------------------------------------- OS MENSAGEIROS em português de hoje em dia Pelo espírito André Luiz - Série Nosso Lar Psicografado por Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier) Adaptado por Maisa Intelisano - http://colunas.voadores.com.br/maisa Este projeto visa uma maior popularização e compreensão da mensagem de André Luiz Divulgado pela lista voadores: http://lista.voadores.com.br ------------------------------------- 31 A CANÇÃO DE CECÍLIA Poucas vezes, no plano físico, tive a oportunidade de participar de reunião tão agradável. Todos os lustres estavam acesos e, lá fora, as grandes árvores, suavemente agitadas pelo vento manso, pareciam refletir o clarão da Lua. Algumas pessoas passeavam ao longo da varanda e das grandes escadarias. O castelo estava cheio de alegria, com a chegada de mais e mais convidados. Alfredo estava muito satisfeito em dividir com seus colaboradores diretos a tarefa de receber os amigos da colônia vizinha. A alegria transparecia de todos os rostos e eu, observando a beleza do cenário, pensava na bênção da vida social em ambientes em que já se compreende e pratica o “amai-vos uns aos outros”, longe da hipocrisia e das convenções inferiores. Conversávamos animados, quando Alfredo nos chamou para o Salão da Música. Houve alegria geral. A senhora Bacelar, de braços dados com Ismália, parecia encantada com a lembrança. Dirigimo-nos para o grande salão, fartamente iluminado por luzes azuis doces e brilhantes. Música muito agradável nos embalava a alma. Observei, então, que um coro de pequenos músicos executava peça graciosa, ao lado de um grande órgão, um pouco diferente dos que vemos na Terra. 80 crianças, meninos e meninas, apareciam ali, num momento vivo encantador. 50 tocavam instrumentos de corda e 30 permaneciam em posição de canto. Executavam, com perfeição, uma linda cantiga que eu nunca havia ouvido na Terra. Muito comovido, ouvi Alfredo explicar: - As crianças do Posto são como flores vivas para nós. Dão-nos perfume, alegria e encantamento, tornando mais suaves todos os trabalhos. Aproximamo-nos do órgão e sentamo-nos todos em confortáveis poltronas. Quando as crianças terminaram, em meio a muitos aplausos, Ismália pediu que Cecília tocasse alguma coisa. - Eu? – disse a jovem, vermelha – Se a senhora vem dos planos superiores, onde a harmonia é sagrada e pura, como posso tocar algo à altura de seus ouvidos? - Não diga isso, Cecília, – respondeu, sorrindo, a esposa de Alfredo – a música elevada é sublime em toda parte. Vá, Cecília! Ajude-me a lembrar do lar na Terra, nos dias mais felizes. E, antes que a jovem perguntasse o que preferia ouvir, Ismália continuou: - Os eventos musicais do Posto me levam a recordar a velha fazenda, quando vinha do internato... Meus pais gostavam das canções européias e, quase todas as noites, eu ensaiava ao piano... E, olhando Cecília com os olhos úmidos e brilhantes, concluiu: - Sua mãe deve se lembrar também da música predileta de meu querido pai. Notei que a senhora Bacelar disse algo a Cecília, em voz baixa, e a vimos ir até o órgão, sem vacilar. Com grande emoção, ouvimos a “Tocata e Fuga em Ré Maior”, de Bach, acompanhada pelas crianças entusiasmadas. Olhei para Ismália e notei, pela luz de seu olhar, que seus pensamentos íam longe, talvez relembrando o antigo lar na Terra. Vi-a enxugar lágrimas discretas e abraçar Cecília carinhosamente - Agora, Cecília, cante alguma canção sua. – falou a senhora, com ternura de mãe – Mostre-nos o seu coração... O casal Bacelar estava emocionado. Via-se, em seus gestos, o carinho que tinham pela filha. A jovem sorriu e voltou ao teclado, mas agora parecia completamente transfigurada. Seu rosto bonito parecia refletir uma luz diferente, que vinha de mais alto. Começou a cantar, de maneira comovente. A música parecia sair do seu coração, mergulhando-nos todos em suave emoção. Tentei memorizar as palavras da linda canção, mas seria impossível repeti-las fielmente entre os encarnados, assim como a escuridão da meia noite não poderia representar as claridades do amanhecer. Mas lembro-me de algo, para registrar aqui, com a fidelidade de que sou capaz. Como se estivesse rodeada de luzes diferentes daquelas que nos iluminavam, Cecília cantou com voz macia e carinhosa: “Guardei para os teus olhos As estrelas brilhantes do céu calmo... Guardei para tua alma Todos os lírios puros dos caminhos!... Amado meu, amado meu, Como é longa a viagem entre nós Neste oceano imenso da saudade, Ao sublime luar da eternidade! Em vão, a fada Esperança Acende a lua dentro de mim... Por que te fôste ao mundo, assim?! Volta, amado! Ainda mesmo que as tuas mãos estejam frias E que teus pés sangrem de dor. Trago comigo o bálsamo, a ternura, Volta a mim, Vem respirar, de novo, no jardim Da imortal união!... Curarei tuas chapas de amargura, Dar-te-ei o roteiro para a estrada, Amarei os que amas, Para que me abençoes com o teu sorriso. Volta, amado! Esquece a dor e a sombra do passado, Volta, de novo, ao nosso paraíso...” Quando cantou as últimas notas, vi seu rosto molhado em lágrimas, como se estivesse banhado em pérolas de luz. Notei que a senhora Bacelar, muito comovida, tocou de leve a mão de Ismália e falou: - Cecília não esquece dele. A esposa de Alfredo, sensibilizada, perguntou: - Vocês não têm novas notícias de Hermínio? - O infeliz tem vivido de queda em queda – explicou a nobre senhora – e Cecília sabe que não poderá contar com ele, por muito tempo ainda, tendo, por isso mesmo, muita mágoa no coração. Entretanto, ela não desanima e trabalha, sem parar, cheia de esperança. Nesse momento, a jovem voltava para junto da família, enxugando os olhos. Ismália abraçou-a e falou: - Meus parabéns, Cecília, não sabia que você havia progredido tanto na arte divina! E que bela canção!... A jovem fez um gesto de timidez, beijou a mão da amiga e respondeu: - Perdoe-me, Ismália, meu coração ainda está muito ligado à Terra!... E Ismália, de olhos úmidos e compreendendo seu sofrimento, abraçou-a mais forte e falou: - Não há crime em dedicar-se, Cecília. O amor é luz divina, ainda que brilhe no fundo do abismo.