------------------------------------- OS MENSAGEIROS em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 7 A QUEDA DE OTÁVIO A ausência de Aniceto deu ensejo a conversas interessantes e alguns grupos de amigos se formaram para trocar idéias. Impressionado com as senhoras que haviam solicitado ajuda para Otávio, pedi a Vicente que me apresentasse a elas. Não era curiosidade indevida o que me movia, mas o desejo sincero de obter novos conhecimentos sobre a tarefa mediúnica, que a palestra de Telésforo me fizera enxergar de forma diferente. O amigo me atendeu satisfeito. Em algums momentos, não estava apenas com as irmãs Isaura e Isabel, mas também com o próprio Otávio, um pálido homem aparentando uns 40 anos. - Também sou novato por aqui – expliquei – Estou na condição de médico fracassado nos deveres que Deus lhe confiou. Otávio sorriu e respondeu: - Você, provavelmente, tem a seu favor o fato de não ter conhecido nada das verdades eternas enquanto encarnado. Comigo não acontece o mesmo, infelizmente. Não ignorava o roteiro certo que Deus me havia designado para a lutas na Terra. Não tinha grandes títulos oficiais, mas dispunha de considerável cultura evangélica, coisa que, para a vida eterna, é mais importante que a cultura intelectual considerada isoladamente. Tive amigos generosos do plano superior, que se faziam visíveis a mim, recebi mensagens repletas de amor e sabedoria, mas, assim mesmo, caí por imprudência e vaidade. As observações de Otávio me impressionavam muito. Quando encarnado, eu não havia tido contato especial com o meio espírita e agora sentia alguma dificuldade para entender tudo o que ele me dizia. - Não tinha idéia da extensão das responsablidades mediúnicas – respondi. - As tarefas espirituais – continuou ele, um tanto envergonhado – concentram-se nos interesses eternos. Por isso minha falta se reveste de tanta importância. Os administradores de bens da alma têm responsabilidades muito pesadas. Os estudiosos, os crentes, os simpatizantes podem alegar ignorância e covardia em matéira de fé. Mas os sacerdotes não têm desculpa. Acontece o mesmo com a tarefa mediúnica. Os aprendizes ou assistidos, nos centros espíritas, podem alegar determinados impedimentos, mas o missionário é obrigado a caminhar com tal patrimônio de certezas, que nada o livra das culpas adquiridas. - Mas, Otávio – perguntei muito impressionado – o que lhe causou tanto sofrimento moral? Você me parece tão consciente de si mesmo, tão bem informado sobre as leis da vida, que me custa acreditar que esteja assim tão necessitado de novas experiências desse tipo... As duas senhoras presentes mostraram estranho brilho no olhar, enquanto Otávio respondia: - Vou contar-lhe meu fracasso. Você verá que oportunidade maravilhosa de elevação eu perdi. E, depois de longa pausa, continuou, muito sério: - Depois de contrair dívidas enormes na Terra em outros tempos, vim parar em “Nosso Lar”, sendo atendido por irmãos dedicados, que se reveleram incansáveis comigo. Preparei-me, então, durante 30 anos seguidos, para voltar ao mundo em tarefa mediúnica, querendo saldar minhas dívidas e elevar-me um pouco. Não me faltaram lições realmente sublimes, nem estímulos sagrados ao meu coração cheio de defeitos. O Ministério da Comunicação me ajudou com todas as facilidades e seis entidades amigas conseguiram-me os maiores recursos em benefício do meu êxito. Técnicos do Auxílio me acompanharam até a Terra, às vésperas do meu renascimento, entregando-me um corpo físico absolutamente sadio. Segundo a bondade dos meus amigos daqui, eu teria acesso a um trabalho de certo destaque no que se refere a ajudar outras pessoas. Ficaria perto de grupos de colaboradores em missão no Brasil, incentivando-os e atendendo a outras pessoas ignorantes, pérturbadas ou infelizes. O casamento não faria parte de minha vida. Não que a união conjugal possa atrapalhar o exercício da mediunidade, mas porque meu caso, em particular, assim exigia. Assim mesmo, solteiro, deveria receber, aos 20 anos de idade, seis amigos que muito me ajudaram em “Nosso Lar”, o quais chegariam à minha casa como órfãos. Minha dívida para com essas entidades tornou-se muito grande e essa providência não só me permitiria um resgate agradável, como também me garantiria grande êxito pela ajuda dada a elas, o que me protegeria de leviandades e vacilações, já que o ganha-pão me obrigaria a não ceder a sugestões inferiores com relação ao sexo e às ambições exageradas. Ficou acertado também que minhas novas atividades começariam com muito sacrifício, para que o possível carinho de outra pessoa não me amolecesse e minha tarefa não ficasse escravizada a caprichos materiais, distantes da vontade de Jesus e, sobretudo, para que fosse mantida a minha individualidade do serviço. Mais tarde, então, com o passar dos anos de trabalho produtivo, me seriam enviados socorros materiais cada vez maiores de “Nosso Lar”, à medida que cumprisse os compromissos de renunciar a mim mesmo, desprendendo-me das posses passageiras, e demonstrasse desinteresse pela mediunidade paga, de maneira a intensificar, aos poucos, o cultivo de amor confiado a mim. Com tudo acertado, voltei ao plano físico, não só prometendo ser fiel aos meus instrutores, como também comprometendo-me com as seis entidades amigas, a quem muito devo até agora. Nesse momento, Otávio fez uma pausa mais longa, suspirou e continuou: - Mas, infeliz que sou, esqueci todos os compromissos! Os benfeitores de “Nosso Lar” colocaram-me junto a verdadeira servidora de Jesus. Minha mãe era espírita cristã desde moça, apesar das tendências morais de meu pai, que, apesar dos delizes, era um homem de bem. Aos 13 anos fiquei órfão de mãe e, aos 15, começaram os primeiros sinais de mediunidade. Nessa mesma época, meu pai se casou pela segunda vez e, apesar da bondade e dedicação que minha madrasta me dedicava, eu mesmo me colocava num plano de falsa superioridade em relação a ela. Em vão minha mãe me mandava pedidos do plano espiritual. Eu vivia revoltado, entre queixas e lamentações sem razão. Meus parentes me levaram a um grupo espírita excelente, onde minhas faculdades poderiam ser colocadas à disposição dos necessitados e sofredores. Entretanto, eu não tinha qualidades de trabalhador e companheiro fiel. Minha negação, em matéria de confiança nos mentores, e queda forte para a crítica dos atos alheios me forçavam a desagradável estagnação. Os mentores de luz me estimulavam ao serviço, mas eu duvidava deles com a minha vaidade doentia. E como os pedidos espirituais continuavam e eu os interpretava como alucinações, procurei um médico que me aconselhou a ter relações sexuais. Eu estava com 19 anos e me entreguei totalmente ao abuso de energias sagradas. Queria conciliar, à força, o prazer desequilibrado e o dever espiritual, fugindo, cada vez mais, das lições evangélicas que os amigos espirituais nos davam. Tinha pouco mais de 20 anos quando meu pai desencarnou. Com o triste acontecimento, seis crianças ficavam abandonadas, já que minha madrasta, ao se casar com meu pai, havia trazido três filhos pequenos. Em vão ela me pediu ajuda. Nunca me dignei aceitar as responsabilidades que estavam destinadas a mim. Depois de dois anos da segunda viuvez, minha madrasta foi recolhida a um lar para leprosos. Fugi, então, horrorizado, dos pequenos órfãos. Abandonei-os definitivamente, sem pensar que colocava meus credores, de “Nosso Lar”, em situação incerta. Em seguida, entregando-me completamente à ociosidade, cometi uma falta mais grave e fui obrigado a me casar contra a vontade. Mesmo assim, porém, os chamados espirituais continuavam, comprovando o quanto Deus estava sendo paciente comigo. No entanto, à medida que esquecia meus deveres, toda tentativa de realização espiritual me parecia mais difícil. E a tragédia que criei para mim mesmo continuou o meu tormento. A esposa a quem me ligara, apenas em consequência de atração física, era criatura muito inferior e atraiu uma entidade monstruosa, em ligação com ela, para encarnar como meu filho. Abandonei seis crianças lindas, cuja convivência me daria equilíbrio moral, mas, ao que parece, a esposa e o filho incumbiram-se da vingança. Os dois me atormetaram até o fim da vida, quando voltei para cá, mal tendo completado 40 anos, consumido pela sífilis, pelo álcool e pelos desgostos... sem nada ter feito para meu futuro espiritual... sem construir nada no bem... Ele enxugou os olhos e concluiu: - Como vê, realizei todos os meus desejos menos nobres, mas não os desejos de Deus. Foi por isso que fali, complicando ainda mais minha situação... Nesse instante, ele se calou, como se alguma coisa invisível apertasse sua garganta. Abracei-o com simpatia, tentando incentivá-lo, mas D. Isaura aproximou-se mais, fez-lhe um carinho e disse: - Não chore, meu filho! Jesus não deixa ninguém sem remédio do tempo. Tenha calma e coragem... E, percebendo seu carinho, pensei na bondade de Deus, que faz soar o canto sublime do amor de mãe, mesmo na vida após a morte.