------------------------------------- OS MENSAGEIROS em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 23 PESADELOS Enquanto Alfredo continuava dirigindo os trabalhos, Aniceto pediu a sua permissão para nos levar aos leitos mais distantes, onde se localizavam os enfermos que não recebiam tratamento magnético. - Precisamos aproveitar experiências e oportunidades – afirmou ele, sorrindo. Nós o acompanhamos, curiosos, observando as expressões dolorosas e terríveis daqueles rostos cadavéricos. Quando já estávamos a alguma distância do centro dos pavilhões, Aniceto explicou, em tom sério. - Gostaria de saber até onde vocês aproveitaram as aplicações do Gabinete de Auxílio Magnético às Percepções. Para ajudar efetivamente aos encarnados, é preciso saber ver com clareza e precisão. Apontando os doentes imóveis, acrescentou: - Todos, nestes pavilhões, dormem o mau sono. - Mas existe alguém que durma o bom sono nos planos espirituais? – perguntou Vicente, de repente. - Sem dúvida – respondeu Aniceto. – Temos os que repousam por períodos curtos, como trabalhadores esforçados que esperam o descanso noturno com a serenidade dos que sabem trabalhar e descansar de consciência tranquila. Fez uma pausa, estudando a melhor forma de explicar sem perder tempo, e disse: - Mas esses não precisam passar pelos atendimentos de emergência de um Posto de Socorro, como os mais perturbados. Em seguida, retomou a explicação e continuou: - Quem dorme em desequilíbrio, alimenta pesadelos. Todos esses espíritos aparentemente mortos que nos cercam são presas de horríveis visões íntimas. Vamos ver qual foi o aproveitamento de vocês. Façamos algumas observações rápidas. Na terra, vocês examinavam o corpo, as vísceras e as células, também aparentemente mortas. Agora, auscultam a alma, sondam os sentimentos, analisam o plano mental. E, com decisão, concluiu: - Mãos à obra! Indicando-me o corpo envelhecido de uma mulher, recomendou: - Você, André, examine atentamente esta irmã. Não se preocupe com os acontecimentos exteriores. Observe-a com todas as possibilidades e percepções ao seu alcance. Sinceramente interessado em aprender, não prestei atenção às instruções que Aniceto deu a Vicente. Procurei esquecer o que estava à minha volta, concentrando-me naquele rosto feminino com todos os meus recursos mentais. À medida que me despreocupava dos outros interesses, notava a sombra cinza escura que ía se condensando em torno de sua testa. A visão parecia me ajudar na concentração. Percebendo que o fenômeno se acentuava, ignorei tudo o que estava no exterior. Espantado, comecei a ver formas em movimento dentro da pequena tela escura. Surgiu uma casa modesta de cidade humilde. Tive a impressão de passar pela porta. Lá dentro, uma cena terrível. Uma senhora de idade madura, com o rosto cruel imperturbável, lutava com um homem bêbado. - “Ana! Ana!, pelo amor de Deus!, não me mate!” – dizia ele, suplicando, incapaz de se defender. - “Nunca! Nunca vou perdoá-lo!” – exclamava a mulher, acrescentando, com voz sinistra: - “Você vai morrer esta noite!” E vi o pobre homem cair, exausto. - “Você me envenenou!” – reclamava ele, chorando – “Perdoe-me se causei algum mal a você! Sou pai, Ana! Preciso viver para os meus filhos! Não me mate, por piedade!” Ela ouviu com frieza e respondeu duramente: - “Vai morrer assim mesmo. Tive o azar de amar justamente você, que pertence a outra mulher! Você não quis ir comigo e agora quero vingança!” Contorcendo-se no chão, ele continuava: - “Deus sabe que estou arrependido do meu passado criminoso! Quero viver para o bem, Ana! Perdoe-me, pelo amor de Deus! Quem sabe posso ajudá-la como irmão! Ajude-me para que possa ajudá-la. Não me mate! Não me mate!” A mulher, porém, como se tivesse ficado ainda mais alterada ao ouvir falar de virtude, pegou um pesado martelo e exclamou: - “Deus não existe! Deus não existe! Você vai morrer, canalha!” E, de repente, encheu sua cabela de marteladas surdas. O homem morreu sem dar um grito sequer. Logo depois, vi a criminosa, com um carrinho de mão, levando o cadáver por uma trilha abandonada. Acompanhava-a com interesse. A noite estava muito escura, mas pude vê-la parar junto à ferrovia. Olhou em volta, certificou-se de estar sozinha e colocou a estranha carga sobre os trilhos. Percebi que posicionou o cadáver, de modo que a cabeça fosse decepada com a passagem do trem, e saiu correndo, levando o carrinho de volta. Não esperei pelo trem. Segui a mulher que me pareceu agitada e pensativa. No entanto, antes que largasse o carrinho no quintal, vi que ela arregalou os olhos como louca, cercada de seres que me pareciam bandidos vestidos de negro. Era ela, agora, que estava embriagada de medo. Havia vencido um pobre homem irresponsável, mas, pelo que pude ver, seria vencida por seres ainda piores do que ela. - “Socorro! Ajudem-me!” – gritava, apavorada. E a cena continuava com ela suplicando inultilmente. Senti-me como um obervador que precisava fazer alguma coisa. E, graças à bondade de Deus, não tive pela mulher infeliz nada além de pura compaixão. Ao primeiro impulso de revolta pelo crime cometido, lembrei-me das lições recebidas em “Nosso Lar” e pensei que aquela mulher poderia ser uma pessoa querida para mim. Se Ana estivesse encarnada, ao meu lado, como parente de sangue, não iria querer ajudá-la? Por que, então, iria acusá-la, se não conhecia completamente o seu passado? Será que teve a oportunidade de um lar, educação, afeto sincero? Quem sabe não estaria vindo de várias outras vidas de incompreensão e sofrimento? Que laços a uniam àquele homem, também necessitado de piedade? Como teria começado aquele drama? Não sabia. Via apenas a pobre mulher rodeada de sombras agressivas, implorando socorro. Não sabia como ajudá-la, mas lembrei-me que Ana era minha irmã, filha do mesmo Pai, irmã que ficou doente nos caminhos da vida, sem que eu pudesse, pelo menos por ora, questionar a causa. Pensava, comigo mesmo, num modo de ajudá-la, quando, de repente, alguém me chamou. Era Aniceto, que exclamava, bondoso: - Venha, André! Você e Vicente estão indo muito bem. Estou satisfeito. Seus pensamentos de fraternidade e paz ajudaram muito esta pobre mulher. Tenha certeza disso e continue buscando a compreensão para socorrer e ajudar com sucesso. Como puderam ver por si mesmos, cada um dos que dormem sono atormentado aqui vive estranhos pesadelos, dos quais não pode escapar de uma hora para outra. Não precisamos comentar nada a respeito dessas encarnações vividas em oposição às leis de Deus. Basta lembrarmos sempre que, em qualquer lugar, a dívida acompanha o devedor. E, com olhar sugestivo, acrescentou: - Vamos voltar ao centro dos pavilhões. Temos que ajudar na oração.