundo filho. É impossível descrever nosso sofrimento. Tobias chorava sem consolo e eu não tinha forças para acalmar minha angústia. Passei dias pesados no Umbral. Não tive outra escolha a não ser continuar agarrada ao marido e ao casal de filhos, surda a todo esclarecimento que os amigos espirituais me enviavam por intuição. Queria lutar, como a leoa ao lado dos filhotes. Reconhecia que Tobias precisava reorganizar a família, que as crianças necessitavam de orientação maternal. A situação estava ficando muito difícil. Minha cunhada solteira não tolerava as crianças e a cozinheira apenas fingia carinho. As duas babás jovens agiam com completa insensatez. Tobias não tinha como ficar adiando a decisão mais sensata e, um ano depois do meu desencarne, casou-se com Luciana, contrariando minha vontade. Ah, se você soubesse como me revoltei... Parecia uma loba ferida. Foi aí que Jesus me permitiu a visita de minha avó materna, desencarnada havia muitos anos. Ela chegou como quem não quer nada, surpreendendo-me muito, e sentou-se ao meu lado. Em seguida, pôs-me no colo, como em outros tempos, e me perguntou com tristeza: “- O que é isso, Hilda? Qual é o seu papel na vida? Você é uma leoa ou uma alma consciente de Deus? Quer dizer que Luciana pode servir de mãe para os seus filhos, cuidar da sua casa e do seu jardim, suportar o mau humor do seu marido e não pode assumir o lugar provisório de companheira ao lado dele? É assim que você agradece as bênçãos divinas e retribui aqueles que o ajudam? Você quer uma escrava e despreza uma irmã? Hilda, Hilda!... onde estão as lições de Jesus que você aprendeu? Ah, minha pobre neta!...” Abracei-a, então, chorando, e abandonei a antiga casa, vindo com ela para os serviços em “Nosso Lar”. Desde essa época, passei a ver Luciana como mais uma filha. Trabalhei muito, dediquei-me ao estudo sério, ao melhoramento espiritual de mim mesma, tentei ajudar a todos em nossa casa, sem distinção. Tobias constituiu nova família, que passou a ser minha família também, pelos laços espirituais. Mais tarde, ele desencarnou e se juntou a mim, acompanhado de Luciana, que veio também nos encontrar, para nossa alegria. E essa é, André, a nossa história... Mas Luciana tomou a palavra e comentou: - Ela só não disse quanto tem se sacrificado por nós, dando-me muitos exemplos. - O que você está dizendo, Luciana? – perguntou a sra. Tobias, acariciando sua mão. Luciana sorriu e continuou: - Graças a Jesus e a ela, aprendi que há casamentos por amor, por fraternidade, por provação, por dever, e, no dia em que Hilda me beijou, perdoando-me, senti que meu coração se libertava do monstro do ciúme inferior. O casamento espiritual realiza-se de alma para alma. Os outros são todos sagrados, mas representam apenas alternativas indispensáveis para atender necessidades ou processos de resgate. - E assim contruímos nosso novo lar, com base na verdadeira fraternidade – concluiu o dono da casa. Aproveitando o silêncio que se fez, perguntei: - Mas como é o casamento aqui? - Pela sintonia vibratória, - explicou Tobias – ou então, para ser mais preciso, pela afinidade máxima ou completa. Sem poder controlar minha curiosidade, esqueci a discrição e perguntei: - E qual é a situação de Luciana nesse caso? Antes que o casal respondesse, foi a própria Luciana que explicou: - Quando me casei com Tobias viúvo, já sabia que, provavelmente, seria uma união fraternal, acima de tudo. Isso foi o mais difícil de entender. Aliás, é lógico que, se os cônjuges não se entendem, são tristes e agitados, estão unidos fisicamente, mas não estão espiritualmente sintonizados. Queria perguntar mais coisas, mas não encontrava palavras que disfarçassem meu atrevimento. D. Hilda, no entanto, percebeu meus pensamentos e explicou: - Fique tranquilo. Luciana está em noivado espiritual. Seu companheiro de várias encarnações voltou ao mundo há alguns anos, reencarnando antes dela. No próximo ano, ela irá também. Creio que o grande momento será em São Paulo. Sorrimos todos com alegria. Nesse instante, Tobias foi chamado com urgência para atender um caso grave nas Câmaras de Retificação. Por isso, foi preciso terminarmos a conversa.