------------------------------------- NOSSO LAR em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 49 VOLTANDO PARA CASA Como a criança que acompanha quem a orienta, cheguei à minha cidade, com a incrível sensação do viajante que volta à terra natal depois de muito tempo longe. Sim, a paisagem não havia mudado muito. As antigas árvores do bairro, o mar, o mesmo céu, o mesmo perfume incerto. Tonto de alegria, não percebi mais o rosto de D. Laura, que demonstrava muita preocupação, e despedi-me do grupo que continuaria viagem. Clarêncio abraçou-me e disse: - Você tem uma semana. Passarei por aqui todos os dias para vê-lo, enquanto cuido dos detalhes da reencarnação de Laura. Se quiser ir a “Nosso Lar”, aproveite as minhas visitas. Tudo de bom, André! Uma última palavra de despedida à mãe de Lísias e fiquei sozinho, respirando profundamente o ar de outros tempos. Não demorei muito para reparar nos detalhes e atravessr rapidamente algumas ruas em direção à minha casa. O coração batia agitado, à medida que chegava mais perto do grande portão de entrada. O vento sussurava suavemente nas árvores do parque, como antigamente. Azáleas e rosas desabrochavam, saudando a primavera. Em frente à porta de entrada, via-se a linda palmeira que eu e Zélia havíamos plantado em nosso primeiro aniversário de casamento. Tonto de felicidade, entrei. Mas estava tudo muito diferente. Onde estavam os antigos móveis de jacarandá? E o grande retrato onde eu, Zélia e os meninos aparecíamos tão bem? Alguma coisa me angustiava profundamente. O que havia acontecido? Comecei a cambalear de emoção. Fui à sala de jantar, onde encontrei minha filha mais nova, já uma jovem em idade de casar-se. E, quase na mesma hora, vi Zélia saindo do quarto com um senhor que, à primeira vista, me pareceu ser um médico. Gritei minha alegria com toda a força que tinha, mas as palavras pareciam ecoar pela casa sem chegar ao ouvido das pessoas. Entendi a situação e me calei, decepcionado. Abracei minha esposa, com carinho e saudade imensos, mas Zélia parecia completamente alheia ao meu gesto de amor. Muito atenta, perguntou ao senhor alguma coisa que não pude compreender imediatamente. Ele, baixando a voz, respondeu, com respeito: - Só amanhã vou poder dar um diagnóstico seguro, já que a pneumonia está muito complicada por causa da pressão alta. Todo cuidado é pouco. Dr. Ernesto precisa de repouso absoluto. Quem era aquele Dr. Ernesto? Fiquei perdido num mar de dúvidas, quando ouvi minha esposa pedir ansiosa: - Mas, doutor, por favor, cure-o. Peço que o salve! Não vou aguentar ficar viúva outra vez. Zélia chorava e esfregava as mãos, demonstrando imensa angústia. Nem um raio teria me fulminado com tanta violência. Outro homem havia ocupado minha casa. Zélia havia me esquecido. A casa não me pertencia mais. Valia a pena ter esperado tanto tempo para sofrer tanta desilusão? Corri ao meu quarto, notando estava decorado com outros móveis. Na cama, estava um homem maduro, em grave quadro estado de saúde. Ao lado dele, três figuras negras íam e vinham, querendo complicar seu quadro. Na hora, quis odiar o intruso com todas as forças, mas já não era o mesmo de outros tempos. Deus havia me chamado para os ensinamentos de amor, fraternidade e perdão. Percebi que o doente estava rodeado de entidades inferiores e maléficas, mas não consegui ajudá-lo imediatamente. Sentei-me, desiludido e triste, vendo Zélia entrar e sair do quarto várias vezes, acariciando o doente com a mesma atenção que dedicava a mim em outros tempos. Depois de algumas horas de sofrimento e reflexão, voltei, tonto, à sala de jantar, onde encontrei minhas filhas conversando. As surpresas continuavam. A mais velha havia se casado e tinha um bebê no colo. E meu filho? Onde estava? Zélia deu instruções cuidadosas a uma enfermeira e veio conversar com mais calma com as filhas. - Vim ver vocês, mamãe. – disse a mais velha – Não só para saber do Dr. Ernesto, mas também porque hoje sinto muitas saudades do papai. Desde cedo, não sei por quê, penso o tempo todo nele. É uma coisa que não sei explicar... As lágrimas não a deixaram terminar a frase. Zélia, para minha surpresa, falou com a filha, autoritariamente: - Ora essa! Era só o que me faltava!... Como se não bastasse a aflição em que estou, tenho que tolerar suas perturbações. Que saudosismo é esse, minha filha? Já proibi vocês de fazer qualquer alusão a seu pai nesta casa. Você não sabe que Ernesto não gosta disso? Já vendi tudo que nos lembrava o passado esquecido, mudei as paredes, e você não pode me ajudar com isso? A filha mais nova interveio, dizendo: - Desde que ela começou a se interessar pelo maldito Espiritismo, vive com essas bobagens na cabeça. Onde já se viu tamanho absurdo? Essa história dos mortos voltarem é o cúmulo! Embora ainda estivesse chorando, a outra falou: - Não estou falando de convicções religiosas. Por acaso é crime sentir saudades de papai? Vocês não o amam também, não têm sentimento? Se papai estivese conosco, mamãe, seu único filho não estaria fazendo tanta loucura por aí. - Ora, ora... – falou Zélia nervosa e irritada – Cada um tem o destino que Deus lhe dá. Não se esqueça de que André está morto. Não me venha com queixas e lágrimas por um passado que não pode ser mudado. Fui para perto de minha filha e acalmei-a, dizendo palavras de coragem e consolo que ela não ouviu, mas captou de forma subjetiva, como pensamentos agradáveis. Que situação! Agora entendia por quê meus verdadeiros amigos haviam adiado tanto a minha visita ao lar. Decepções e tristeza me esperavam. Minha casa me parecia um patrimônio que ladrões e vermes haviam transformado. Nem bens, nem títulos, nem afetos! Só uma das filhas continuava ligada ao meu antigo e sincero amor. Nem os anos de sofrimento logo depois da morte haviam me causado tanta dor. Anoiteceu e amanhaceu novamente e eu continuava na mesma situação, ouvindo e vendo coisas que nunca poderia esperar. No final da tarde, Clarêncio passou por lá para me dizer algumas palavras de amizade. Percebendo meu estado, disse com carinho: - Entendo a sua tristeza e sinto-me alegre por esta oportunidade. Não tenho novas orientações. Qualquer conselho de minha parte agora seria impulsivo. Só não posso esquecer de dizer que aquela recomendação de Jesus para que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, é sempre válida e sempre virá acompanhada de verdadeiros milagres de felicidade e compreensão, quando sinceramente vivida em nossos caminhos. Agradeci emocionado e pedi que não me deixasse sem a ajuda necessária. Clarêncio sorriu e se despediu. Então, diante da realidade, completamente só para demonstrar minhas conquistas, comecei a pensar com mais serenidade na importância das palavras evangélicas. Afinal de contas, por que condenar o comportamento de Zélia? E se fosse eu que tivesse ficado viúvo? Por acaso, teria aguentado ficar tanto tempo sozinho? Náo teria feito qualquer coisa para justifivar outro casamento? E o pobre doente? Como e por quê odiá-lo? Não era também meu irmão na casa de Deus? Será que as coisas não estariam pior em casa se Zélia não tivesse aceitado casar-se com ele? Assim sendo, era necessário lutar contra o egoísmo feroz. Jesus me apontava outros caminhos. Não podia agir como homem encarnado. Minha família não era só uma esposa e três filhos na Terra. Era, sim, centenas de doentes que estavam nas Câmaras de Retificação e, agora, também todos os seres do universo. Com outros pensamentos, senti que o amor começava a brotar das feridas que a relidade havia me causado.