------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 40 QUEM PLANTA, COLHE Eu não sabia explicar porque queria tanto visitar o departamento feminino das Câmaras de Retificação. Comentei o meu desejo com Narcisa e ela se dispôs a me ajudar. - Quando Deus nos chama para um determinado lugar, - disse com bondade – é porque alguma tarefa nos espera lá. Na vida, cada situação tem uma finalidade definida... Não se esqueça disso quando fizer visitas aparentemente casuais. Se os nossos pensamentos estiverem focados no bem, não é difícil identificar as sugestões divinas. No mesmo dia, a enfermeira foi comigo procurar Nemésia, grande colaboradora daquele setor. Não foi difícil encontrá-la. Em filas de leitos muito brancos e bem cuidados, estavam mulheres que mais pareciam trapos humanos. Aqui e ali, ouviam-se gemidos terríveis. Mais adiante, palavras de angústia profunda. Nemésia, que demonstrava a mesma generosidade de Narcisa, falou com bondade: - Você já deve estar acostumado com este quadro. No departamento masculino, a situação é praticamente a mesma. E fazendo um gesto para a colega, disse: - Narcisa, por favor, acompanhe André e mostre-lhe os serviços que achar mais interessantes para o seu aprendizado. Fiquem à vontade. Minha amiga e eu falávamos da vaidade humana sempre voltada para os prazeres físicos, fazendo comentários e observações, quando chegamos ao Pavilhão 7. Ali estavam algumas dezenas de mulheres, em leitos separados por distância regular, um a um. Estava observando o rosto das doentes, quando percebi alguém que me chamou a atenção. Quem seria aquela mulher amargurada, de aparência especial? Tinha o rosto prematuramente envelhecido e os lábios contraídos numa expressão de ironia e resignação. Os olhos, embaçados e tristes, estavam defeituosos. Com a memória agitada e o coração apertado, logo localizei-a no passado. Era Elisa. Aquela mesma Elisa que conheci ainda jovem. Estava diferente por causa do sofrimento, mas não havia qualquer dúvida. Lembrei, perfeitamente, o dia em que ela, humilde, foi à nossa casa com uma antiga amiga de minha mãe, que aceitou suas recomendações e a contratou para o serviço doméstico. No começo, nada de anormal. Depois, intimidade excessiva, de quem abusa da própria autoridade em relação à condição humilde de outra pessoa. Elisa me pareceu muito leviana e, quando estava sozinha comigo, comentava descaradamente certas aventuras da sua mocidade, piorando nossa situação. Lembrei também o dia em que minha mãe me chamou para dar alguns conselhos. Aquela intimidade, não pegava bem – dizia ela. Era justo que tratássemos a empregada com carinho e respeito, mas era melhor manter uma certa distância. Mesmo assim, fui irresponsável e levei muito longe nossa amizade. Muito envergonhada, Elisa saiu de nossa casa, sem coragem de me acusar de nada. O tempo passou, reduzindo o fato a acontecimento passageiro em minha mente. No entanto, o episódio continuava vivo. Na minha frente, Elisa estava agora vencida e humilhada! Por onde será que andou a pobre criatura, levada tão jovem a sofrimentos tão grandes? De onde vinha? Ah!... dessa vez não era o Silveira, para que eu pudesse dividir o erro com meu pai. A dívida agora era só minha. Cheguei a tremer de tanta vergonha daquelas lembranças, mas, como um menino ansioso por ser desculpado pelos erros cometidos, procurei Narcisa para pedir ajuda. Eu mesmo me admirava da confiança que sentia naquelas santas mulheres. Talvez nunca tivesse coragem de pedir ao Ministro Clarêncio as explicações que havia pedido à mãe de Lísias e, provavelmente, tomaria outra atitude naquele momento se fosse Tobias que estivesse comigo. Considerando que toda mulher generosa e cristã é mãe, fui até a enfermeira, com mais confiança do que nunca. Pela forma como me olhou, creio que Narcisa já tinha entendido tudo. Comecei a falar, fazendo força para não chorar, mas, no meio da história, minha amiga falou: - Não precisa continuar. Já imagino como terminou a história. Não se entregue a pensamentos negativos. Sei como você está se sentindo, por experiência própria. No entanto, se Deus permitiu que você reencontrasse essa moça, é porque acha que você já tem condições de resgatar a dívida. Vendo que eu continuava indeciso, completou: - Não tenha medo. Aproxime-se dela e reconforte-a. Todos nós, André, encontramos, em nosso caminho, os frutos do bem ou do mal que tivermos plantado. Isso é certo, é realidade universal. Situações como esta têm me feito muito bem. Bem aventurados os devedores que já têm condições de pagar. E percebendo que eu estava decidido a fazer o que fosse necessário para acertar as contas, acentuou: - Vamos, mas não deixe que ela saiba quem você é, por enquanto. Faça isso depois de ajudá-la efetivamente. Isso não será difícil, já que ainda sofre de cegueira temporária. Pelas características de sua aura, pode-se ver uma mãe fracassada e uma mulher de ninguém. Aproximamo-nos e eu tomei a iniciativa de consolá-la. Elisa se apresentou, dizendo o próprio nome e, espontaneamente, dando-nos outras informações sobre o seu caso. Havia chegado às Câmaras de Retificação havia três meses. Querendo me castigar na frente de Narcisa, para que a lição se gravasse em meu espírito para sempre, perguntei: - E qual é a sua história, Elisa? Você deve ter sofrido muito... Sentindo carinho em minha pergunta, sorriu e, muito conformada, desabafou: - Para que lembrar de coisas tão tristes? - As experiências difíceis sempre nos ensinam algo. – respondi A infeliz, demonstrando profunda mudança íntima, pensou por algum tempo e, como quem organiza idéias, falou: - Minha vida foi a de todas as mulheres irresponsáveis que trocam o trabalho honesto pela ilusão venenosa. Filha de um lar muito pobre, ainda jovem arrumei emprego na casa de um rico comerciante, onde a vida me impôs profundas transformações. Ele tinha um filho, tão jovem quanto eu. Depois de nos tornarmos íntimos, quando já não adiantava qualquer reação de minha parte, esqueci que o trabalho é bênção de Deus para aqueles que amam a vida sadia, por mais que tenham errado, e me deixei levar por experiências dolorosas, que nem preciso comentar. Conheci, de perto, o prazer, o luxo, o conforto material e, em seguida, o horror a mim mesma, a sífilis, o hospital, o abandono de todos, as tremendas desilusões que terminaram com a cegueira e a morte física. Fiquei muito tempo andando sem rumo em total desespero, até que um dia, tanto pedi o socorro da Virgem de Nazaré, que mensageiros do bem me recolheram em seu nome, trazendo-me para esta casa abençoada. Muito comovido e chorando, perguntei: - E ele? Como se chama o rapaz que a tornou tão infeliz? Ouvi-a, então, dizer o meu nome e o dos meus pais. - E você o odeia? – perguntei, envergonhado. Ela sorriu com tristeza e respondeu: - Antes eu o odiava profundamente, amaldiçoando seu nome, mas Nemésia me transformou. Para odiá-lo, tenho que odiar a mim também. No meu caso, a culpa deve ser dividida. Portanto, não posso recriminar ninguém. Aquela humildade me emocionou. Peguei sua mão e, sem conseguir evitar, uma lágrima de arrependimeto e remorso caiu. - Ouça, minha amiga, - falei emocionado – eu também me chamo André e preciso ajudá-la. De hoje em diante, conte sempre comigo. - E a sua voz – disse ela, ingenuamente – parece a dele. - Pois é… - continuei, comovido – Até hoje não tenho exatamente uma família em “Nosso Lar”, mas você será minha irmã do coração. Conte com a minha dedicação de amigo. Em seu rosto vi, então, um grande sorriso que parecia uma enorme luz: - Muito obrigada! – disse, enxugando as lágrimas – Há muitos anos ninguém fala comigo dessa maneira, nesse tom familiar, como amigo sincero!... Que Jesus o abençoe. Nesse instante, quando já não podia mais conter o choro, Narcisa pegou minhas mãos e repetiu: - Que Jesus o abençoe.