------------------------------------- OS MENSAGEIROS em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 4 O CASO VICENTE Difícil expressar minha alegria com o novo companheiro. Rosto muito calmo, olhar inteligente e lúcido, Vicente transmitia carinho e bondade, sensatez e compreensão. Disse-me que estava muito feliz por ter encontrado um companheiro médico e me alojou perto dele, demonstrando muita gentileza. Era o primeiro colega de profissão, também recém-chegado da Crosta, com quem me relacionava mais de perto. Trocamos idéias sobre as surpresas que havíamos tido. Comentamos as dificuldades com as ilusões da Terra, a cegueira da cência, os problemas graves da medicina espiritual. Embora ainda não tivesse ido com Aniceto ao plano físico para visita de serviço, Vicente admirava profundamento o instrutor e comentava comigo os estudos que vinha fazendo com ele. Tinha muitos conceitos interessantes. Em pouco mais de uma hora, já nos sentíamos como irmãos muito unidos, há muito tempo, por laços espirituais. O novo companheiro havia conquistado minha confiança plena. Demonstrando grande gentileza, perguntou por minha situação em relação aos parentes terrenos. Respondi contando-lhe resumidamente minha surpresa ao saber do segundo casamento de Zélia. Dei toda ênfase possível ao meu relato, emocionando-me muito enquanto narrava os acontecimentos. Em cada detalhe mais importante dos fatos, detinha-me mais tempo, de propósito, ressaltando meus antigos sofrimentos e tristezas, que me pareciam insuperáveis. Vicente me ouviu em silêncio, sorrindo de vez em quando. Quando terminei o comovente relato, ele colocou a mão direita em meu ombro e comentou: - Não se julgue tão azarado e incompreendido. Saiba, meu caro André, que você teve muita felicidade. - Como assim? - Sua esposa respeitou o marido até o fim e não é de se espantar que tenha se casado pela segunda vez nessas condições. No meu caso, porém, a coisa foi muito pior. E, percebendo meu espanto, o novo amigo continuou: - Vou explicar. Pensou um pouco, como se quisesse organizar as lembranças, e prosseguiu: - Você não imagina como foi lindo o sonho de amor do meu casamento. Logo depois de tirar o diploma de médico, aos 25 anos, casei-me com Rosalinda, cheio de alegria. Minha esposa não tinha só uma situação material confortável, mas também todo o meu carinho e dedicação. Minha felicidade não tinha limites. Em pouco tempo, tivemos dois filhos que nos enriqueceram o lar. Impossível expressar meu bem estar. Como tinha uma boa reserva financeira, não me especializei em clínica, dedicando-me apaixonadamente às pesquisas em laboratórios. Como tinha grande vocação, não foi difícil conseguir a confiança de vários colegas e centros de estudos, amplicando trabalhos e resultados brilhantes. E Rosalinda era sempre a primeira e a que mais colaborava comigo. Às vezes, percebia seu tédio com os tubos de ensaio, mas ela sabia evitar as pequenas contrariedades para manter nossa felicidade. Parecia que me compreendia totalmente. Para mim, era a mãe dedicada e a esposa perfeita. Estávamos casados havia dez anos, quando meu irmão Eleutério, advogado, solteiro, um pouco mais velho que eu, decidiu morar perto de nós. Rosalinda foi toda gentilezas, considerando que se tratava de parente meu. Eleutério entrou em nossa casa como irmão. Embora morasse em um hotel, estava sempre conosco, demonstrando muita gentileza e respeito. Então percebi que, aos poucos, minha mulher começou a se modificar. Exigiu que contratássemos uma empregada para fazer os serviços domésticos, alegando que nossos filhos precisavam de atenção mais próxima e constante. Concordei satisfeito. Afinal, era para o bem de nossos filhos. No entanto, a mudança de Rosalinda ganhou proporções impressionantes. Deixou de ir ao laboratório, onde nos abraçávamos alegremente quando víamos nossas pesquisas bem sucedidas. Preferia sempre ir ao cinema ou distrair-se ao lado de Eleutério. Isso me aborrecia muito, mas não poderia desconfiar da conduta de meu irmão. Quando em família, agia sempre com respeito, embora fosse arrogante e ousado como advogado. Minha vida familiar, tão feliz, passou a ser de grande solidão, que eu tentava despistar com muito trabalho dedicado. Assim, o tempo ía passando, quando algo mexeu profundamente com minha vida. Pequena bolha nasal, que nunca havia me incomodado, depois de levemente ferida, transformou-se em problema muito grave. Em poucas horas declararam infecção generalizada. Vários colegas se reuniram em meu quarto, mas todos os cuidados foram inúteis. Entendi que estava chegando minha hora, e rápido. Rosalinda e Eleutério pareciam arrasados e, até hoje, tenho a impressão de vê-los ansiosos, no momento de minha morte física. Nessa altura, Vicente fez longa pausa, como a fixar lembranças mais dolorosas, e continuou com voz mais triste: - Depois de algum tempo de profundas perturbações nas zonas inferiores, quando já estava recuperado em “Nosso Lar”, soube de toda a verdade. Voltando à minha casa na Terra, para minha grande surpresa, encontrei Rosalinda casada com Eleutério. - Como as nossas histórias são parecidas! – falei impressionado. - Você é que pensa – respondeu sorrindo. E continuou: - Outra surpresa ainda esperava para me ferir. Só quando voltei à minha casa, soube que ela havia sido cúmplice de um crime horrível. Meu próprio irmão planejou tudo. Os dois se apaixonaram perdidamente e se deixaram levar por sentimentos menos nobres. Não havia como pedir divórcio e, mesmo que a justiça permitisse, seria um escândalo o fato de Rosalinda sair de casa para unir-se ao cunhado. Eleutério lembrou-se, então, que tínhamos experiências de laboratório e sugeriu a Rosalinda que me aplicasse uma cultura de bactérias, que ele mesmo se encarregaria de conseguir, na primeira oportunidade. Minha pobre esposa não vacilou e, aproveitando que eu dormia sem suspeitar de nada, colocou o material contagioso em meu nariz levemente ferido. - E essa é a minha história, contada rapidamente. Eu estava bobo. Vicente sorriu de leve e disse: - Rosalinda e Eleutério vivem aparentemente felizes, são grandes materialistas, por enquanto, e desfrutam de grande fortuna e ótimo status no plano físico. - Mas..., e a justiça? – perguntei muito assustado. - Ora, André – esclareceu calmente – tudo vem na hora certa, tanto no bem, como no mal. Primeiro planta-se a semente, depois vêm os frutos. E, percebendo minha tristeza, Vicente concluiu: - Não vamos mais falar nisso. Está chegando a hora da aula. Vamos atender nossas necessidades essenciais, ajudando nossos entes queridos, que ainda estão longe, encarnados. Não se impressione tanto. A árvore, para dar frutos, precisa perder algumas folhas. Para nós, atualmente, meu amigo, o mal não passa de simples resultado da ignorância, nada mais.