------------------------------------- OS MENSAGEIROS em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 27 O CALUNIADOR Enquanto Alfredo conversava com outros trabalhadores, Aniceto nos chamou a outro prédio pequeno e falou: - Vejamos outro ensinamento. Fomos em direção a algumas câmaras pequenas. Nosso instrutor abriu uma porta e vimos um louco, que parecia profundamente irritado. Olhou-nos sem qualquer expressão e gritou histericamente. Aniceto, entretanto, aproximou-se dele e cumprimentou-o, dizendo: - Como vai, Paulo? Pelo que senti, as palavras tiveram certo poder magnético e o doente modificou-se profundamente. Acalmou-se, de repente, e sentou-se mais tranquilo, embora ainda tremesse e demonstrasse muito medo. - Está se sentindo melhor, Paulo? – perguntou Aniceto, bondoso, tocando-o no ombro. Ao toque do instrutor, o doente mostrou alguma lucidez e respondeu: - Vou melhorando, graças... Em vista das reticências, Aniceto falou com firmeza, como se quisesse ajudá-lo a ter mais vontade: - Termine! O doente fez enorme esforço e concluiu: - G...r...a...ç...a...s a D...e...u...s... Vendo o seu sofrimento e indecisão, lembrei dos doentes das Câmaras, aos quais Narcisa prestava serviço carinhoso. Percebendo meus pensamentos, Aniceto falou: - Vocês percebem a diferença entre os que dormem, os que estão loucos e os que sofrem? Em “Nosso Lar” não temos dos primeiros, e os desequilibrados que se encontram na Regeneração sentem, na maioria, angústias enormes. É necessário reconhecer que os que gemem e sofrem, em qualquer lugar, estão melhorando. Toda lágrima sincera é sintoma bendito de renovação. Os gozadores, irônicos e perturbados que não sentem dor são mais dignos de piedade, por permanecerem alienados em estranha rigidez de raciocínio. E, apontando o homem à nossa frente, afirmou: - Paulo é um doente a caminho da melhora. Ainda não tem consciência exata de sua situação, mas já chora e sofre com as lembranças de seu passado triste. Recebi a explicação com atenção. Lembrei-me que, de fato, os doentes levados diariamente a “Nosso Lar” pelos Samaritanos eram grandes sofredores. Os que não apresentavam dores enormes, revelevam estranho pavor das sombras. A única entidade que vi lá, totalmente inconsciente da própria situação, foi um pobre vampiro que não recebeu asilo nas Câmaras de Retificação. Nosso instrutor, sem se incomodar em transformar o doente em cobaia, recomendou, carinhoso: - Concentrem a visão em Paulo! Estimulado pela experiência anterior com Ana, fixei nele todo o meu potencial de observação. Aos poucos, pude observar sua tela mental, que parecia ser feita de sombras espessas. Surpreso, notei diversas formas em movimento. Vários vultos de mulher íam surgindo, causando-me grande adminiração. Entre eles, reparei que estava Ismália, parecendo doente, enfraquecida, ansiosa. Alguns homens passavam também, demonstrando irritação, e, nessas imagens, notei o próprio Alfredo aparentando cansaço e velhice precoce. Vozes misteriosas eram ouvidas. Uma chuva de maldições e blasfêmias caía sobre Paulo. As mulheres pareciam acusá-lo claramente; os homens davam a impressão de serem perseguidores ferozes, ocultos no mundo interior daquele estranho doente. E, notando que os vultos de Alfredo e Ismália se movimentavam naquele painel escuro, não pude deixar de ficar curioso e interrompi o exame, voltando a falar com Aniceto, para perguntar: - Qual a explicação para este fenômeno? Estou chocado! E, antes que pudesse expressar melhor o espanto que sentia, Aniceto disse: - Já sei. Você está estranhando a presença de Ismália e Alfredo nas lembranças dele. E, diante de minha perplexidade, continuou: - Lembram-se da história de Alfredo? Este é o falso amigo que arruinou seu lar. Mas Paulo não cometeu só ingratidão, como também envenenou o espírito de outras mulheres, traindo outros amigos e destruindo a alegria e a paz de outros lares. Observando Ismália aflita e Alfredo desesperado em suas recordações, vemos as imagens criadas pelo caluniador para seus próprios olhos. Nossos amigos deste Posto progrediram, transpuseram as fronteiras da mágoa, escaparam ao domínio do ódio e hoje vestem-se de luz. Paulo, no entando, ainda os vê como imagina, para correção de suas culpas. O criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido consigo, para qualquer lugar. Tanto no plano físico, como aqui, o cenário real do espírito é o do mundo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais íntimas de nossa alma. Percebendo minha dificuldade para entender, de imediato, Aniceto prosseguiu, depois de pequena pausa: - Para esclarecer melhor, vamos nos lembrar da crucificação do Mestre. Sabemos que Jesus alcançou a glória maior logo após a suprema dor do Calvário. Entretanto, ainda o vemos frequentemente pendurado numa cruz, martirizado pelos nossos erros, flagelado pelos nossos chicotes, porque a visão interior a isso nos força. A condenação de Jesus foi um crime coletivo e esse crime estará conosco até o dia em que nos vestirmos da divina luz da redenção. A explicação não poderia ser mais clara. Sentia-me diante de grande revelação. - O dever nos dá a bênção da confiança, mas a dívida nos traz o fantasma da cobrança – disse ele, sério. Recuperando a serenidade, perguntei: - Mas Paulo veio parar aqui por acaso? - Não, – respondeu Aniceto – foi trazido pelo próprio Alfredo, que sentiu necessidade de educar os sentimentos. Nosso amigo, que hoje dirige esta casa de amor, desencarnou sob intensa vibração de ódio e desespero. Sofreu muito nos primeiros tempos, embora nunca tivesse sido abandonado pela dedicação de Ismália. Mas ele não pôde vê-la enquanto não se libertou das baixas manifestações de rancor. Socorrido em “Campo da Paz”, reconheceu as próprias necessidades. Assim que alcançou algum mérito, pediu pelo amigo infiel, procurou-o no Umbral e dedicou-se de forma tão profunda ao próprio crescimento interior, que conquistou posição de administrador de um Posto de Socorro. Trouxe Paulo consigo e hoje cuida dele como irmão. Não pensem que Alfredo conseguiu essa vitória espiritual apenas por querê-la. Ele a quis, procurou, alimentou e, agora, encontra-se em plena realização. Há muitos anos conversa com Paulo todos os dias. No começo, aproximava-se dele querendo apenas a reconciliação. Depois, com sentimentos de caridade. Mais tarde, alcançou entendimento, fazendo comparações. Em seguida, teve compaixão. Depois, passou a ter simpatia e, hoje, já tem conquistada a verdadeira fraternidade, o sublime amor de irmão pelo ex-inimigo. Fazendo rápida pausa, voltou a dizer: - Como vêem, o ensinamento de Jesus, quanto ao “batei e abrir-se-vos-á”, é muito profundo. Quando encarnados, insistimos em bater na porta das coisas exteriores, procurando facilidades e vantagens. Mas aqui, temos de bater na nossa própria porta, para encontrar a virtude e a verdadeira luz interior. Vicente, que havia ficado calado até ali, perguntou: - Mas Paulo vai ficar aqui indefinidamente? Aniceto fez um gesto expressivo e concluiu: - Voltará, em breve, à Terra. Ismália tem trabalhado muito para isso, porque não quer que ele, ao recuperar a lucidez plena, se sinta humilhado com a ajuda que recebe das próprias vítimas. Uma das mulheres que ele caluniou no mundo, já reencarnou e Ismália pediu-lhe que recebesse Paulo como filho, assim que fosse possível.