------------------------------------- OS MENSAGEIROS em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 10 A EXPERIÊNCIA DE JOEL Em outro canto da sala, acompanhei Vicente, que se dirigiu a um velhote simpático. - Então, meu caro Joel, como vai? – perguntou, gentil. O velhinho fez uma expressão triste e respondeu: - Graças a Deus, sinto-me bem melhor. Tenho ido diariamente às aplicações magnéticas nos Gabinetes de Socorro, no Ministério do Auxílio, e estou mais forte. - Não tem mais tonturas? – perguntou o companheiro, interessado. - Agora são mais espaçadas e, quando surgem, não me deixam tão aflito. Nesse instante, Vicente me olhou de forma muito lúcida, e disse, sorrindo: - Joel também esteve no mundo em tarefa mediúnica e pode nos contar suas experiência interessantes. O novo amigo, que me parecia um doente em recuperação, tentou dar um sorriso amarelo e disse: - Fiz minha tentativa na Terra, mas fracassei. A luta não era pequena e fui fraco demais. - Mas o que mais me impressionou no caso dele – observou Vicente em tom fraterno – é a doença que o acompanha até aqui e persiste até hoje. Joel passou muito tempo no Umbral, com muitas dificuldades, e voltou ao Ministério do Auxílio perseguido por alucinações estranhas, referentes ao passado. - Ao passado? – perguntei, surpreso. - Sim – explicou – minha tarefa mediúnica exigia sensibilidade mais apurada e, quando me comprometi a realizar o serviço, fui ao Ministério do Esclarecimento, onde me aplicaram um tratamento especial que me aguçou as percepções. Precisava de condições sutis para desempenhar meu trabalho. Amigos assistentes fizeram de tudo por mim e eu fui para a Terra com todos os requisitos necessários ao êxito de minhas tarefas. Porém... - Mas por que perdeu as oportunidades? – perguntei. – Só por causa da sensiblidade aumentada? Joel sorriu e respondeu: - Não perdi por causa da sensibilidade, mas pelo mau uso dela. - Como é? – falei admirado. - Você vai entender sem dificuldades. Imagine que, com uma bagagem dessas, em vez de ajudar os outros, eu mesmo me perdi. Pelo que entendo agora, Deus nos concede a sensibilidade apurada como uma espécie de super lente, que o proprietário deve usar para definir roteiros, alertar para os perigos e vantagens do caminho, localizar obstáculos comuns, ajudando ao próximo e a si mesmo. Mas eu fiz o contrário. Não usei essa lente maravilhosa de um modo muito correto. Deixei-me empolgar pela curiosidade doentia e a apliquei apenas para aumentar minhas sensações. No conjunto dos meus trabalhos mediúnicos, estava a lembrança de experiências anteriores, como ferramenta indispensável ao serviço de esclarecimento coletivo e benefício aos outros, o qual eu teria a oportunidade de realizar. Mas existe uma ciência da memória que eu não respeitei como deveria. Ele interrompeu a narrativa e meu interesse em conhecer sua história até o fim só aumentava. Em seguida, ele continuou: - Ao primeiro chamado dos planos superiores, corri apressado. Sentia nitidamente a lembrança clara de minhas promessas em “Nosso Lar”. Tinha o coração repleto de projetos sagrados. Espalharia muito longe a vibração das verdades eternas. Contudo, nos primeiros contatos com o serviço, a excitação psíquica fez com que eu recuperasse váiras lembranças adormecidas, como um disco sob a agulha da antiga vitrola, e lembrei toda minha penúltima existência, quando fui padre, com o nome de Monsenhor Alejandre Pizarro, nos últimos períodos da Inquisição espanhola. Foi aí que abusei da lente sagrada de que falei. O prazer das grandes sensações, que pode ser tão prejudicial quanto o álcool que embriaga, me fez esquecer os deveres sagrados. Percebia claridades espirituais elevadas. Desenvolvi a clarividência, mas só ficava satisfeito quando reconhecia companheiros visíveis e invisíveis de minha experiência como reliogoso. Obriguei-me a localizar cada um deles no tempo, fazendo questão de recuperar suas memórias, sem cuidar de aproveitar o trabalho construtivo. Minha audição psíquica tornou-se muito clara, mas eu não queria ouvir os amigos espirituais falando sobre tarefas proveitosas. Queria apenas questioná-los, ousadamente, satisfazendo meus caprichos egoístas. Envolvido em pesquisas sobre a Espanha de meu tempo, perdi muito tempo fugindo de companheiros que vinham me pedir que trabalhasse pelo bem do próximo. Exigia notícias de bispos, de autoridades políticas da época, de padres amigos que haviam errado tanto quanto eu mesmo. Não faltaram advertências. Com frequência, os colegas de nosso grupo espírita me chamavam a atenção para os problemas sérios de nossa casa. Eram sofredores que batiam à nossa porta, situações que pediam trabalho cristão. Tínhamos um projeto para um lar para órfãos, um ambulatório que começava a se concretizar e, acima de tudo, serviços semanais de instrução evangélica nas noites de terças e sextas-feiras. Mas, que nada! Eu só queria saber de minhas descobertas pessoais. Esqueci que Deus me permitia aquelas lembranças, não para me satisfazer a vaidade, mas para que entendesse o tamanho da minha dívida com os necessitados deste mundo e me entregasse à obra de esclarecimento e conforto aos sofredores. Ao contrário do que esperavam os amigos espirituais que me ajudaram a conseguir esta oportunidade, não me interessei pela doutrina e não me mexi para ajudar os outros. Na verdade, procurei apenas os que se encontravam ligados a mim, desde o passado. Para isso, descobri personalidades importantes de outros tempos, relacionadas comigo, com provas evidentes de identidade. Reconheci o senhor Higino de Salcedo, grande proprietário de terras, que me havia protegido perante as autoridades religiosas da Espanha, reencarnado como proletário inteligente e honesto, em grande experiência de sacrifício individual. Revi o velho Gaspar de Lorenzo, figura traiçoeira de inquisidor cruel, que gostava muito de mim, reencarnado como paralítico e cego de nascença. E, desse modo, meu amigo, passei a existência, de surpresa em surpresa, de sensação em sensação. Eu, que havia reencarnado relembrando para construir algo útil, transformei a lembrança em vício de personalidade. Perdi a oportunidade bendita de rendenção e o pior é o estado de alucinação em que vivo. Com o meu erro, minha mente se desequilibrou e as perturbações psíquicas são um grande sofrimento. Estou sendo submetido a tratamento magnético de longa duração. Nesse momento, Joel empalideceu de repente. Os olhos, abertos em demasia, vagavam como se pudessem enxergar cenas impressionantes, muito longe de nosso ambiente. Depois cambaleou, mas Vicente o segurou rapidamente e, passando a mão em sua testa, disse com voz firme: - Joel! Joel! Não se entregue às impressões do passado! Volte ao presente!... Profundamente admirado, notei que o doente voltava ao normal, esfregando os olhos.